A TEOLOGIA DA ALTERIDADE

Diário de Alexandria 
                                               

Para Frei Betto

Há pelo menos dois mil anos nossa cultura internalizou a imagem de Deus tal como hoje percebemos.
       A própria percepção de uma imagem já é em si mesmo fruto de uma interioridade, portanto, desde Agostinho de Hipona, Deus é dentro, acontece na intimidade do sujeito, ocorre como pensamento íntimo. Daí, cada um de nós se enclausura em seu Deus pessoal e intransferível, entrincheirado no mais recôndito território de cada um.
       Mas, nestes tempos modernos, ou pós-modernos, ocorre a necessidade de encontrar Deus como experiência fora do sujeito, lá no outro, na experiência comunitária da polis.
       Quando Deus nos chega, como vivência comunitária,  vem de fora, vem do universo multifacetado da vivência do outro, lá, onde a razão perde os dentes.
       Porém, toda esta virada copernicana não acontece sem transtorno. Primeiro, porque o Deus da alteridade é um Deus politizado, marcado pela compaixão objetiva, pelas opções do agir concreto cuja marca fundamental é a participação na vida coletiva.
       Não precisamos mais de uma salvação pessoal e exclusiva, de uma salvação só minha, indivisível, fruto de minha exclusiva participação. O Deus comunitário nasce da fé que temos na salvação coletiva. Ou nos salvamos todos, ou ninguém merece ser perdoado
       Nesta tarefa de salvação comunitária, é preciso pensar nos movimentos sociais que unem fé e compromisso, portanto, algo a ver com política, no sentido positivo do termo. Algo a ver com a reconstrução das sociabilidades, na retomada de projetos participativos que permitam a melhoria da vida coletiva, da emancipação pela justiça social, a possibilidade de inclusão das minorias. Talvez isto possa ter o nome da ágape, no sentido do amor-caridade, como Paulo imaginou.
       Creio que a evangelização, sob o ponto de vista da alteridade, é um ato político. Acredito que o DEUS que vem da alma do povo, do centro afetivo da comunidade, não começa, obviamente, em nós, mas chega até nós, aporta no porto seguro de nossa fé.
       Oportunidade quer dizer chegar a bom porto. Um Deus construído como alteridade chega até nós, pode ser nosso bom porto, porque não vem ancorado na precariedade do Eu. Um Deus nós, feito de eus, é mais forte do que pode nossa vã imaginação.
       Segundo, porque este Deus lá, no outro e nos outros, implica uma nova ética. Cada um de nós que pretenda viver esta nova teologia tem de estar, o tempo todo, em disponibilidade para a construção da vida coletiva, tem de abandonar o conforto dos projetos pessoais e politizar sua vida.
       Trata-se de um ethos novo, em conflito com certa tradição que teima em manter Deus trancafiado no egotismo de cada um de nós. É preciso libertar-se deste Deus antigo.
Carlos Sepúlveda

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