SUS só é bom para 2% dos brasileiros, diz ministério.


SUS: de Norte a Sul do país, diferenças no atendimento
Em Florianópolis e Vitória, satisfação. Em Ribeirão Pires, no ABC, e em Maceió, queixas
A elaboração do primeiro índice de desempenho do SUS revelou grandes contrastes entre regiões, estados e municípios. Santa Catarina obteve a melhor nota entre os estados (6,2), e Vitória foi a melhor capital, com 7,08. Maceió, por sua vez, teve um dos piores indicadores entre as capitais (5,04), e o município de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, também figurou entre os de pior atendimento do SUS (3,76).A gestante Graciela Rocha, de 26 anos, que espera os trigêmeos Luca, Liz e Kay, disse que o atendimento que tem recebido do SUS merece nota nove. Ela está internada há um mês na maternidade Carmela Dutra, em Florianópolis, uma das mais tradicionais do estado, por uma gravidez de risco. Está no sétimo mês de gestação e vai ficar em repouso até o nascimento dos bebês. O cuidado especial, afirma ela, vem desde o começo, com o pré-natal, que ela faz na própria clínica da maternidade.


- Não tenho do que reclamar. O médico responsável é excelente, faço ultrassom toda a semana, os exames são na hora, as enfermeiras estão prontas para atender.
Como fica a maior parte do tempo deitada, Graciela faz sessões de fisioterapia e recebe orientações sobre amamentação e cuidados para quando os bebês chegarem. Uma enfermeira diz que ela poderá precisar também do banco de leite da maternidade. A futura mamãe acredita que, se dependesse de um posto de saúde, não teria um tratamento tão rápido e eficiente.
- Nos postos de saúde, eu sei que sempre demoram mais para atender.
A cidade de Vitória obteve a melhor avaliação de infraestrutura e de atendimento à população pelo SUS, mas, para o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em políticas públicas Roberto Garcia Simões, o perfil e a renda da sociedade capixaba influenciaram nos resultados da pesquisa.
- Vitória é uma cidade onde os moradores têm alto poder aquisitivo e possuem plano de saúde. Portanto, uma parte considerável da população não utiliza a saúde pública, e a outra parte, bem menor, tem acesso ao SUS - argumentou.
Para o professor, a capital capixaba possui uma rede de saúde bem montada:
- Desde os bairros de classe média alta até os bairros pobres, encontramos uma rede de saúde que oferece os procedimentos básicos à população.
Falta de especialistas e demora para marcação de consultas são os principais problemas apontados pelos moradores de Ribeirão Pires, cidade que faz parte da região do ABC paulista, com mais de 113 mil habitantes e um orçamento previsto para este ano de R$ 211 milhões, dos quais, segundo a secretária municipal de Comunicação, Vera Guazelli, R$ 59 milhões são destinados à saúde. O município faz parte do grupo três, composto por 632 cidades de médio desenvolvimento.
O manobrista Reinaldo Almeida dos Santos, de 44 anos, diz que, além da falta de especialistas, o tempo gasto para a marcação de consultas é longo.
- Preciso passar no cardiologista e disseram que aqui na UBS (Unidade Básica de Saúde) Central não tem. Mandaram-me para Mauá (município também no ABC). Outra coisa é o tempo que demora para a gente marcar uma consulta, muitas vezes mais de 30 dias - conta o manobrista.
- Sempre fui bem atendida, mas faltam médicos para atender a tanta gente. Se contratassem mais profissionais ajudaria bastante, mas isso não é um problema só daqui, acredito - ressalta a aposentada Arlinda Barbosa Dourado, de 67 anos, que procurou atendimento no Hospital São Lucas, o único público do município, queixando-se de infecção no aparelho urinário.
Segundo a secretária de Comunicação de Ribeirão Pires, Vera Guazelli, no período avaliado (2009/2010), a rede municipal não possuía unidades de saúde no modelo do Programa Saúde da Família, do Ministério da Saúde, implantado no município no segundo semestre do ano passado, o que teria prejudicado o desempenho da cidade em alguns indicadores avaliados e de maior peso no IDSUS.
- Hoje, a gente investe 23,7% do orçamento, mais do que os 15% obrigatórios por lei - diz a secretária.
Em Maceió, há seis meses que a dona de casa Silvânia da Silva Rocha tenta marcar um mastologista. O exame na mama é para prevenir o câncer. O problema é que o médico faltou duas vezes, e as consultas foram adiadas. Ontem, dona Silvânia chegou cedo, enfrentou fila e, no início da tarde, voltou de novo para casa, sem o exame. Volta no dia 22 de março.
- Não tinha médico, foi o que disseram. Espero que tenha no dia 22 - resignou-se.
Entre pacientes e acompanhantes, 2.600 pessoas passam diariamente pelo PAM Salgadinho, o maior posto de saúde de Alagoas, que atende exclusivamente a pacientes do SUS. Ele é referência no Estado em todas as especialidades, até acupuntura. Apesar da importância, é um dos lugares mais caóticos da saúde pública.
Geraldo Antônio da Silva chegou ao PAM com encaminhamento do Hospital Universitário, situado no outro extremo da cidade. Andou duas horas e meia de ônibus, esperou e enfrentou fila. Ele aguarda há dois anos para marcar um exame. A notícia veio do atendente:
- Esse médico se aposentou e não tem outro.
- Pois é. E como eu fico? Estamos lascados no SUS - queixou-se Geraldo.


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