A Cidade e a Névoa - Romance de Carlos Sepúlveda: 2º capítulo


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PODEM CHAMAR DE jOSÉ inácio QUE saiu de casa cedo, bem mais cedo que de seu comum hábito, como não usava fazer havia tantos anos. O fatigado pescador de pele áspera e dura, ao caminhar, bem estranhou a névoa. Sabia que, no inverno, é normal haver neblina, mas nunca as nuvens pastosas que o impedem de ver o inteiro caminho, por isso é preciso ir devagar, com cautela, de passos comedidos. Para ele, não era este grande problema algum; desde menino, acordava às quatro e meia, ainda com o céu estrelado, e seguia com o pai e o sono para a labuta matinal da pesca, mas não com demasiada bruma, nem tão cedo assim. Cada esquina, cada curva do caminho que levava ao ancoradouro, ele conhecia de olhos fechados, ou pesados de sonolência e desamparo. Seguia com o velho Honório, mastigando a noite e ouvindo os pigarros severos do pai, esforçando-se por segui-lo na rude jornada de pescadores O pai transformava essas jornadas em silencioso exemplo da dura vida. Naquela madrugada, depois de tantos anos, o ruço não parecia igual ao das outras vezes e não se pretendia chamar nevoeiro, mas ruço, que aquele outro nome, nevoeiro ou névoa, era para os bem letrados e os poetas, quando o manto embranquecido dava ares de vaga literatura. Estava espesso o clima, difícil de respirar; ao invés da sensação cortantefria da bruma; José Inácio sugava o ar com esforço, com o vigor de seus vastíssimos pulmões, habituados aos ventos livres e soltos do mar alto. Ardiam-lhe os olhos, o ruço cortava feito navalha e ele desejou beber um copo de café bem quente que lhe trazia o conforto do calor e o sabor da memória perdida na infância, com o pai. O sentimento não passava de uma vaga sensação que seu precário vocabulário não podia definir, mas não significa que não sentisse, significa que o não traduzisse. Fora ele um homem letrado, saberia que as memórias indizíveis é que são as que mais importam, pois é com elas que se escrevem poemas e se fazem literaturas, boas e más. Que é com os pensamentos invisíveis o fazer dos poetas. Também é com elas que as boas intenções povoam o inferno, principalmente quando a elas nos entregamos.
            Fazia parte de um antigo ritual de pescadores, que ele aprendera com o velho Honório, de parar no bar do seu Antonio, engolir um copo bem quente do café preto. Nos dias de luxo, vinha com leite. Antes mesmo dos cumprimentos, dos bons dias ao rude Antonio, cuja cara fechada recusava intimidades; a corrente morna da bebida enchia de vigor o ânimo dos pescadores, cujas conversas se aqueciam ao sabor das brincadeiras. Só depois é que seu pai explodia o vozeirão num bom-dia estridente e desinibido, por modo de atiçar desaforos e chamar sobre si a importância que supunha ter. Fora o chefe, o líder, o capitão seu Honório.
Seu Antonio sempre respondia com um resmungo ríspido como se gentileza fosse desaforo. Respondia assim porque eram, os dois velhos, íntimos, ambos amassaram o pão da vida e sobreviveram às agruras do trabalho rude. Às vezes, dependendo de talvez seus sonhos, mal ou bem sonhados, seu Antonio retrucava: Bom dia por quê?ou, bons dias para todos, ninguém adivinhava qual das duas falas se seguiriam. Seu Antonio, com certeza, não passou a dura existência distribuindo sorrisos. Um bom dia burguês não é para quem mói a vida na aspereza de um precário quiosque junto à praia. Sua dura existência repetia um pouco a pátria de onde viera, pátria de camponeses que um dia conquistaram o mundo, mas isso foi há muito tempo, um tempo difícil de crer e que se tornou uma herança insuportável denunciada nos livros de história de seu país, por isso seu Antonio não conhecia com detalhes a fantasia secular de sua Pátria, nem dela podia se orgulhar. Aquela grandeza perdida não lhe permitia a aristocrática delicadeza dos bem educados, pois dela jamais participou, exceto na pouca escola que tivera na crua infância do Mondego, antes de cumprir o destino de sua terra: viver longe dela e fornecer braços baratos ao mundo, vivendo do áspero e da ferocidade do dia.
Seu Antonio teria a idade provável do velho Honório; se não estivesse este descansando no fundo do mar alto como convém aos pescadores de verdade.O mar é sempre o túmulo mais digno que se pode ter, sendo pescador. Talvez pudessem espichar os longos silêncios com que dialogavam mundos improváveis, seu Antonio e o velho, sob o olhar inocente do pequeno José Inácio a dizer um ao outro coisas que menino não podia compreender, mas podia suspeitar dos risos escancarados e dos olhares escandalosos que lançavam aos corpos das mulheres que por eles passavam, dos ditos escandalosos que a criança mal podia compreender. Mas compreendia que não era para contar para a mãe.
            No entanto, que malícia demoníaca impedia José Inácio de enxergar, naquela manhã, a birosca do seu Antonio?! A cerração espessa em torno do pescador impedia-o de vislumbrar com nitidez o que a volta dele se ia tornando vago, fluido, amorfo. José Inácio estancou o passo e mirou o céu, branco branco branco, sem ser céu. Sem nada compreender e menos ainda entender, José Inácio temeu pela faina do dia. O barco não vai sair, não vai ter peixe para vender. E foi caminhotateante que chegou ao quiosque. Tudo fechado, nem o tampo de madeira que servia de balcão e janela, simultaneamente, estava arriado. Não se sentia o cheiro sempre-memória do café, celebrando o dia. A névoa brancoleitosa ardia-lhe os olhos ressecados. Seu Antonio não abriu o bar naquela quase manhã. (Nunca tinha acontecido, não que se soubesse), nem os pescadores apareceram, portanto não tinha café, só a bruma ardia sem alívio, acidamente intrusa.
            Em silêncio, José Inácio sentou-se cauteloso, como uma pálida esfinge, no banco de madeira e torceu para o sol iluminar o céu opaco, seu Antonio acordar, o quiosque abrir, a bruma evanescer e este enredo começar, ou sequer existir, se acaso a névoa levantasse. Mas não levantou, nem agora nem mais tarde.
            José Inácio, na solidão da manhã estranha, ainda tentou ouvir as ondas quebrando na praia, talvez chamando-o para a labuta, mas não ouvia direito, era como se uma grande caixa de veludo envolvesse as ondas, sem se ouvir o som de elas quebrando.
            Esfregou os braços para espantar o frio, encolheu as pernas fortes, abraçando os dois joelhos, em atitude de inquieta e desequilibrada espera uterina.. De sua boca seca, uma palavra brotou, áspera, como a desesperança:
            Pai!?
            Que demoníaca malícia recobrira a cidade daquela maneira? Já se sabe que os mistérios do mar são intensos e infinitos. O grande mar é maior do que pode supor nossa inquieta segurança, ele pode tudo ou mais. Então, este nevoeiro denso e ácido podia ser uma desses mistérios sem fim. Se o pai estivesse vivo, sabia o que fazer, mas eu não, sou pouco para tanto segredo.
            José Inácio era ainda moço e não sabia ainda de todas as coisas que deveria saber um pescador experiente. O pai morrera muito cedo. De todas as coisas que com ele aprendeu a gostar: o silêncio prudente no meio do mar, as vagas mansas balançando o barco, os longos suspiros olhando o nascer do sol avermelhando o horizonte, tudo isto ainda era insuficiente para fazê-lo um homem. E naquela manhã incomum, com o nevoeiro adensando, o barco sumindo no meio do branco, José Inácio sentiu-se pequeno como um grão de milho, sem saber o que fazer.
            E assim, meio estirado no precário banco de madeira, ele torcia para que o sol nascesse afinal e dissolvesse a tristeza da madrugada.
            Tinha sim, muita coisa ainda por aprender, mas tinha também de buscar o pão de cada dia, buscar os peixes, vendê-lo por preço vil e esperar que as coisas melhorem, com a ajuda de Deus.
            A palavra outra vez brotou como desprotegida de seus lábios ressecados:
            Meu Pai???


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