A Cidade e a Névoa - Romance de Carlos Sepúlveda - 10º capítulo


10    quando padre luis despertou do sono místico, com um tremor no corpo e na alma, sequer pressentira a presença silenciosa das fiéis beatas que, aos poucos, iam ocupando os bancos da nave central, sem coragem de se aproximarem do sacerdote, reverenciado em pleno êxtase. Entraram cerimoniosamente, pisando de leve, para não perturbar a concentração, ou deveria dizer, o profundo misticismo do padre. Miravam, com olhos de alarmante incredulidade, o rosto aceso do sacerdote, parecendo seus trajes iluminados, brilhantes, como uma transfiguração extática. Uma suposta aura flutuava sobre sua cabeça, pelo menos é o que disseram as mulheres que juraram ter visto a luz flutuante sobre a sua cabeça. Ajoelhado, com o rosto voltado para cima, para a imagem do Senhor morto na cruz, Padre Luis parecia flutuar; e as crônicas da cidade haviam de registrar que, naquele dia tão absurdo, o corpo franzino do sacerdote efetivamente flutuou por sobre o altar; todas as beatas juraram ter visto e testemunhariam a quem quer que se dispusesse a ouvi-las.
            A maioria da Assembleia era composta de mulheres, cujos maridos, namorados, irmãos, pais ou alguém impronunciável estavam na labuta ou tentando chegar a ela, ou mesmo buscando mais informações que esclarecessem o mistério da névoa. Essas mulheres, a quem pertence a tarefa de orar, surpreendidas pelo êxtase místico do celebrante, ficaram a contemplar a cena como se fora um capítulo vivo do Novo Testamento, ou do Velho, que, para essa gente, não havia diferença, tudo era a voz sagrada. Nenhuma das beatas pronunciou qualquer palavra, nem era preciso, a cena falava por si mesma e todas mantinham a respiração suspensa, o corpo em ausência como se ali não estivessem, e logo depois estivessem, como uma intermitência que, por suposto, antecede a presença de Deus. Pois já não disse um poeta que Deus é um grande intervalo? E que se não é possível vê-Lo, senão se pode pressenti-lo.
            Padre Luis levantou-se penosamente, ainda vacilante em suas pernas dormentes, e pronunciou, solene, as palavras que abriam a cerimônia, embora não parecesse ser a voz dele, que era rouca e mais que chegava a cada um como fosse dita à beira do ouvido de cada uma das mulheres: louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.E as beatas, não mais do que duas dúzias, responderam emocionadas, quase em segredo: para sempre seja louvado. De braços abertos, como estava o Senhor, no alto, às suas costas, Padre Luis não conseguia pronunciar o restante do introito, sua voz tornou-se áspera e aguda, recusava-se a articular na garganta estreita e áspera uma frase completa, embora sua memória soubesse exatamente o que deveria ser dito. Então, neste dia estranho, com a névoa mais densa ainda dentro da Igreja de modo que apenas a silhueta do celebrante podia ser efetivamente vislumbrada, as beatas viram e juram que viram o sangue escorrendo da testa do padre enquanto seus olhos choravam as mesmas lágrimas de sangue que choraram tantos homens e mulheres antes de seus holocaustos. Dos trêmulos lábios, puderam as mulheres ouvir em seus ouvidos, e apenas para seus ouvidos, as palavras do padre: cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo rogai por nós, pecadores
            Antes do desmaio -- um baque surdo no chão frio do altar-- sua voz esganiçada proclamou, numa língua incompreensível para aquele povo, a ladainha: Redimisti nos domine, deus veritatis ,com a espuma descendo dos lábios cerrados e as mãos crispadas como garras de  uma ave de rapina. Por não saberem bem o que dissessem, a igreja toda reverberou Amen., anunciando o temor de todos, embora um frio percorresse a espinha e ninguém soubesse exatamente onde estava o fim desta cena.
            Eis senão quando, Padre Luis flutuou, de um lado para o outro, bem no meio da nave central da igreja. O corpo ao comprido, braços abertos em cruz, rosto pendente sobre o ombro esquerdo, uma figura de El Greco deslizava em meio à névoa sem que nada ou ninguém o sustentasse. Era apenas a flutuação oca de um corpo magro, pálidas faces, boca escancarada, um homem tentando respirar, que já não estava mais submetido à gravidade, mas ao imponderável.
            As beatas ajoelharam-se e toda a Igreja esparramou-se contrita pelo chão frio e úmido. 
            Era impossível saber as horas, nem lugar, nem quando, muito menos por quê. Quando tudo isto virar palavras repetidas nas bocas de cada um, possivelmente dirão que é mentira ou alguma piedosa crendice desse povo analfabeto que vive inventando lenda para distrair o turista, mas nós sabemos que foi tudo verdade, a mais lúcida verdade naquele meio-dia de triste agonia e não incomum desespero. Os prodígios aconteciam ante os olhos de todos, sem explicação, como convém aos prodígios.
            Uma canção de imprecisos versos espalhou-se pela igreja, um canto profundo e triste que podia comover até as pedras frias que vestiam os muros do convento onde fora construída a igreja.
            Enquanto flutuava, seguindo o ritmo do cântico, o corpo magro do Padre Luis prosseguia desafiando a gravidade, anunciava o prodígio e enchia de terror aquele povo simples, crédulo, que talvez não merecesse viver um enigma tão indecifrável. Ou talvez fosse tudo parte de uma trama que nossa razão ( pobre de nós) jamais poderia compreender. Tanto melhor, porque assim pode ser contada em um romance, afinal é para isto que servem os romances, não é mesmo? Para dar sentido ao sem sentido da realidade.
 Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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