Perdão: Diário de Alexandria


Por Carlos Sepúlveda

PERDÃO

Antes da flor, resta o botão.
O dia se recolhe nas trevas da noite.
Cada lágrima esconde uma promessa.
Um anjo suspeita
de que, nos olhos do Senhor,
uma lágrima pode virar dilúvio.

Tudo está na ordem do ser:
em cada semente se recolhe o fruto,
como antes da morte existe o luto,
como antes do nada existe o tudo.

Os pés que recolhem o pó do chão
já prenunciam as dores do caminho,
como um distraído olhar
já pressupõe o impossível carinho.

Assim, o prumo se imprime
em cada vida que sucede,
porque tudo está escrito
às folhas tantas do destino.

O exercício inútil do perdão
é apenas um confuso parágrafo
para quem a vida não passa
de arrependimento e paixão.

Perdão é o nome que se dá
quando dividimos com os outros
o pão da intimidade.

Mas quando a estrada finda
e o caminho termina
e ficamos sozinhos,
sabemos que perdão
é também o nome que se dá
à nossa desaforada vaidade do não.

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