A Cidade e a Névoa: romance de Carlos Sepúlveda - 15º capítulo


15    precariamente rESGUARDADOS DO frio, cobertos pela névoa, um punhado de homens e mulheres insones, talvez dez, talvez vinte, esperava condução no ponto do ônibus. Vistos de longe, não eram mais que fantasmas; vultos recobertos pelas nuvens, em que se não era possível definir os rostos, nem tampouco saber-lhes da fisionomia. Podia-se, contudo, adivinhar-lhes o destino e a identidade, pelas marmitas que levavam debaixo dos braços. Era o almoço, ou bóia-fria, que, ao meio-dia, seria aquecido em pequenas fogueiras, caso fosse o almoço nas construções civis; ou em elegantes marmitas às quais se agregavam sofisticadas tomadas elétricas; em outras mais, ainda refinadas, prometia-se um banquete, se comparadas com os precários utensílios de alumínio amassado onde se depositava o rango dos operários. Também neste item desenhava-se o destino das classes sociais, pois, nas primeiras marmitas, guardava-se, não uma refeição, mas a gororoba, o rango, a boia, o grude, já nas outras, podia-se dizer que eram repastos variados, muito além do arroz, feijão, macarrão, farinha e uma ocasional asa de frango assada. Nas outras, havia salada e sobremesa, havia uma refeição que se podia comer com os talheres elegantemente manipulados entre o indicador e o polegar, ocorrendo a um ou outro comensal levantar, doutoralmente, o dedo mindinho, à guisa de bom tom, e não com toda a mão cerrada em volta do cabo do garfo, à moda de garra de ave de rapina, para garantir a posse única da refeição e defendê-la de algum possível predador. Era assim como faziam os humildes marmiteiros, os boias-frias.
            Bendita língua nossa que nos permite relatar quantas sutilezas num só agarrar de garfos e de facas e com elas sugerir uma luta de classes. Pois esses homens e mulheres e suas marmitas já esperavam, não se sabia por quanto tempo, a condução que não vinha. Também não compreendiam por que todos os relógios pararam na hora de vinte para as sete e assim perdia-se a referência e o tempo se mostrava infinito, impossível medir, e não se sabia se estavam ou não atrasados.
            Suas vozes abafadas exerciam o penoso diálogo, sussurrado em uma reverência não se sabe a quê, ou a quem, ou medo segredado entredentes.
            Mas alguém sabe me dizer o que está se passando nesta cidade?
            Não, ninguém sabe ao certo, mas estamos todos com muito medo
            O que significa este nevoeiro? Quase não consigo respirar...
            É, tem alguma coisa errada. Nunca vi isto
            Minha vó falava que no tempo dela às vezes vinham umas nuvens dessas e a gente nem conseguia respirar direito...
            Será que isto passa logo?
            Sei lá... Até meu relógio parou.
            E os ônibus? Acho que não estão rodando. Ouvi dizer que a cidade está toda parada e que ninguém sabe mais o que fazer.
            Então vamos para a Praça da Matriz, quem sabe lá a gente encontra alguma resposta?

            Então sim, dezenas de pessoas, anônimas criaturas, seguiam em procissão, arrastando suas incertezas como correntes pesadas atadas aos pés, como prisioneiros dos eventos escandalosos que impunha a todos seu silêncio fatal.
            Então porque a nós acontecem estas coisas? Já não bastam as dores com que vivemos?
            Ah que são reflexões incomuns a um povo simples, vivendo de satisfazer suas humanas condições, com mais biologia do que filosofia. Mas ensinam as tragédias e os sofrimentos a pensar sobre o destino, e quem sabe não havia, entre a multidão desamparada, algum distraído filósofo? Que isso de pensar não é patrimônio de ninguém, todos podem fazê-lo, basta que para isso tenham ganas.
            Por conta deste nevoeiro imprestável, ao menos para alguma coisa serviu, para que esta inocente multidão soubesse um pouco mais de si mesma, do quanto podia valer, de quanto direito tinha, de viver, de morrer, mais ainda de ser dona de sua própria vida; vivem de nunca chegar e se bastar.
            Poderia ser o nevoeiro motivo para saber, como soube aquele tal Gil Vicente, que, há cinco séculos passados, disse que eram os pobres a vida dos outros e morte de suas próprias vidas (estou a repetir-me, mas é necessário que se recorde o que já declarou seu Antonio). Disse-o pela boca de um miserável camponês, sem reforma agrária, nos mesmos cinco séculos que ainda hoje suportam. De como isto tudo passou escrito, porém, esse povo não podia ler,  não lhes foi dado tempo suficiente para saber de si mesmos, nem suficientes recursos para comprar livros.
            A longa fila se arrastava em meio à neblina, vacilante, tropeçando no asfalto, guiando-se como por instinto, pelos caminhos que todos os dias percorriam, quando atrasavam os ônibus, ou quando o dinheiro acabava e não podiam pagar a passagem até o centro da cidade. De modo que, para esta multidão, caminhar pela névoa não se constituía em alguma aventura. O que lhes causava temor eram as névoas, a brancura irritante do ruço e a acidez nos olhos, porém a vontade de chegar, de desaparecer o nevoeiro, justificava a ousadia.
            E foi seguindo aos poucos, lentamente, a estranha procissão sem devotos. Buscavam a Praça da Matriz, onde ficava a Prefeitura. Supunham que lá teriam informações mais precisas do que acontecera com a cidade, com as ruas, com as avenidas, com a tarde, com o dia e provavelmente a noite. Quando viesse a noite, disseram eles, a escuridão tomará conta de tudo e seremos tragados por alguma coisa muito ruim e feroz.
            Fazia silêncio, um silêncio hostil e algumas pessoas choravam, baixinho, para que os outros não ouvissem e com isto perdessem o pouco de coragem que ainda acumulavam.
            Chegando à Praça, espalharam-se pelo chão, largados como trouxas de roupas inúteis.
Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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