A Cidade e a Névoa - Romance de Carlos Sepúlveda - 6º capítulo

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    já é tempo de dizer que também na cidade os muitos relógios pararam. Marcavam todos, por todos os lugares, seis horas e quarenta e oito minutos, ou seis horas e dez minutos, ou cinco horas e minutos, ou outra hora qualquer, não se podia ter certeza. As emissoras de rádio estavam fora do ar, os canais de televisão emitiam manchas cinzentas e chiavam como farelos numa folha de zinco arrastada no asfalto. Por estranho, ou muito estranho, é que não faltava energia elétrica, porém os telefones não funcionavam, como já aqui foi dito, muito menos os celulares, cujas sutilezas tecnológicas não parecem ter resistido a um simples nevoeiro. Em resumo, para ser bem preciso e direto, o tanto que se pode ser quando se conta uma situação como essa, é que a cidade enevoada por espessa camada de lívida cerração não mais fazia parte do mundo familiar, talvez fizesse de algum outro, se é possível supor existirem outros para tais circunstâncias. Por isso, estavam perdidos os habitantes, sem saber do que se tratava nem de quem socorrer-se, ou a quem pedir ajuda.

            Naturalmente (um advérbio um tanto alarmante dadas as circunstâncias) deviam cuidar do estado de coisas as chamadas “autoridades constituídas”. Aos poucos, foram elas percebendo a gravidade da situação, foram-no muito lentamente, porque assim funciona qualquer governo quando enfrenta grave situação: ficam à espera de alguma ordem ou mando e, como não se pode atropelar a cadeia de comandos, é preciso seguir rigorosamente os trâmites para não impedir o bom funcionamento das ações e não atropelar a incomparável razão de Estado, mesmo que neste caso não haja razão e muito menos Estado, pois se trata de uma pequena cidade à beira-mar como já aqui foi dito e redito. Seu povo não dispõe da malícia das cidades maiores; não obstante, tanto faz uma cidade ou um Estado quando se lhe sucede alguma desgraça, porque o espanto é o mesmo, as preces iguais, as explicações repetidas e os temores, idênticos. O espanto tem a rara qualidade de ser universal.

            Sua excelência, o senhor prefeito, só tomara ciência dos acontecimentos por volta das dez horas, horário indicado pelo único relógio ainda em funcionamento, na torre da Igreja Matriz, já que todos os outros assinalavam precisamente seis horas e quarenta e oito minutos, ou seis horas e vinte, ou quatro e dez, não importa. Fiquemos, porém com as seis horas e quarenta e oito minutos. É bom assinalar que não era muito atirado ao trabalho o ilustre prefeito, eleito pela segunda vez, após campanha milionária, carregada de corrupção e crimes eleitorais cujas conseqüências ia respondendo às custas dos dinheiros generosos, disponíveis por não menos generosas transferências orçamentárias, legais ou ilegais, obtendo com elas a jurisprudência necessária, conforme o preço pago, não constituindo essas práticas exceção alguma, ao contrário, eram apenas resultado do franco exercício de nossos costumes jurídicos e políticos, de pleno acordo com as infinitas leituras possíveis para um mesmo crime, a que se não há de censurar sem parecer estúpido ou idiota, ou ridículo, pois é esta uma herança do Império Romano e seu modo de ordenar os direitos, em empoeirados códices que hermeneutas emplumados vivem interpretando, conforme para isso recebem gordas propinas. Pois foi Sua Excelência despertado, com cerimoniosa cautela, porque costumava indispor-se com quem ousasse despertá-lo antes do meio-dia, atletico que era e sempre disposto a uma noitada alegre, justificada, sempre, pela necessidade de dar ao corpo o devido prazer, pois a vida é dura.  Aos poucos, desperto do sono, foi posto a par da situação e quando pôde afinal dar conta de si, estava já de pé, convocando, com alguma contrariedade, reuniões tão urgentes quanto inúteis, como é costume nessas ocasiões, sem esquecer o tom peremptório e severo da voz de comando, pois quem manda, grita, mesmo que não se saiba o tamanho da ordem a ser dada nem o tamanho do berro, muito menos as dimensões do desafio que, neste caso, eram imensas, quase sobrehumanas.

            O secretariado, reunido no Gabinete da Prefeitura, esperava ansioso por Sua Excelência. Mais ainda alarmou se o senhor prefeito quando recebeu a informação de que não se podia sair dos limites do município, visto que a bruma não o permitia. O fenômeno era um tanto impreciso, em face dos relatos aparvalhados que chegavam a todo instante e de todos os lugares, mas era aterrador. Quem pretendesse sair da cidade, ao chegar próximo de seus limites, via-se imediatamente engolfado pela densidade da névoa de modo que os motores dos automóveis, por exemplo, estancavam sem motivo aparente. Se de bicicleta, cegava-se o condutor; se a pé, desencontrava-se o pedestre em meio à névoa ainda mais ácida de modo que se lhe interrompia o fluxo de ar, ficando a vítima literalmente afogada e, portanto, explodir-se-iam os pulmões; melhor sempre não arriscar, por isso ninguém arriscava. As informações eram incompreensíveis, porém os fatos anunciavam singelamente que a cidade estava inexplicavelmente isolada do restante do mundo. Estavam os moradores e eventuais passantes, ou os visitantes habituais de fim de semana, entregues a si mesmos, tomados pela desolada névoa branca e seca, parecendo repetir-se, com as necessárias variações, a história do solitário náufrago Robinson Crusoe em sua ilha. Toda a cidade navegava numa bruma leitosa e inexplicável, como se tivesse tornado um modelo de comunidade excluída ao mundo, do planeta, e deixada irremediavelmente só, entregue a si mesma e à sua perplexidade. Fato este de grande conveniência quando se quer produzir uma literatura fantástica na qual os leitores se sintam em duvidosa hesitação entre o que é possível e o que não é, entre o real e o imaginário, cujas fronteiras, porosas, ainda mais instigam e provocam os curiosos. Assim se desenovelava uma história de mistérios ou um capítulo da literatura fantástica, restando sempre dúvida do que é vivido como coisa de se pegar, ou pura invencionice de pessoas que não têm mais nada a fazer e ficam inventando estória como essa, sem pé nem cabeça.

            O dilema foi aos poucos se tornando mais e mais enovelado quando nenhum dos convocados à reunião com o prefeito tinha a menor ideia das causas do fenômeno.

            Desamparo, esta a palavra que melhor descreveu aqueles momentos. Não se pôde, naquela hora, perceber algum desespero, porque o dia mal começara e não se sabia se a coisa iria cessar, do mesmo jeito que começara, isto é: sem anúncio, sem explicações. Talvez sim, talvez não, mas, por via das dúvidas, era preciso alguma explicação.

            Reunidos, portanto, no gabinete, puseram-se os membros do governo a buscar soluções para o caos. Sim, era caos o nome que se dava agora. As ruas desertas, as escolas fechadas, o comércio cerrando as portas, as pessoas refugiadas em suas casas, sem condução, a cidade parada, aterrada, imobilizada pela neblina. Temia-se, e sempre isto acontece, sobretudo quando há muitos pobres, um tumulto, com invasões e saques, nas lojas e nas casas, mas, felizmente, não havia relatos de maiores incidentes, pelo menos até aquele momento.

            À medida que falavam, Sua Excelência assobiava baixinho, expressando seu tédio com tudo aquilo. Por que não lhe deixavam em paz? Tinha de ser logo comigo? Assobiava e rabiscava numa folha de papel alguns garranchos indecifráveis. Era o sinal de que a reunião seria brevíssima e, naturalmente, inconclusiva.

            Não se disse ainda que a Prefeitura erguia-se na Praça da Matriz, onde havia um relógio na torre da Matriz, a marcar o horário regularmente. Não se sabia o motivo, mas era o único relógio funcionando. Evidentemente, a névoa foi o nexo causal encontrado para explicar por que o tempo não era devidamente registrado na cidade, exceto no relógio da igreja. As especulações não se ativeram à pura e simples coincidência, mas a algum fato misterioso e incomum, fato inevitável uma vez que o povo nada entende de ciências da natureza, mas conhece muito de orações e apelos a Deus, faculdade própria de povo miserável, porque é ele quem sabe onde lhe apertam os calos. Acreditava-se que a prefeitura é que deveria responder às dúvidas e angústias da população. O problema é que, naquele momento, todos sentiam a mesma coisa e ninguém tinha resposta para nada, muito menos as autoridades constituídas, porque não foram constituídas para decifrar enigmas de tal feitio, mas para resolver pequenas coisas sem importância e não uma cidade aprisionada pela neblina e com o tempo esquartejado por tantos quantos relógios existissem, num enigma complexo, impossível de resolver. Por que estas coisas não acontecem nas cidades grandes?

            Corriam os minutos, mesmo sem a medida deles, enquanto a névoa se mostrava de modo irregular, pois, em alguns pontos era fluida e leve, quase transparente; já em outros lugares, tornava-se densa e pegajosa. Esta irregularidade trazia mais desespero do que esperança, porque nos pontos em que era densa, a respiração fazia-se impossível. Eis um dos muitos enigmas do dia: nunca se ouvira falar em névoa irregular, com diferentes densidades, sem que ninguém fosse capaz de oferecer uma explicação plausível para tal mistério. Sorte de quem vivesse ou estivesse no meio da neblina leve, podendo ver a morna sombra do disco solar, redondo como uma moeda, brilhando no céu. Azar de quem vivesse no lado denso do ruço, pois nem respirar direito era possível, muito menos vislumbrar a luz do dia, mesmo não sendo noite. Sentia também a pele ardendo porque a bruma era ácida.

            Este estranho mundo de branca opacidade envolvia a todos, ameaçava a vida, desesperava os administradores da cidade que precisavam dar algum tipo de explicação, para uma situação implausível. Sem meios de comunicação funcionando, todos os rostos expressavam medo, incerteza, ou mesmo pavor. Aumentava o número de templos abertos com o povo pedindo a Deus a urgentíssima misericórdia.

            No gabinete, o clima era de impotência e quase desespero. Ninguém sabia a quem consultar, pois as comunicações estavam interrompidas com o mundo externo. Na cidade não era possível encontrar algum especialista ou estudioso que desse uma clara explicação para o fenômeno.

            Enquanto isso, as pessoas iam se achegando, em pequenos grupos, resignadamente. Pareciam autômatos, sem vontade própria, com os rostos ocultos pela névoa, com a voz sussurrante, como se falar fosse uma inconveniência. E murmuravam explicações, contavam-se pequenos incidentes, trocavam-se temores e, em alguns poucos casos, umas tantas juras de amor eram ditas. Talvez, nesse momento, confessar um amor representasse uma forma de elogio à vida, pois, embora ninguém tivesse morrido ate o momento, alguma coisa horrível poderia acontecer.

            O silêncio e o medo habitavam junto ao povo que, em estranha associação, ainda contava com a esperança de tudo terminar bem e o pesadelo acabar. Inimaginável é mesmo esse povo que sempre está a nos surpreender com suas lições de otimismo e de esperança.

Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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