No Rio, bicheiros querem se livrar do Carnaval


Afastamento gradual dos 'patronos' põe as agremiações diante de um desafio impensável nas últimas décadas: viver sem o dinheiro da contravenção
Rafael Lemos
 Imperatriz Leopoldinense desfila no Carnaval 2012, no Sambódromo do Rio de Janeiro. Presidente da escola, Luizinho Drumond, está foragido
Imperatriz Leopoldinense desfila no Carnaval 2012, no Sambódromo do Rio de Janeiro. Presidente da escola, Luizinho Drumond, está foragido (EFE)
A estratégia de sair de cena já foi testada por outro dirigente. O Capitão Guimarães, ex-presidente da Liesa, afastou-se do cargo em 2007, após ser preso na Operação Furacão, da Polícia Federal. Depois de solto, ainda voltou a ser preso em desdobramentos da mesma investigação, mas aos poucos foi sendo esquecido pela polícia
Ao longo de quatro décadas, o poder econômico dos bicheiros transformou o Carnaval carioca em uma festa chamada, no mundo do samba, de "o maior espetáculo da Terra", hoje transmitido para todo o mundo. Nesse período, figuras como Castor de Andrade (Mocidade Independente de Padre Miguel), Anísio Abraão David (Beija-Flor) e Luiz Pacheco Drumond (Imperatriz Leopoldinense) conquistaram um prestígio social incontestável. Compraram apartamentos nos endereços mais caros do Rio de Janeiro, receberam e foram convidados para festas de socialites e empresários e foram tratados com deferência pelas autoridades. No ano passado, homenageado pela Beija-Flor, o rei Roberto Carlos não foi exceção a esse estranho arranjo, e posou feliz para fotos ao lado de Anísio.
Apesar do poder que acumularam e da influência que exercem, nem sempre às claras, o reinado dos capos da contravenção dá sinais de que chega a seu fim. Depois do desfile deste ano, o patrono da Beija-Flor, que está internado sob custódia em um hospital da zona Sul do Rio de Janeiro, decidiu se afastar da escola. A medida teria como objetivo tirá-lo do foco do noticiário, depois que mais uma grande e barulhenta operação policial voltou a pôr em evidência o patrimônio acumulado com a contravenção. “Dizem que o patrono não quer mais saber de samba, que cansou”, confirmou Laíla, diretor de Carnaval da Beija-Flor, durante a apuração no Sambódromo.

Para o bem do samba, espera-se que outros bicheiros sigam o exemplo de Anísio, em movimento incentivado também por uma postura mais firme do governo do estado contra a contravenção, depois de décadas de conivência institucional. O governador Sérgio Cabral disse, em entrevista no Sambódromo, que está na hora de as escolas terem independência financeira. A permanência dos bicheiros no comando das agremiações é, para Cabral, "a ilegalidade em cima da ilegalidade".

A estratégia de sair de cena já foi testada por outro dirigente. O Capitão Guimarães, ex-tenente do DOI-Codi e ex-presidente da Liesa, afastou-se do cargo em 2007, após ser preso na Operação Furacão, da Polícia Federal. Depois de solto, ainda voltou a ser preso em desdobramentos da mesma investigação, mas aos poucos foi sendo esquecido pela polícia.

AGNews
 Roberto Carlos e Anísio: simpatia é quase amor
Roberto Carlos e Anísio: simpatia é quase amor
Além de Anísio, a Operação Dedo de Deus tinha como alvos os presidentes da Grande Rio, Hélio de Oliveira, e da Imperatriz, Luiz Drumond. Os dois, no entanto, estão livres. Helinho conseguiu um habeas corpus, e Luizinho está foragido. No ano passado, o ex-presidente da Vila Isabel, Wilson Vieira Alves, o Moisés, foi condenado a 23 anos de prisão pelos crimes de contrabando, quadrilha e corrupção ativa.

Ascensão e queda - As escolas de samba costumam sentir o baque da perda de seus bicheiros. Um exemplo desse efeito é a Mocidade, que nunca mais foi campeã após a morte de Castor de Andrade. Com o patrono, a escola conquistou os títulos de 1979,1985,1990, 1991 e 1996. Desde 2003, a agremiação de Padre Miguel não volta no Sábado das Campeãs. Recentemente, a família Andrade ensaiou uma volta à escola, com Rogério, sobrinho de Castor. No entanto, o patrono está foragido e, desde então, parou de ajudar a Mocidade.

O Salgueiro também sentiu a morte de seus patronos Miro Garcia e Maninho, no final de 2004. A escola ainda teve um bom desempenho no Carnaval de 2005, ficando em quinto lugar, mas quase foi rebaixada no ano seguinte, amargando a 11ª colocação.

Já a Beija-Flor, campeã em seis dos últimos 10 anos, tem enfrentado a forte concorrência da Unidos da Tijuca, uma agremiação sem patrono. Além do carnavalesco Paulo Barros, a Tijuca, campeã em 2012, tem como trunfo uma gestão empresarial, com departamento de marketing e captação de patrocínios. Este ano, estima-se que o vitorioso desfile da Tijuca tenha custado 10 milhões de reais, sem um centavo da contravenção. A folia ainda nem acabou, e a Comissão de Frente da escola já tem 30 shows agendados, para manter a máquina funcionando. Ainda é um exemplo isolado. Mas pode significar uma virada no Carnaval carioca, com escolas capazes de sobreviver sem a figura do bicheiro.

O primeiro patrono - Nas décadas de 1940 e 50, o bicheiro Natal da Portela inaugurou a figura do patrono, destinando parte da fortuna obtida na contravenção para transformar a sua agremiação na maior de todas. Ganhou muitos campeonatos e prestígio na sociedade. Mais tarde, em busca da mesma legitimação, outros bicheiros se aproximaram das escolas de samba das suas áreas de atuação. Nos anos 1970, 80 e 90, figuras como Castor de Andrade (Mocidade Independente de Padre Miguel), Anísio Abraão David (Beija-Flor) e Luiz Pacheco Drumond (Imperatriz Leopoldinense) alçaram as escolas de samba a outro patamar. O poder econômico da contravenção levou luxo aos desfiles e agigantou a festa, que ganhou projeção internacional com o trabalho de artistas como Joãosinho Trinta, Max Lopes, Renato Lage e Rosa Magalhães.

"O processo começou nos anos 60, mas a década de 70 foi fundamental para o estabelecimento dessa relação. Um marco é o título da Beija-Flor em 1976, com o enredo Sonhar com rei dá leão, do carnavalesco Joãosinho Trinta", explica o historiador Felipe Magalhães, pesquisador e autor do recém-lançado livro Ganhou, Leva! (editora FGV).

História - O jogo do bicho nasceu no Rio de Janeiro, precisamente no dia 3 de julho de 1892. É uma criação do Barão de Drummond, que fundara poucos anos antes o primeiro Jardim Zoológico da cidade, no bairro de Vila Isabel. Como estratégia para alavancar a receita do negócio, o empresário pleiteou, e conseguiu, uma licença da Câmara dos Vereadores para a exploração de apostas em jogos.

A dinâmica era simples. O bilhete de entrada no Zoológico trazia a imagem de um animal, e dava direito a participar de um sorteio no fim do dia. Quem tivesse o bilhete do bicho sorteado ganhava como prêmio o valor do ingresso multiplicado por 20.

O historiador Felipe Magalhães conta que, desde o início, o jogo do bicho pulou os muros do zoológico, com a instalação de uma loja na Rua do Ouvidor, a mais movimentada da cidade. Ali, era possível comprar o bilhete e, consequentemente, participar do sorteio, sem sequer passar perto do zoológico. Ninguém sabe ao certo o motivo, mas o jogo do bicho caiu nas graças do povo e fez um sucesso estrondoso. Em pouco tempo, o Barão perdeu o monopólio do jogo, que passou a ter bilhetes vendidos também por terceiros.

“No final do século XIX, as apostas faziam parte da rotina no Rio de Janeiro. Apostava-se em tudo: remo, turfe, boliche, corrida... Havia um grande número de loterias espalhadas pela cidade, entre legais e ilegais. As legais eram as que pagavam a taxa para a prefeitura", explica.

O jogo do bicho, no entanto, logo passou a ser mal visto. Em 1895, veio a primeira proibição. O zoológico acabou falindo. "Vila Isabel foi o primeiro bairro planejado do Brasil. Era um projeto modernizador, inspirado em Paris. Nesse contexto, o zoológico foi pensado como um espaço de diversão, útil e agradável. Com o jogo, acabou sendo visto como um antro de vício e sendo o símbolo do fracasso de um projeto civilizador", analisa Magalhães.

Só em 1940 o jogo entrou no Código Penal como contravenção – condição em que permanece até os dias de hoje. A justificativa de tal classificação é a de que este seria “um crime menor”, no qual seria determinante a conivência da vítima. A atuação dos contraventores, no entanto, sempre foi muito além da ilegalidade nas apostas, e a perpetuação do poder se dá também com crimes como homicídios, ameaças e a conexões com quadrilhas de outras áreas de atuação.

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