A Cidade e a Névoa: Uma romance de Carlos Sepúlveda - 16º capítulo

16    quando lívia pressentiu passos em sua direção, ainda não sabia que eram os de José Inácio e seu Antonio. Nem eles ainda estavam de todo despertos da cena que tinham acabado de presenciar na Igreja. Lívia descobriu seus rostos pálidos no meio da névoa, pensando que eram apenas rostos manchados de branco.  O cão Argos farejou os estranhos, rosnou em aviso, mas Lívia tocou-lhe na cabeça imensa e ele aquietou-se, num resfolegar conformado, mas ainda atento.
            Quando os dois homens tentaram dizer-lhe algo é que ela se deu conta do tremor nas vozes, das falas vacilantes e do espanto, no olhar. Menina, aonde vai? Não tens medo de caminhar por aí? Lívia tinha medo, mas reconheceu, afinal, vozes amigas. Não sabia exatamente de onde os conhecia, mas tinha a impressão de já tê-las ouvido outras vezes. Sabia-se segura e calma ao lado do cão. O mais alto dos dois homens disse-lhe que vinham ambos da Igreja e assistiram a uma cena inacreditável e narraram, como puderam, o voo inconcebível do Padre Luis, pela nave central do templo. Lívia ouviu incrédula, mas deu-lhes o benefício do espanto, já que coisas efetivamente estranhas aconteciam, então por que não poderia ser mais esta uma delas?.  E então, o que vocês fizeram? Seu Antonio, com alguma vergonha, repetiu que fugiram apavorados. E as mulheres, ficaram lá, sozinhas? Sim, sozinhas ficaram, mas não pareciam ameaçadas. José Inácio parecia ainda duvidar de seus olhos, por isso falava por monossílabos, cauteloso, sem saber como exprimir aquela cena. Não é sempre que se pode testemunhar este mundo fantástico que nos rodeia, afinal o esforço da razão é garantir o sossego de nosso coração com a lógica da familiaridade, da regularidade, do que se espera e se alcança. Ninguém está efetivamente preparado para uma cidade mergulhada em névoa há mais de cinco horas, a supor pelo cálculo mental do tempo, e ainda por cima a visão de um padre desafiando a lei de gravidade enquanto fiéis mergulhavam o rosto no chão, como se visse uma assombração. Também eles viram, mas, ao contrário das mulheres, preferiram correr, sair em qualquer direção para não ter de aprender que aquele mundo, aquela cidade, vivia o assombro de ser tomada pela loucura.
            O cão agora liderava a jornada. Os dois homens fizeram-se amigos de Argos que os recebeu com orgulhosa indiferença, diferente do afeto que demonstrava por Lívia. Não se pode negar que fizeram amizade, tanto que o cão liderava a caminhada, como se soubesse exatamente para onde ia, mas o cão sabia a quem se pertencia.
            José Inácio, seu Antonio e Lívia eram agora três pessoas e um cão a partilhar o enigma. Sequer podiam respirar com o conforto do ar livre, pois a névoa ardia e o coração deles disparava de medo. Com estes temores, os três encontraram, finalmente, um banco e, pela silhueta desenhada em frente, imaginaram que estavam, de novo, na Praça da Matriz, o que lhes fez supor que andavam em círculo e onde esperavam encontrar alguém que lhes pudesse explicar o que se passava. O prédio da prefeitura ficava logo defronte da Igreja, assim não seria muito difícil, tateando e amparando-se uns nos outros, subir os degraus e entrar no prédio, em busca da alguma informação.
            Lívia lhes garantiu que fora o cão que lhes havia conduzido de volta, talvez porque tivesse algum tipo de faro que os levasse a uma explicação ou talvez fosse o plano dele nos enviar de volta.
            Aos poucos, em passos cautelosos e breves, entraram os três, ou devesse dizer, os quatro, no prédio da prefeitura, porém não encontraram viva alma, pelo menos na entrada. Tiveram, pois de arriscar-se em subir até o andar superior, onde ficavam as salas dos secretários para, quem sabe, encontrar alguém que os assistisse.
            Ouviram ruído de vozes no fim do corredor, coberto pela cerração. Eram vozes aflitas, em tensa conversação. José Inácio notou que discutiam com certa aspereza. Foi seu Antonio, porém, quem supôs ter identificado uma das vozes: É o prefeito que está falando. Acho que estão a reunir-se. Bom que assim fosse, porque nesse caso alguma autoridade poderia informar o que se passava. Continuaram caminhando em direção às vozes e puderam ouvir, nitidamente, a confissão angustiada de algum participante de que nada sabia, era tudo surpresa ou coisa pior, podia ser algum mal insanável. Ainda por cima, somente a nossa cidade estava coberta pelas nuvens, o tempo congelado, as comunicações bloqueadas. Nenhum de nós conseguiu escapar dos limites do município e é como uma prisão. Outra voz relatou fatos inacreditáveis, como a flutuação do pároco em meio a uma missa em que pedia pelo fim da névoa. Estamos então entregues a um fenômeno inexplicável e não podemos fazer nada? Como era isso possível? Alguém poderia dar um palpite, disse o prefeito seriamente preocupado.
            Lívia ameaçou interromper a reunião, mas José Inácio a deteve pelo braço enquanto seu Antonio recolhia-se ao silêncio. Saíram como entraram, sem que ninguém os tivesse visto. A conversa na sala de reunião fora o bastante para que os três percebessem que ninguém tinha a menor ideia do que se passava, estando eles então entregues ao capricho da névoa. Talvez apenas o cão Argos pudesse ajudar, a despeito de ser um simples animal.
            Desceram de volta à praça onde já centenas de pessoas se aglutinavam num comovente abraço de desespero e temor.
            Ao povo, que esperava com paciência, juntaram-se outros que mais vinham, de todos os lados, em silêncio reverencial, esperando algum sinal, alguma explicação. As orações eram sussurradas, principalmente, pelas mulheres mais velhas. A porta principal da igreja abriu-se lentamente e de dentro dela saiu Padre Luis, caminhando como que sobre nuvens, seguido das beatas entoando hinos de louvor.
            Do meio da névoa, vozes misericordiosas apelavam pela compaixão de Deus, esperando não fosse Ele surdo aos apelos de tão humildes suplicantes em vasta procissão.

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