A Cidade e a Névoa - Romance de Carlos Sepúlveda - 5º capítulo


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    naquela manhã nevoenta não houve a missa das sete horas. Padre Luís agitou o corpo franzino e  nervoso, ainda moço. Abriu a porta da sacristia e espantou-se com a densa bruma que quase o impedia de respirar, mesmo dentro da igreja. Não encontrou as beatas que preparavam o ambiente para a celebração matinal. A nave estava vazia; ouvia-se ao longe o eco de vozes aflitas, percebiam-se ansiosos olhares de quem se encontrou com o inesperado, seus próprios passos agitados ecoando no silêncio do imenso salão.



Não eram os refletidos gestos de quem entregou o corpo e a alma (mais a alma do que o corpo, se é que, afinal, se separam ambos) à devoção da Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Padre Luís imaginava surpreendentes rituais como quem se encontra sem saber o que fazer ante a névoa densa no ambiente. A explicação é que talvez tivesse chegado a hora do encontro tão obstinadamente aguardado, o momento em que Deus-Pai havia de prová-lo além do que humano lhe fora possível ver, ou sentir, ou tocar, e ele viveria o mistério da fé com toda força da verdade vivida. Somente a derrocada do cotidiano e da lógica do que é o comum viver poderia ser a porta de entrada para o Mistério. Os sonhos sonhados foram os de sempre na noite anterior, a mesma incerteza dura, as ambigüidades da humana existência, os latejantes apelos da carne que tantas vezes atormentara Santo Agostinho, e que ele negara, e tantas vezes o houvera enganado e ainda aí estão a provar um pobre iniciado. O nevoeiro arrancara-o da possibilidade ingênua, da beatitude inocente de presbítero, para declarar-se fenômeno inexplicável mistério insondável, porta aberta para a passagem estreita que leva ao outro lado.
            Não fora ele agraciado com a fé rude dos profetas e antepassados habitantes do deserto, nem com a fé rudimentar e absoluta que tiveram os santos medievais; a sua fé sempre fora carregada de dúvidas e de vazios sobre um mundo que se vem esfacelando, com os homens destruindo tudo o que já uma vez tivesse sido rocha, ou pedra ou simples flores aquáticas representando alguma certeza segura. Compreendia que deste mundo só sabia o que podem ver os olhos, porque o sumo, o centro, o quê das coisas, isto não lhe fora concedido saber, tanto quanto o comum dos mortais. Cabia-lhe o sentimento do fim e só podia contar com sua própria ignorância, carregada de boa-fé, para compreender a névoa estranha, mas isto era mais fácil pensar do que fazer. Sua condição de padre apenas o consolava do imenso isolamento em que vivia. Justificar-se pela fé: uma tarefa quase impossível, mas necessária, conforme ensinava o Evangelho de Paulo, também urgente e incompreensível. No entanto, não queria a fé mutilada pela cegueira da ignorância, queria a fé e a lucidez, queria uma grande festa da razão cujo prêmio fosse a definitiva compreensão da existência de Deus e de seus mistérios.A fé que o ajudaria a suportar o humano sofrimento mas com a luminosa esfera solar da manhã verdadeira, o sumo da verdade, o limite afinal atingido.
            Quanta vez pensara na loucura da fé, que resistia a toda prova, para acalentar nele o sonho da Salvação? Quanta vez pedira uma prova de sua fé, um ato qualquer, para além da humana compreensão e que tivesse o condão de anular a avassaladora força da dúvida e da razão.
            Os fiéis eram gente simples, miseráveis famílias de pescadores de mãos calejadas, suas mulheres arrastando a escandalosa prole, todos tostados de sol Amavam, com a mais acanhada ternura, um Jesus como eles, sem metafísica, sem teologia, um Jesus de pés gretados e de mãos espessas, um Jesus, simplesmente, que era como um retrato na parede: um jovem de olhos azuis, cabelos claros, descendo sobre os ombros, a pele branca, o rosto pacificado pela arte da pintura, em perene beatitude ainda que, a seus pés, morresse uma criança com fome e patinasse na lama da miséria um mestiço americano. Um Jesus em que não se espelhavam, mas que se pretendiam mirar, por mais diferente que fossem seus rostos. Na periferia da cidade, esses homens e mulheres descomplicavam a fé e a vida; não lhes toldava a meia-luz dos juízos escolásticos que Padre Luis aprendera no seminário em meio a infindáveis torneios de lógica escolástica, de retórica e argumentação. Essas pessoas simples amavam a um Jesus quase tão humano quanto eles mesmos, por isso entendiam a mensagem de um modo direto, ingênuo, às vezes precário, porém sempre espantosamente sincero.sabe era só isso mesmo? E Padre Luis os invejava e, no entanto, era um espelho em que os pobres se miravam, um espelho que ele supunha embaçado, irremediavelmente indigno de ser mirado. Mal sabiam eles que eram mais versados em teologia do que supunha toda a vã metafísica em que fora padre Luis educado no seminário. Tanta filosofia para tão rala fé!.
            Ali, parado, nos degraus do altar, contemplou a Igreja envolta por uma bruma seca, uma névoa leitosa e espessa que se imiscuía pelas frechas das portas, pelas janelas, até para dentro da alma. O nevoeiro dançava a dança delicada de um enigma. Padre Luis benzeu-se, ajoelhou-se e implorou a Deus para que, finalmente, lhe tivesse dado o sinal, os sinais. Porém, estava só, irremediavelmente só na manhã brumosa, não obstante, seu coração celebrasse uma despojada e cuidadosa esperança. Podia ser que naquela manhã fantasmagórica talvez se abrisse para a vivência da revelação, da epifania, pura e dura, como devia ser a fé absoluta, mesmo que loucura fosse ou por isso mesmo. Talvez aquela manhã invisível traduzisse a experiência que tanto almejara. O mergulho na bruma espessa poderia ser uma passagem para a possibilidade de viver o profundo mistério que só a fé vivida em êxtase poderia oferecer.
            Ah, Senhor, é preciso andar na corda bamba, entregar-se a um abismo profundo por onde se vai despencando até o sem-fim das coisas Isso é a fé, um trapézio em que um cego mergulha na Nada..
            Aquela manhã única repetia os sonhos que tivera na infância, quando ainda o chamamento era uma hipótese remota e não uma vocação precoce, como lhe dissera Frei João, amigo e confessor da família. Dissera-lhe que fora escolhido do Senhor para Sua missão. Acreditou e fez-se padre. Esta nova vida, porém, ficou esmagada na melancólica rotina de um cotidiano medíocre em cidade do interior. Agora, era o nevoeiro que o desafiava. E se não puder consolar seu rebanho? E se não for capaz de conviver com a prova a que era exposto? Que dia seria este quando tudo embranquecera o só lhe restavam as orações, e o terror. Então esta era a prova, era esta a passagem pelo despenhadeiro capaz de restituir-lhe uma paz que nunca teve e de que, no entanto, precisa.

            Aos poucos, tímidas e medrosas, as beatas foram se chegando, silenciosamente, para a missa das sete. Como sempre, nenhuma delas ousou dirigir-lhe a palavra ou articular a pergunta que seria óbvia: Padre Luis, o que se passa? Que neblina é esta? Estamos sendo castigados? Quando vai passar? Por Deus que lhe pouparam as explicações, que ele também não as tinha. Muito menos poderia inventar alguma, estando ele mesmo tomado de surpresa. Mas era assim este povo: sempre silencioso, olhando direto em seus olhos, confiantes no que sua palavra representava. Este povo é bom porque é tolo, ou é tolo porque é bom? Deus, teria tempo de descobrir?
            Mas podemos perceber que Padre Luis estava feliz e consolado. Afinal, alguma coisa extraordinária acontecia-lhe, alguma coisa não natural que se abre para os Mistérios que são os claros sinais da presença divina. Afinal, as longas rotinas terminaram. Para isso se tornara padre, para que seu enigma pessoal e último pudesse ser decifrado. Enfim, os dias iguais e sem sentido serão preenchidos pelo inusitado nevoeiro a justificar sua vida, a dar-lhe um sentido que nunca tivera.Para isto é que se fizera religioso, então, por que a surpresa?.
            Ele ali, agora, envolto pela névoa, contemplado pelas beatas como um santo em seu andor, ele desfrutava a glória de viver o inexplicável por meio do qual seria possível tocar o doce manto da santidade.
            Lentamente, dirigiu-se ao centro do altar, ajoelhou-se na direção do Cristo crucificado e abriu os braços em cruz. Ergueu o rosto pálido, balbuciou uma breve oração e levantou-se.
            Agora, de frente para os poucos fieis que se arriscaram a sair de casa naquela manhã, Padre Luis pronunciou, pausadamente:
            Bem-vindos à casa do Senhor.
            Há quem tenha visto em torno da figura magra um halo de luz, esplendorosa, como que celebrando alguma coisa gloriosa e irrepetível.
Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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