A Cidade e a Névoa - Romance de Carlos Sepúlveda - 12º capítulo


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    afinal, alguém pode me dizer que horas são, há quanto tempo estamos nesta conversa mole? Sua excelência, o prefeito, enfim, percebeu a gravidade da situação, com todas as suas consequências. Os relatos que chegavam, embora precários, davam conta de que a cidade estava em pânico: os serviços públicos entraram em colapso, os telefones ainda não funcionavam e a companhia telefônica não tinha a menor ideia do que fazer para restaurar as linhas. Do mesmo modo, as escolas não abriram, tendo em vista que nem professores nem alunos conseguiram chegar a seus destinos. Com as comunicações em pane, nada se podia fazer, só mesmo esperar e rezar para a cerração ceder e o sol iluminar a paisagem outra vez, restaurando a vida. Os poucos funcionários que conseguiram chegar à prefeitura informavam que seus setores fecharam, até os bombeiros não tinham como atender os chamados feitos por pessoas que conseguiam chegar até o quartel central, tateando por entre a névoa, em busca de ajuda. O mais velho de todos os auxiliares do prefeito atual, aliás um ex-prefeito, lembrou-se de que, há mais de 50 anos , também ocorrera um fenômeno parecido, mas de menor intensidade e que desaparecera em algumas horas e muitas orações, porém desta vez tudo era muito mais grave e estranho, inclusive porque, segundo se sabia, o fenômeno era restrito a esta cidade e não as outras. Nas cidades vizinhas, o sol brilhava e as pessoas acotovelavam-se nos limites dos municípios para ver a barreira de nuvens, separando um lugar do outro, como uma parede de algodão, que as assombrava. Era uma densa parede branca, espessa, impedindo a passagem de qualquer coisa, até mesmo dos sons. Quem quer que tentasse ouvir alguma voz do outro lado, o que ouvia era um grunhido estranho e surdo. Prefeito, parece que estamos encerrados numa masmorra de nuvens ácidas, densas, como um cobertor de algodão. Ninguém entra, ninguém sai daqui. Foi a informação prestada por um assustado servidor que acabara de vir de casa na estrada, e entrara na sala de reuniões. Vinha testemunhar que, nas cidades vizinhas, as pessoas se reuniam para verem uma assombração: a parede de cerração espessa, a névoa pesada, dividindo a paisagem em duas partes: uma, ensolarada e azul; a outra, branca e cinzenta e ácida
            As informações que precariamente chegavam, inclusive as opiniões de alguns oficiais da marinha que orientavam os voos da base naval vizinha à cidade, davam conta de que, na noite anterior ao nevoeiro, tinha havido um formação súbita de massa de ar quente, uma convecção, nos termos técnicos, que se chocara com outra massa de ar frio, extremamente frio, uma massa polar que, não se sabe a razão, parou exatamente sobre a região a parece que se concentrou sobre a cidade. As conclusões eram alarmantes, porque, provavelmente, já passava das 10 horas da manhã e o disco solar era do tamanho de uma moeda, brilhante, frio,  distante. Se não há sol, se não há vida, não há esperança. Sem vida, sem esperança, esta a sensação de todos, sobretudo se assim permanecesse por muitos dias. Então, a reunião prosseguia em meio ao espanto e à impotência dos mui alarmados administradores, ou gestores, como se diz hoje, já não muito mais preocupados com os dinheiros que deixariam de receber do que com o destino das pessoas, sobretudo os deles próprios. E, por caminhos tortos, esses ilustres servidores do povo viram-se obrigados a se preocupar, ainda que sobressaltados, com o ignorado povo. Com este contratempo, por exemplo, uma boa parte dos pagamentos em dinheiro que estava programada para aquela manhã teria de ser adiado, com muito tato, para não despertar suspeitas, nem alarmar mais ainda os credores e o comércio da cidade. Boa parte da contabilidade pública ficava pelo meio do caminho. Um dos mais preocupados, por exemplo, sabia dos pagamentos que deveriam ser feitos às cinco empresas fantasmas contratadas, justo naquela manhã, e que renderiam aos poucos afortunados e íntimos da administração outra modesta propina, uma pequena contribuição eleitoral, exagerada pelos invejosos, que se agregaria a outras pequenas fortunas, e de pequena em pequena, já era uma grande fortuna que os amigos dividiriam entre um uísque e outro, porque mereciam. São fatos da vida política.  Se a névoa não cedesse, os bancos não abririam às 11 horas e o negócio poderia desandar, pondo a descoberto as outras operações com o caixa dois. Como um óbvio castelo de cartas, tudo poderia ruir, principalmente se algum intrometido resolvesse fuçar, ou algum interessado resolvesse protestar por falta de pagamento. Seria a névoa motivo para descobrirem tantas fatalidades? Que maçada: um acontecimento desta natureza a infernizar os planos cuidadosamente concebidos, uma verdadeira obra de arte contábil, que levou quase dois anos para se construir. Devia ter prêmio Nobel para quem consegue estas proezas matemáticas... E então, um acidente como este, põe tudo a perder. Não, a vida não é justa; logo agora!
            Isso o prefeito podia ler, sem muito esforço, no rosto angustiado de seu secretário; sabia ler o que se passava na alma do auxiliar que ali estava para o despacho, justamente para tratar daqueles dinheiros desviados das grandes verbas recebidas no dia anterior. Mordia os lábios, esfregava a testa, por causa de uma viagem temerária no meio da névoa, que ainda não era tão densa, não pôde ele deixar de estar presente à reunião. . Já se sabe que estas operações, tão corriqueiras na vida do país, precisam ter a aparência de completa lisura, por isso mesmo Sua Excelência, o prefeito, e seu secretário escolheram cuidadosamente os experientes e silenciosos colaboradores, senhores respeitáveis, vindos da capital, com larga experiência em falcatruas, sem deixar pistas. Para não haver suspeita, freqüentavam todos a mesma igreja, ouviam os mesmos cultos e era possível até que acreditassem no mesmo Deus, mas isto ainda teria de ser verificado, se alguém se importa com este detalhe banal.
            O incidente da névoa fora um desses acidentes que poderiam revelar certas operações delicadas com o dinheiro público.
            Mas não se pode dizer mal das criaturas que hoje nos governam, afinal de contas foram eleitos por nós, lá estão em nosso nome; fizeram jus ao voto que a população lhes outorgou e não é justo que fiquemos nós, criadores de casos e personagens desprezíveis, a enlamear-lhes a reputação. Se não temos provas claras e declaradas de suas desvirtudes, como, por exemplo, uma confissão assinada e registrada em cartório, é melhor calar-se. São pessoas que sacrificam suas horas e suas vidas para nos governar. O que fazemos nós pode ser produto da inveja do sucesso deles e se suas fortunas mais do que duplicaram em tão pouco tempo, é porque Deus os ama e não tens tu, infame leitor, o direito de suspeitar-lhes a dignidade, nem tu, desditado autor, de enlamear-lhes a honra. É que esses intelectuais são mesmo uns cretinos irresponsáveis!
            Até parece que a névoa está a encobrir a inteligência de quem lê e de quem escreve.
            Para ser sincero, no fundo, nada disso importava agora. O que importava era o silêncio à volta e em torno da cidade. Mais de uma vez, no meio do temor geral, alguém se levantava, dirigia-se à imensa janela da prefeitura, que se abria para a praça, e suspirava entre resignado e preocupado. Em resumo: ninguém tinha a menor ideia do que fazer, então nada se fazia, que não fosse conjecturar sobre o destino de cada um e de todos.
            Aos poucos, todos os outros, presentes à reunião, aproximaram-se da janela e viram a procissão de corpos emergindo da cerração, quais almas macabras arrastando correntes. Iam num desfile grotesco, espalhados pelas calçadas, tropeçando no meio-fio ou simplesmente deixando-se estar, imóveis, com o rosto para cima buscando a respiração que se ia tornando penosa quando o ar custava a vir. Então, pouco a pouco, o desfile improvável de almas assombradas foi chegando próximo do prédio da prefeitura. Em breve, todos se sentaram nas escadarias do edifício e ali permaneceram, calados, enquanto esperavam, não se sabe o quê. Era como se uma voz assim ordenasse, embora nenhuma voz se escutasse.
            Foram sentando-se nas escadarias do prédio, em curioso ritual, como uma fraternidade de desesperados, porém em silêncio. Muitos rezavam, outros tantos se abraçavam com temor e entre eles estava Lívia, abraçada ao próprio corpo, buscando por entre a névoa um rosto conhecido, alguém próximo, com quem mais pudesse dividir o espanto. Lívia acabara de chegar, com três outros passantes.
            Um cão aproximou-se dela, sentiu-lhe o cheiro lá do jeito que eles têm de reconhecer um amigo ou um inimigo e esperou a mão suave de Lívia sobre sua cabeça enorme. Acolheu de olhos cerrados o agrado. Na verdade, aquele carinho e algumas palavras docemente murmuradas ao ouvido do cão, foram suficientes para selar uma amizade eterna como só lá os cães sabem celebrar, talvez porque não nos contestem, mesmo se os magoamos. Deitou-se o cão aos pés de Lívia e é como se ela soubesse que estava protegida, defendida de todo mal. Um cão branco, com algumas pintas pretas em torno do olho esquerdo, dava-lhe a feição marota de cão sem dono. Talvez por isso se chamasse  bandido, ou pirata, mas nesse momento pouco importava o nome, importava o pelo macio e o jeito amigável com que se deitou sobre os pés de Lívia, sacudindo a cauda, esperando pelo carinho inevitável de sua nova dona, cujo aroma já guardava em sua arguta memória de cão sem pátria. Lívia era para ele todos os cheiros de um único olfato que jamais se repetira nos outros bípedes que conhecera. Isto,é claro, supondo que os cães pensassem e sentissem e soubessem que eram cães e que se expressassem como gente.
            Lívia procurou por entre as enevoadas fisionomias alguém que pudesse ser o dono dele, porém não aparecia pessoa alguma. Supôs então que estivesse perdido. Com o nevoeiro e a densidade do ar, era possível que o cão já não tivesse senso de direção e seu olfato estivesse irremediavelmente comprometido e com isso perdera o rumo de casa. Esta circunstância, que lhe pareceu lógica e razoável, serviu de justificativa para mais ainda quisesse bem ao animal que tão dócil parecia, que tão semelhante destino com ela dividia, e de seus olhos úmidos surgia uma cumplicidade de afetos. Você está como eu, não é? Não sabe para onde vai nem o que fazer. Vamos ficar juntos. Isto disse Lívia e provavelmente foi também isto que ouviu o cão, pois mesmo que não ouvisse era como se tivesse ouvido, pois abanou a cauda, lá do jeito que fazem os cães quando aprovam o humano a quem querem agradar e de quem não esperam um pontapé ou coisa parecida. Para eles, afeto e cumplicidade são a mesma coisa.
            Lívia abraçou-se ao cão e resolveu chamar-lhe “Argos”, como uma homenagem ao personagem de uma história, muito antiga, que lera, de cujo autor não se queria lembrar, infelizmente, não obstante soubesse que se tratava de uma história de viagem, em meio a alguns nevoeiros, feita por um certo Odisseus ou Ulisses. Lembrava-se de que o herói não conseguia retornar aos braços de sua Penélope, cujas virtudes compensavam a desonrada Helena e seu amante, um príncipe de Tróia. Lívia sofria, com aquele impossível retorno, no nevoeiro, a repetida nostalgia narrada a longos séculos por um cego ilustre.
            Mas não tem sido ingrato o autor dessas linhas que muito admira o poeta antigo e devota-lhe toda admiração e por isso o homenageia com esta breve lembrança.
E Argos ficou sendo chamado o cão. Talvez convenha ao leitor saber que também poderia ter sido ele chamado de “Pastor”, pois será quem guiará o povo da praça pelos caminhos da revelação, lá onde se encontra a solução deste mistério gasoso, se assim se pode dizer.
            Podia também chamar-se “Constante”, mas estas razões ficam para depois, para quando se homenagear um outro lendário escriba, chamado Saramago.
            Enquanto isso não vem à baila, basta ao leitor ver desenhar-se ante seus olhos nublados o vulto de Lívia e do cão Argos levantarem-se e irem ambos na direção da praia, já seguindo o povo que, numa decisão abrupta, resolvera caminhar em demanda do infindável mar.
            A assim lá vai andando a procissão, o cão Argos à frente, adiantando-se alguns metros e parando em seguida, virando a cara, com o focinho para cima, como se buscasse o ar que não vinha facilmente e farejando pressentimentos. Ao perceber a proximidade de Lívia, continua o passo, acelerando o caminho, semelhando tranquila guarda de um paciente cuidado de amor resignado.
Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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