A FILOSOFIA DO IDÊNTICO


Diário de Alexandria
            O mundo, em especial no sentido objetivo, se dá como fenômeno. Do grego, phainoumenon, aquilo que se põe ante nosso olhar. Portanto, é uma obviedade pretender o mundo como uma rede de fenômenos. O mundo é fenômeno. As coisas estariam mais ou menos resolvidas em face do mistério da vida se não fosse por um aspecto: o fenômeno é tomado como mera aparência ou representação.
            Em algum momento, na mente de algum grego genial, estabeleceu-se que há um duplo do mundo. O que é visível não passa de uma representação (imperfeita) do invisível. Estabelecida a superioridade do invisível, sua perenidade e permanência, abriu-se a caminho para os deuses, para a metafísica. Trata-se de uma venerável intuição à qual os gregos, que cultivavam a precisão vocabular, chamaram de Khorismos.
            Desde este instante, a mente do homem se tornou  naturalmente aberta à transcendência, o que significa dizer que o mundo fenomênico é empobrecido em face da iluminada grandeza do essencial, mas escondido.
            A tradição a que se filiou Platão não era nada estranha à grande parte das religiões, especialmente as religiões monoteístas. Pois, partindo deste esquema metafísico, a verdade revelada passou a depender dos esquemas secretos, das seitas, dos ocultismos. Abriu-se a divergência entre a coisa posta como fenômeno, o mundo visível, e sua realidade última. O secreto é sagrado, o sagrado é secreto.
            Em Aristóteles, por exemplo, o termo latinizado substância (sub-stantia), isto é, o que está sob, oculto no fenômeno, é utilizado. Propõe uma metodologia mais pragmática do que a de Platão para chegar à essência (ousia): o despojamento. Tomando a res (coisa) como uma rede de categorias fenomênicas (as 4 causas), o filósofo crê que a quididade,  a coisidade da coisa, aquilo que faz uma coisa ser o que é, é o resultado de um metódico despojamento das qualidades( acidentes) que duas ou mais substâncias compartilham. Pelo método da retirada gradual da semelhança, pretende-se atingir a categoria única para a ousia, aquilo que a faz ser o que é. É uma metanarrativa sobre a origem de tudo o que existe baseada nas identidades entre as coisas do mundo.É também a invenção de um notável instrumento da lógica, a analogia.
            Aristóteles imaginou que este exercício de gradual despojamento seria capaz de chegar ao ser-em-si, absoluto, o motor-primeiro que colocava em movimento a dialética de ato e potência. Esta seria, na tradição tomista, o Deus de Abrahão. E, mais ainda, a valorização do sentido da pobreza.
            Não por outra razão, os homens, glorificados pela santidade, como Cristo ou Buda, renunciaram à opulência da riqueza que poderiam amealhar e cresceram no despojamento de suas vidas materiais, porque negaram os excessos, para viverem a plenitude de si mesmos. A parábola do camelo e o buraco da agulha refere-se a isto.
            De todo este magnífico edifício lógico, restou a tradição metafísica, desde Platão, que despreza o mundo dos fenômenos como imperfeita aparência degradada de um eidos puro, para supor o outro mundo, o mundo das idéias, eterno, perfeito, povoado de arquétipos, incorruptível, apreensível apenas por vagos vestígios das reminiscências.
            É irresistível para qualquer mortal supor que sua alma despencou do alto, ao longo de um passeio prosaico, no meio das idéias perfeitas, a nos consolar da corrupção do mundo aqui embaixo, do não-mundo, do imundo. Uma viagem de ida e volta em busca da perfeição. Os gregos chamavam parousia
            Ora, esta metanarrativa alimentou o imaginário do Ocidente por mais de três mil anos. Esta metafísica clássica, este facilitário mais do que conveniente, negou à realidade a dignidade de se bastar, de ser tomada como realidade última. É por isso que nunca deixamos de ser “idealistas”.
            O empobrecimento e desprezo pelo mundo dos fenômenos tiveram sua reviravolta, sobretudo a partir do momento em que o Ocidente Europeu decidiu que viver na terra, prisioneiro da contingência, não era nada mal. Até porque a experiência humana é a facticidade, isto é, só conhecemos o homem aqui e agora, em sua realidade existencial, nunca antes, nunca depois.
            A modernidade, inaugurada pela tecnociência, ali pelos séculos XV e XVI de nossa era, foi também a maioridade do homem. Passamos a viver entre os fenômenos que valem por si mesmos, que não importam mais como representações de uma essência. Melhor dizendo: se os fenômenos mundanos, especialmente aqueles da natureza, representam verdades eternas e secretas, este não é o interesse das ciências da natureza, interessa às ciências do espírito.
            Foi justamente neste momento que se tornou possível abrir uma diferença terminológica entre Geistwissenschaft e Naturwissenschaft, isto é: ciência do espírito e ciência da natureza. Sem dúvida, um equívoco de nossa vaidade.
            Foi quando fomos apresentados a uma nova ordem de avaliações do conhecimento: sua eficácia. O saber só de experiências feito, conforme se referiu Luiz de Camões. É daí que se começa a estabelecer uma outra equivalência: A do SER e FAZER.
            Duas marcas passaram a descrever a realidade desse “ admirável mundo novo”, conforme a ele se referiu Shakespeare, em célebre texto: a eficácia e a precisão.
            Foi de tal modo avassalador este novo mundo que ganhou contornos ideológicos precisos: o mundos novus não se restringiu a uma situação geopolítica, a amplitude territorial do planeta, mas, sobretudo, a um novo modo de pensar, de sentir, de construir a realidade, uma nova cultura enfim. Neste novo modo, coube ao homem do renascimento conceber a máquina do mundo, isto é, o mundo como um mecanismo racional, plenamente explicável pela razão instrumental.
            Em célebre aforismo, já em tom de humor, Nietzsche escreveu: “ depois que o europeu conheceu o álcool, engendrou a Idade Média”, referindo-se à estupenda ruptura dos paradigmas mentais em relação aos séculos anteriores ao quinhentismo. Fora o exagero, a verdade é que a mais radical revolução cultural conhecida deu-se no ocidente cristão ( um óbvio pleonasmo) e se chamou Revolução Científica.
            Desde então, o mito de Prometeu foi revisto em favor da personagem que, afinal de contas, venceu a batalha contra os deuses, embora isto tenha-lhe custado o fígado. O que começou, timidamente, com Galileu, com Leonardo da Vinci, com os matemáticos europeus a partir da herança islâmica, hoje, como uma vertigem, se dá ao espanto de corrigir, geneticamente, os eventuais erros na natureza.
            No entanto, é preciso reavaliar o que sucedeu à tradição do pensamento, desde suas origens. Não se pode suportar o fato de que, a despeito das maravilhas das ciências, o mundo tenha se tornado um lugar desabitável, hostil, inóspito ao próprio homem. Desprezando a imensa riqueza do pensamento, estaríamos, na verdade, potencializando a infinita capacidade de provocar destruição. É que não se pode esquecer que a espécie é sapiens, mas também é demens.
            A Palavra de Paulo em 2 coríntios 4, 18 é oportuna nesse momento. Disse o 13º apóstolo, em seu estilo epistolar,: não olhemos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem, pois o que se vê é transitório, mas o eu não se vê é eterno.
            Lição. O mundo que se apresenta ante nosso olhar, o visível mundo sensível, é um conjunto de sinais expressos em seus fenômenos que apontam para o vazio e a falta de sentido. Por detrás dele, no abismo profundo do invisível, repousa o esplendor do SER, da ousia, daquilo que é e sempre será, como um sol imenso iluminando o dia.
            Antigamente, as grandes narrativas davam sentido à nossa vida, hoje, temos de construir nós mesmos o nosso sentido, desconfiando dos grandes relatos que vêm do passado. Fragilizamos nosso sentido histórico.
            Não importa o nome que se lhe atribua, mas a tão sonhada identidade entre fenômeno e essência absoluta permanece uma aspiração do homem, inalterável, pelos séculos dos séculos como na fórmula dos Evangelhos. Pelo menos enquanto não formos imortais.
            Este deve ser o sentido da transformação. Se atingimos níveis sobre-humanos na investigação da natureza, se já estamos tão próximos de conhecer os bosoms que explicam a origem última da matéria, é capaz de também conhecermos a ironia do Criador no circuito que se fecha: é capaz de a ciência nos mostrar que o início e o fim serão o mesmo e o igual. É que, quando o círculo se fechar em seu eterno retorno, a verdade do homem será tão insuperavelmente leve que não há de pesar mais do que a mão de uma criança.
            Há que confiar no bom senso, na vontade de preservação que todos temos. A ciência é a maior conquista da mente humana e não pode ser instrumento de destruição. Quero dizer que o mundo está repleto de coisas belas, a mais bela de todas é o homem, como disse Sófocles no século V, em Atenas. Apesar disso, o mundo é pobre, muito pobre de belos momentos, de revelações do que está oculto. Talvez nisto resida o maior encanto da vida: ela porta sobre si, enfeitado de ouro, um véu de belas possibilidades, promissoras, defensivas, pudicas, irônicas, complacentes, generosas e sedutoras.
            Sim, a vida ( e aqui vai minha homenagem) é uma fascinante mulher. (Nietzsche)
                                                                       Carlos SEPÚLVEDA

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