Rio: famílias de desaparecidos políticos esperam que Comissão da Verdade chegue aos culpados


Parentes querem uma versão oficial do que realmente aconteceu com cada um delesCarlyle Jr., do R7Família_Rubens_PaivaArquivo PessoalRubens Paiva reunido com a família em sua casa no Leblon, zona sul do Rio. De lá, ele foi levado por militares e nunca mais voltou
Há mais de 40 anos, a jornalista Hildegard Angel convive com a dor do obscuro desaparecimento de seu irmão. Em 1971, Stuart Angel, de 26 anos, foi levado por militares e nunca mais voltou. Os irmãos Marcelo Rubens Paiva e Vera Paiva não tiveram tempo para se despedir do pai Rubens Paiva, de 41 anos, depois que agentes da repressão invadiram a casa da família em janeiro do mesmo ano. O engenheiro Romildo Maranhão do Vale sabe apenas que o irmão Ramires, de 23 anos, estava em um carro que foi metralhado e incendiado em uma estrada da zona oeste do Rio em 1973. Os parentes desses e de outros desaparecidos políticos esperam que a Comissão da Verdade, que finalmente vai abrir os arquivos da ditadura militar (1964-1985), revele o destino de mais de 130 pessoas.

Após anos sem resposta, as famílias querem uma versão oficial do que realmente aconteceu. A Comissão da Verdade terá dois anos para esclarecer os abusos contra os direitos humanos ocorridos no passado recente do País. Cansados de correr atrás de histórias perdidas, os familiares torcem para que os sete magistrados que integram o grupo cheguem aos culpados. Além de ter um irmão desaparecido, Hildegard perdeu a mãe, a estilista Zuzu Angel, em um acidente de carro forjado por militares em 1976. Depois do desaparecimento do filho Stuart, que era militante de uma organização radical de esquerda, a estilista começou uma peregrinação para encontrá-lo, o que desagradou os agentes da repressão. A jornalista quer saber quem são os autores dos dois crimes. — Nós precisamos saber quem foram os assassinos que mataram a minha mãe naquela madrugada de 14 de abril de 1976. Nós precisamos saber quem deu a ordem, quem assassinou, quem desapareceu com o corpo do meu irmão. O escritor Marcelo Rubens Paiva e a psicóloga Vera Paiva também querem detalhes do que aconteceu com pai deles, o ex-deputado Rubens Paiva. Ele entrou para a lista dos inimigos do regime em 1964 quando teve os direitos políticos cassados pelo golpe militar. Sete anos depois, a casa do ex-deputado foi invadida por militares da Aeronáutica, que, além de prendê-lo, levaram sua mulher Eunice e a filha Eliana, que só tinha 15 anos.A família já conhece a história de que Rubens Paiva foi torturado e morto nos porões das Forças Armadas. Mas, hoje, a filha Vera quer que a Comissão da Verdade descubra quem pôs um ponto final na trajetória do pai.— Eu vou acompanhar o trabalho da comissão de coração aberto, como o meu pai faria. Espero que o seu nome sirva de meios para restabelecer a memória e recuperar a história de atos de terrorismo praticados pelo Estado, para que eles não se repitam mais.A busca por informações sobre o paradeiro do irmão Ramires faz parte da rotina do engenheiro Romildo Maranhão do Vale, de 65 anos, há mais de três décadas. O jovem de 23 anos vivia com identidade falsa por causa de sua atuação no PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário). Em relatório do Ministério do Exército, consta que, “em 23 de outubro de 1973, Ramires foi morto juntamente com mais dois companheiros em tiroteio com as forças de segurança no Rio de Janeiro”. Romildo, que também sentiu na pele a mão pesada da repressão militar, diz não acreditar na versão dos militares.— Ramires foi preso e assassinado e entrou no rol dos desaparecimentos do PCBR na suposta troca de tiros na estrada de Jacarepaguá [zona oeste do Rio]. Ele e os outros já estavam mortos quando o carro foi metralhado e incendiadoMais tarde, o engenheiro descobriu que seu irmão foi jogado em uma vala clandestina no cemitério de Ricardo de Albuquerque, na zona norte. O corpo, no entanto, nunca foi encontrado. Apesar de não alimentar muitas esperanças em relação à Comissão da Verdade, Romildo pede que os nomes dos autores do crime sejam revelados para todo o País. — Espero que haja um reconhecimento de como as coisas aconteceram. Isso é importante para a verdade e para a preservação da memória do Brasil. Eu quero que os responsáveis sejam identificados e expostos à execração pública.A professora Maria Auxiliadora Santa Cruz Coelho, de 67 anos, também quer que comissão vá além da verdade. Ela quer que os culpados pelo desaparecimento de seu irmão Fernando Augusto Santa Cruz sejam punidos. O estudante tinha 26 anos quando foi preso em Copacabana, zona sul, por agentes do DOI/CODI-RJ (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) no Carnaval de 1974.Depois disso, Maria Auxiliadora passou a reunir informações perdidas na tentativa de montar o quebra-cabeça do sumiço de seu irmão. Desta vez, o ex-delegado Cláudio Guerra, do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), disse, em depoimento no livro Memórias de uma Guerra Suja, que o estudante estaria entre os militantes que teriam sido incinerados em uma usina de açúcar em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense. — Até que enfim abriram uma Comissão da Verdade no Brasil. Mas a gente também quer Justiça. Esses torturadores continuam soltos. Por causa da Lei da Anistia, esses criminosos não foram punidos. Sem puniçãoA Comissão da Verdade não anula os efeitos da Lei da Anistia, de 1979, o que impede a punição dos autores de assassinatos e torturas que serão investigados pelo grupo de magistrados. Na cerimônia de abertura, no último dia 16 de maio, a presidente Dilma Rousseff (PT), que também foi vítima da repressão, disse que a proposta não será movida por “ódio” e por “revanchismo”. — Não nos move o revanchismo, o ódio nem o desejo de reescrever a história, mas mostrar o que aconteceu, sem camuflagem, sem vetos.A presidente do grupo Tortura Nunca Mais do Rio, Vitória Grabois, lamenta que a punição para responsáveis pelos crimes não faça parte da Comissão da Verdade. Ela perdeu o pai, o irmão e o marido na guerrilha do Araguaia. Militantes do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), os três desapareceram no Natal de 1973 quando comandavam o movimento guerrilheiro no interior dos Estados do Maranhão, Pará e Tocantins.— É um absurdo que a Justiça não responsabilize essas pessoas que sumiram com milhares de brasileiros presos e torturados.O secretário de Direitos Humanos do PCdoB do Rio, Djalma Oliveira, também queria outro desfecho para o desaparecimento de sua irmã Dinalva Teixeira Oliveira, que tinha 29 anos quando foi morta em um conflito com o Exército na guerrilha do Araguaia.— Nós lutamos há 40 anos na busca e na pesquisa por informações sobre os corpos. As Forças Armadas têm registrado as barbaridades e atrocidades cometidas na ditadura. Além de assegurar a anistia para os repressores, a lei que criou a Comissão da Verdade visa garantir a imparcialidade dos magistrados na investigação dos crimes. Mas, para o ex-preso político e autor de livros sobre a ditadura Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, a participação do ministro Gilson Dipp, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), não se enquadra nos critérios estabelecidos pela comissão. Isso porque, segundo o religioso, Dipp defendeu o Estado brasileiro no julgamento da guerrilha do Araguaia na Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA (Organização dos Estados Americanos). — Ele [Gilson Dipp] se posicionou contra as famílias dos desaparecidos. Penso que, por isso, ele não goza da imparcialidade prevista na lei que criou a comissão. As ONGs de direitos humanos devem acompanhar de perto os trabalhos da comissão.Procurado pelo R7, o ministro Gilson Dipp não comentou as declarações de Frei Betto até a publicação desta reportagem.

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