Em Búzios, mini tornado dá adeus ao verão e recebe o outono arrancando árvores e telhas da Orla Bardot


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Por Bruno Almeida
Quem esteve em Búzios no último final de semana pode presenciar eventos considerados por alguns como sendo extremos. Na madrugada de sábado (24) uma forte tempestade de raios, com ventos e chuva forte tirou o sono de muita gente. A intensidade da tempesta
Eram 18h15 quando o pescador Maneli lançou a rede ao mar para pescar camarão. Quinze minutos depois, foi surpreendido por um vento diferente, que chegava com uma ‘nuvem negra subindo’, em formato de redemoinho, vindo em direção da Praia Rasa, fazendo-se acompanhar de uma chuvinha fina. É história de pescador, sim, porém real: a embarcação de sete metros e meio de Maneli virou tal qual uma palha num sopro e ele se manteve por baixo do barco, agarrando-se a casaria, livrando-se do macacão e das botas, e depois nadando por cerca de 25 minutos (mesmo com seus ombros operados) até chegar ao Humaitá, quando a água já batia em seus joelhos. Logo foi avistado por um barco vindo da Barra de São João, cujos tripulantes, após muito insistirem, lhe ajudaram a voltar e rebocar seu barco. Maneli tem 50 anos de profissão, já perdeu amigos em alto-mar, mas diz que nunca passou por momento mais crítico do que esse, nunca viu vento mais bravo, por toda a Costa Brasileira por onde passou. O que a principio foi um Noroeste, deu o ar de sua graça desde a Tartaruga até os Ossos, na tardinha do último sábado (24), três dias após a primeira mudança de estação do ano.


Pelo mar, que se manteve tranquilo e sereno durante todo o tempo, o vento passou em uns dois minutos. Na terra ele durou um pouco mais, o bastante para que, ao seu final, a visão fosse a de uma catástrofe. Aproximadamente 40 árvores foram arrancadas pela raiz, destruindo calçadas, exterminando ninhos com passarinhos e obstruindo a Rua das Pedras, a Orla Bardot, e o morro do Humaitá. Uma delas, bem robusta, caiu em meio a uma cerimônia de casamento na Tartaruga. Cerca de 20 casas, entre elas comerciais, foram destelhadas. A Igreja de Sant’Anna também foi destelhada e teve seus móveis arrastados. Bicicletas voaram de uma calçada a outra. Galhos gigantes ficaram presos às fiações elétricas dos postes. Bueiros entupiram em um segundo. Aquecedores solares de pousadas pareciam pipas avoadas. Escunas perderam seus toldos. Lojas e escritórios no Centro, na Orla e na Armação foram atingidos por galhos e tiveram vidros e letreiros quebrados e portas interditadas. Felizmente foi só o susto e o prejuízo material. Mas algumas pessoas acharam que era o mundo se acabando: 
- Eu pensei que fosse morrer. Há 33 anos moro na praia e nunca vi nada parecido. Estávamos eu, minha irmã e meu filho no meu restaurante, e só deu tempo de tirar as mesas e cadeiras e nos escondermos no banheiro. Veio uma espécie de bola de vento do mar, e ficou tudo escuro. Lá de dentro não sabíamos ao certo o que estava acontecendo do lado de fora, só escutávamos o barulho. Foi horrível, muitos trovões, relâmpagos...Foram uns quatro minutos de vento, mas nesse tempo eu vi passar minha vida toda como um filme na minha frente. Quando saímos, parecia que tinha havido uma guerra aqui. Graças a Deus tinha poucas pessoas nas ruas, não tinha barracas na Orla, nem navios, senão não sabemos o que poderia ter acontecido. Deus protegeu esse lugar – diz Cíntia Coutinho, dona do Barraza, nos Ossos, após o sufoco. 
Os estragos puderam ser contabilizados pela Defesa Civil, Guarda Municipal e Corpo de Bombeiros, que trabalharam em conjunto durante o sábado e domingo para ‘juntar os cacos’ e devolver a ordem às ruas. A equipe de limpeza da Prefeitura ‘deu duro’ até a terça-feira (27), retirando galhos de ruas menos movimentadas, que impediam automóveis de transitar. Foram necessários seis caminhões (enchidos 16 vezes), três retroescavadeiras e 35 homens para serrar e retirar as árvores espalhadas pelo caminho. O trânsito teve que ser desviado: com a Praça Santos Dumont fechada para a Orla e Rua das Pedras, a opção foi a Travessa dos Pescadores, donde se seguia para a Estrada da Usina (que também foi atingida). Essa mudança, e o risco das lojas se manterem abertas, uma vez que outras árvores poderiam cair, contribuíram ainda mais para que a Associação Comercial de Búzios amargasse considerável perda de faturamento.   
Uma embarcação próxima ao cais do Centro possuía um anemômetro, e com esse aparelho ficou-se sabendo a velocidade do vento: 90Km/h. Especialistas em meteorologia consideram que os ventos são fortes quando passam dos 46Km/h. Já acima de 60Km/h, são considerados muito fortes. E aos 90Km/h, o que seria? 
- Um mini tornado, com certeza. Como se deu na superfície da água, é chamado também de tromba d’água. Pra se ter uma ideia, ventos de 33 nós correspondem a 55, 60 Km/h, e uma vez previstos, já emitimos sinais para as embarcações, para que elas saibam que enfrentarão dificuldades. Mas em geral são as próprias embarcações que nos comunicam quando há eventos como esse. Nesse caso nós não registramos nada em Búzios. É muito difícil prever esse tipo de fenômeno, porque ele é muito raro no Brasil. Nos Estados Unidos existem períodos favoráveis para eles acontecerem, mas aqui não. Tornados se dão de forma muito aleatória, em áreas muito isoladas, específicas. É uma situação muito esporádica – disse o tenente Gadelha, do setor de Meteorologia do Centro de Hidrografia e Navegação da Marinha, no Rio de Janeiro, responsável pela previsão do tempo em toda a Região dos Lagos.  
Já o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), também no Rio de Janeiro, confirma que naquela tarde houve um sistema de baixa pressão por todo o litoral do estado, mas que nada foi previsto ou identificado em Búzios, bem como não registrou-se nada semelhante ao que houve aqui, em outros lugares. Ouvindo a Marinha e o Inmet, calcula-se, basicamente o que aconteceu: a alta umidade do ar (a temperatura estava acima dos 32º em Búzios, e embora o verão tenha ido, o calor permanece) juntou-se a uma frente fria (um vento Noroeste caracterizaria isso), sendo o suficiente para se criar nuvens de chuva capazes de abrigar, por baixo delas, turbilhões propensos aos tornados.      
Quando pisou em terra firme, Maneli disse não ter encontrado ninguém. Seus amigos, acostumados com suas brincadeiras, custaram a acreditar que o que tivesse contando fosse verdade. Já sua família não queria deixar que ele retornasse ao mar, mas na última quinta-feira (29), Maneli pegou seu barco ‘Feliz’ e partiu novamente, segundo ele para distrair a cabeça e não pensar no que aconteceu. 
- Teve momentos em que eu fiquei bastante preocupado, mas eu nasci de novo, foi um milagre. Graças a Deus, Ele me salvou e não deixou ficar nenhum trauma. Agradeço a todos os que se alegraram por mim – diz emocionado, o mais famoso sobrevivente das águas e dos ventos de Búzios. 
O trabalho da Prefeitura agora consiste em refazer as calçadas destruídas e replantar as árvores. A Ampla também ajudou na remoção dos galhos, mas esse vento que ficou na memória dos buzianos, fez levantar uma questão: por onde anda a empresa detentora de um contrato de R$ 100 mil mensais para podas de árvores na Cidade?

Do JPH

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