A Cidade e a Névoa - romance de Carlos Sepúlveda - 13º capítulo

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estou aqui REGISTRANDO estas más palavras escritas por tortas linhas, de um relato imaginário, no momento em que, de minha janela, pouco posso ver, senão o nada opaco do nevoeiro que apareceu, sem mais, na frente de todos nós desde hoje, pela madrugada, como o leitor já deve estar cansado de saber Percebo o grande cenário brancoleitoso e sinceramente ando preocupado com o que pode acontecer. Esta cidade é simples, com uma população rudimentar, sem sofisticações, um povo sem memória, sem as armas do cosmopolitismo, sem a proteção de uma comunidade esclarecida. É uma cidade desesperada para sobreviver com as benesses que recebe do turismo e dos empregos na prefeitura que, desgraçadamente, é uma das mais ricas do país, graças às facilidades do petróleo. Percebo, desde que me transferi para cá, alguns novos ricos, todos com cargos no governo municipal. Mas isto não me diz respeito, são situações que se repetem por todo o país e esta cidade não é diferente das outras. Estamos cansados de saber que, em nosso país, a corrupção é uma indústria nacional. No momento, preocupa-me é o relógio da Igreja Matriz, única referência temporal que ainda restaria funcionando, que já não mais indica hora certa, está congelado, como todos os outros relógios. Sei disto porque me confidenciou um vizinho, com voz soturna de conspirador. Mesmo sem poder ver de longe os dois ponteiros, quem lá subia (creio que um zelador da igreja) e de cima da torre berrava as horas, já emudeceu. Enfim, não se sabe mais do tempo por aqui e sem o tempo, o que somos nós? A última vez que berrou as horas ouviu-se “dez e quinze”, depois, nada mais se pôde ouvir, de modo que vivemos ma situação inquietante: a volta de nós, presume-se, o tempo segue seu curso, mas aqui dentro, possivelmente por causa do nevoeiro, o tempo parou, melhor seria dizer: o tempo congelou. Soube, ainda por outro vizinho de janela, que algumas pessoas seguiram até os limites da cidade e, ouvindo as vozes do outro lado da estrada, podia-se estar a par dos acontecimentos do resto do mundo. Lá, do outro lado, havia sol e clima regular, estando o ruço apenas em nossas ruas e casas, formando uma espécie de paredão fluído. Não creio ser necessário dizer que estamos todos inquietos, já não há mais alimentos disponíveis nas casas, os supermercados não abriram, porque ninguém se atreve a sair para as compras, e mesmo são raros os estabelecimentos que iniciaram o trabalho. O céu, brancoleitoso, é iluminado por um precário disco solar, frio, sem a exuberância de ontem à tarde quando o verde, o azul e o mar combinavam um escândalo de beleza natural. Tudo parece ter-se diluído numa fantasmagoria inquietante.
            Fico a imaginar como narrar estes fatos para o mundo saber o que houve aqui, supondo que um dia saiamos desta agonia e que o mundo queira saber. Eu, que já não consigo enxergar bem, tenho os olhos permanentemente encobertos por um princípio de catarata, que eu já vivo num nevoeiro.Que fenômeno estranho, porém, permite que apenas esta cidade esteja à margem do mundo, sem notícias, mergulhada na névoa implacável que só faz crescer, sem um segundo sequer de trégua? Mesmo para mim, um narrador experimentado, o fato é sempre maior do que minha precária capacidade de descrevê-lo e de explicá-lo. Só me resta imaginar qual seria o desfecho de tudo isto, acaso fosse um romance.
            Sim, porque há de haver uma causa, uma razão, uma explicação, racional ou não, que, como tudo está, é difícil supor uma causa natural. O nevoeiro, por enquanto, é denso e uniforme, não parece ter lugar de origem, mas tenho a impressão de que poderíamos procurar alguma pista que nos levasse a um ponto qualquer, supondo que haja esta origem. Então, decidi empreender, por minha conta a risco, a busca deste improvável lugar. Tenho certeza de que ele existe e não estará longe. Apesar de minha pouca visão, pretendo ir ao encontro de alguém que me possa esclarecer o que se passa.
            Ah, sim, pode me chamar de Borges; sei que ficarei cego algum dia, não por causa do nevoeiro, para por causa de meu destino. Deus me deu os livros e a noite. Sei que devo continuar escrevendo esta história tanto quanto a natureza se cumpre em fazer-me cego, que nisto não estou sozinho, existem outros que me antecederam neste irônico jogo dos deuses. Homero e Milton são apenas velhos conhecidos do mesmo destino. E dizem ainda que somos Tirésias, somos pessoas que podem decifrar enigmas, traduzir oráculos. Nós, os cegos ilustres.
            Não pretendo ser ilustre, quero apenas saber de onde vem esta névoa, se é que vem de algum lugar. Quero saber o sentido de estar tudo entregue ao nevoeiro, e a cidade ter-se tornado um capítulo ocasional da literatura fantástica. Haverá em tudo isto em sentido oculto, uma razão suficiente?
            Se quiser saber rigorosamente o que se passa, preciso  sair, ir às ruas, visitar a praça onde boa parte do povo se concentra, ouvir o que se diz na prefeitura, a despeito de minha precária visão.
            Mais um vizinho de janela acaba de me assegurar que o nevoeiro se restringe a nossa cidade, que o sol brilha escandalosamente fora dos limites do município. Sabe-se também que as comunicações estão interrompidas e que o tempo parece ter-se congelado com o nevoeiro, por isso não se pode pedir ajuda a mais ninguém fora de nossa fronteira. Temos de contar conosco, com nossa possibilidade de descobrir.
            Vou às ruas tateando, para encontrar o centro deste mistério.  Se o encontrarmos, então poderemos saber do que se trata, pois, como aprendi há muito tempo, é preciso encontrar a origem, o princípio, o começo para não padecer da angústia de ser dispensável.

Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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