“O olho da mulher” tem lançamentos neste mês de março


O livro “O olho da mulher”, publicado originalmente em 1992, chega agora ao Brasil, como a primeira publicação no país com as poesias da nicaraguense Gioconda Belli.
Por Gabriela Moncau*
A coletânea reúne sua produção poética desde os anos 1970 até o ano de sua publicação e tem lançamento previsto em março em Diamantina, Belo Horizonte, em Minas Gerais, São Paulo e São José dos Campos (SP).
Guerrilheira
Gioconda nasceu em Manágua, capital do país cuja revolução ela fez parte ativamente. Já bastante jovem entrou na Frente Sandinista de Libertação Nacional, participando da luta armada contra a então ditadura da família Somoza (1936 – 1979). Por um bom tempo manteve sua militância clandestina até de seu marido e foi obrigada a se exilar no México em 1975, passando também por Costa Rica e Cuba, de onde continuou atuando em nome do movimento. Voltou à Nicarágua apenas em 1979, com a vitória sandinista, e a partir daí ocupou importantes cargos na área da comunicação do governo revolucionário. Belli rompeu com o partido sandinista em 1993 e é hoje grande crítica de Daniel Ortega e de seu governo.
“Parece mentira, mas mesmo um país que sofreu tanto e guerreou tão valentemente para livrar-se de uma longa e repetitiva ditadura, pôde rebobinar a história e recolocá-la na vulnerável posição de submeter-se ao desígnio de quem maneja com autonomia todos os instrumentos do poder”, criticou Belli no texto de despedida de seu coluna no jornal nicaraguense “El Nuevo Diário”, em janeiro. “É assim que Daniel Ortega – que desde 1979 tem ocupado, de uma maneira ou de outra, uma posição chave na política nicaraguense – se consagra, ao retomar as rédeas do governo, como o dirigente de mais longa trajetória que já tivemos”, afirma.


Pulsação
“Quem porventura hoje travar um primeiro contato com seus versos, mesmo sem conhecer o contexto político em que foram escritos, irá sentir a pulsação de um universo cultural, geográfico e histórico – a Nicarágua antes, durante e depois da revolução”, afirma Silvio Diogo, para quem a maior contribuição de Belli “reside justamente na capacidade de renascimento, de ‘cavar a esperança na desesperança’, de ousar pela opção em afirmar a vida quando tudo ao redor parece querer dizer morte”.
Ela narra sua história em seu livro autobiográfico “O país sob minha pele”, pela Editora Record, que publicou também os romances “A mulher habitada” e “O país das mulheres”. De seus 15 livros (bastante premiados), esses, somando-se agora ao “O olho da mulher” são os únicos publicados no Brasil.
Entusiasmo
“Tomei contato com o livro em espanhol (“El ojo de la mure”) em 2008 e logo que li
os primeiros poemas, tive o impulso de traduzi-los para o belli-capa-iportuguês e, assim, continuei a ler já traduzindo, na tentativa de incorporar aquele universo de descobertas, encantos e tempestades que a leitura me provocava”, conta Silvio Diogo. Entusiasmado com a ideia de trazer o livro para o Brasil, conseguiu o número da autora e telefonou no dia do seu aniversário de 60 anos dela, em dezembro de 2008. “Ela se mostrou simpática e solícita à ideia, encaminhando-me à agência espanhola que a representa internacionalmente. Até aí, tudo ótimo. Depois veio o périplo”, relata Silvio, relembrando as dificuldades para conseguir editoras que aceitassem lançar o livro. Foi então que decidiu assumir a edição do livro, pela Arte Desemboque Casa Editorial, recém nascida em outubro do ano passado, em Diamantina. A edição, com 135 poemas (em 256 páginas), será vendida por R$ 25 e pode ser encomendada pelo site da editora.

E por que o interesse específico em Gioconda Belli? Silvio Diogo confessa que escolhas de poesias guardam sempre um elemento de repercussão íntima. “Percebo que a poesia de Gioconda Belli é capaz de provocar terremotos em quem lê, sem precisar se valer de argumentos discursivos ou clichês revolucionários”, define. “Ao mesmo tempo, o erotismo, a potência corporal de seus versos, mistura-se a transformações muito mais que íntimas. É uma intimidade que se reparte, como Belli sugere no título de um outro livro seu, “Mi íntima multitud” (“Minha íntima multidão”)”, descreve, completando: “É a voz de uma mulher de um país latino-americano que viveu um processo revolucionário na segunda metade do século 20. É o olho dessa mulher que expressa poeticamente o mergulho na experiência da luta, do amor, da maternidade, do exílio, da maturidade, das desilusões, da insistência na utopia”.
A tradução de “O Olho da Mulher” foi feita pelo poeta Silvio Diogo; as notas e o prólogo por Bethania Guerra de Lemos, doutora em literatura com uma tese sobre Belli, a orelha é assinada pelo educador popular Allan da Rosa e as ilustrações são da artista plástica Carolina Tiemi Teixeira.
Lançamentos:
Diamantina
08/03 — quinta-feira, às 21 horas
Local: Bar Meio Tom
Endereço: Praça Dr. Prado 136, Centro, Diamantina
Informações: (38) 3531.2641

Belo Horizonte
14/03 — quarta-feira, às 20 horas
Local: Sarau Coletivoz — Bar do Bozó
Endereço: Av. Djalma Vieira Cristo 185, Vale do Jatobá, Belo Horizonte
(Ônibus: no Centro, Linhas 32, 33 e 35; Na Estação Barreiro, Linha 326)
Informações: (31) 8680.2714

15/03 — quinta-feira, às 20 horas
Local: Empório Trecos e Afetos
Endereço: Av. Augusto de Lima 233, Centro, Belo Horizonte
Edifício Maletta, Loja 64, 2º Piso
Informações: (31) 9649.3590

São Paulo
21/03 — quarta-feira, às 21 horas
Local: Sarau da Cooperifa — Bar do Zé Batidão
Endereço: Rua Bartolomeu dos Santos 797, Chácara Santana, São Paulo
Informações: (11) 5891.7403

22/03 — quinta-feira, às 19h30
Local: Espaço Cultural Latino Americano (ECLA)
Endereço: Rua da Abolição 244, Bixiga, São Paulo
Informações: (11) 3104.7401

São José dos Campos
com apresentação musical do Trio José

24/03 — sábado, às 13 horas
Local: Literacia Livraria
Endereço: Rua República do Líbano 291, Jardim Oswaldo Cruz, São José dos Campos.
Informações: (12) 3941.9918

*Gabriela Moncau é jornalista.
Fonte: Revista Caros Amigos

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