Carlos Sepúlveda em Diário de Alexandria



OS GALOS

Na rude paisagem urbana
toda manhã é um complô de galos.
Na teia sutil de seus cantos,
descansa nossa vã Ave-Maria.

Os galos descantam o aconchego dos lençóis
enquanto a vida nos acossa impaciente.

Esta manhã já se vai tecendo
do tênue fio em prolongada cantaria.
Um galo responde ( o outro escande)
um pentagrama do desencontro.

E assim, na interminável rede intermitente,
é preciso sabem quem primeiro mente:
se eu, desperto em sonhos vãos,
se eles, que só cantam não.

A solidão nos oprime
em cada dobra da cama desfeita.
Na beira do cobertor a vida espreita
enquanto os galos tramam
pleonasmos que se anunciam
na imensa concha vazia de mais
( de menos) um dia. 

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