19º capítulo de 'A Cidade e a Névoa': romance de Carlos Sepúlveda


19                                   a melodia eSPALHOU-se por toda parte, tecida pelas vozes trêmulas dos cantores. Não tinha letra, como aqui se descreveu, era apenas um vacilante solfejar, uma melodia, um lamento murmurado de gargantas apertadas, na esperança de que a névoa, afinal, se dissipasse por artes da cantoria ou da vibração de vozes. Argos, o cão, pôs-se em alerta, erguendo as orelhas pontiagudas, ouvindo outras melopeias que não podiam os humanos perceber. Não se pode garantir se melhor ou pior. Rodrigo abraçou Lívia pelas costas e ela deitou-lhe nos ombros os levíssimos cabelos louros de sua delicada cabeça, respirando fundo, imaginando; quem sabe, uma longa e emocionada despedida.  Um breve roçar de seus lábios no pescoço de Lívia que se encolheu como uma criança medrosa lembrou que a vida ainda pulsava.
José Inácio e seu Antonio tentavam seguir o murmúrio das vozes, mesmo sem conhecer a melodia, mas era só para estarem solidários com a dor dos outros. As pessoas buscavam abraçar-se ou permanecerem de mãos dadas, enquanto a vibração de suas vozes poderia romper o nevoeiro, como se cristal fosse. Vaga esperança no meio do desespero, inútil exercício, talvez.
            E assim permaneceram por tempo incontável, porque contá-lo não seria possível sem o tempo, ouvindo as ondas explodindo na praia em harmonia com os cânticos solfejados e as orações sussurradas, cheios de temor. A melodia embalava o marulho das ondas.
            Eis senão quando, Argos, o cão, emite um latido de alerta, pois que, do meio do nevoeiro, surge Padre Luis, seguido das beatas e suas vozes estridentes, interrompendo o silêncio e a reverência do ritual. Entoavam, com suas vozes agudas, os hinos religiosos, enquanto o padre gritava com sua voz esganiçada, em tom de flautim: Arrependei-vos, arrependei-vos antes que seja tarde. A mão de Deus será vingadora. Abram seus corações que este é o fim dos tempos.
            O povo aconchegou-se, as pessoas abraçarem-se ainda mais fortemente; com medo do que fosse suceder. Lívia e Rodrigo cingiram os corpos como se este gesto, tão comum a dois amantes, pudesse significar a salvação da espécie. Juntos, quem sabe, poderiam sobreviver ao mistério, superar o medo e, quem sabe ainda mais, pudessem sentir-se comprometidos com o dia seguinte, podiam repetir o casal do gênesis e recomeçar o gênero humano, mesmo que fosse para também repetir o equívoco de Deus. Até os sons abafados desta cidade secreta devem ser outras tantas álgebras e rigorosa linguagem que provavelmente têm suas chaves correspondentes, suas duras gramáticas e sua fluida sintaxe, e assim este nevoeiro, que a todos atormenta, pode ser o espelho de coisas inexplicáveis, pode ser um texto ainda não decifrado. A decifração do enigma branco não parecia estar ao alcance da inteligência daquelas pessoas, nem mesmo do padre Luis, que guiava o grupo de beatas em direção ao Forte, não se sabia por que razão,  se existe razão nos lunáticos, especulação sobejamente inútil em face dos acontecimentos aqui narrados.
            Quando indagado, padre Luis arregalava mais ainda os olhos injetados, anunciando, com sua voz profética, que o mistério está no forte, é de lá que vem a neblina, eu vi, eu vi a revelação. E as beatas seguiam-no mesmerizadas, e todo o público também resolveu acompanhá-los;  afinal, no meio de tanta dúvida, tanto medo e incerteza, supor uma explicação para o fenômeno parecia fazer sentido. Portanto, em fila, caminhotateante no meio da névoa, aquele grupo bizarro seguia o padre que, em transe, entoava cantos religiosos em latim. O povo não os compreendia, mas isto não tinha a menor importância, pois se entendia que a jornada em direção ao Forte poderia ser a solução do mistério na língua da Bíblia. E isto merecia respeito e mesmo comovida reverência.
            Ainda era dia (isso se deduzia da precária claridade), mas não se sabia quanto faltava para o entardecer e a consequente escuridão que haveria de suceder com a noite. Era a escuridão da noite o maior de todos os temores, porque todos seriam atirados numa espécie de desamparo e de cegueira maior e involuntária. A névoa, associada à escuridão, ampliava o temor de que algo nefasto estivesse para acontecer. Talvez isto explique porque aquela pequena multidão se dispunha a seguir o padre em direção ao suposto fim do enigma.
            Embora descrentes, Lívia e Rodrigo seguiam a procissão, junto com Argos, o cão, que parecia estranhamente confiante e seguro farejando a rota que seguiam. Argos, o cão, avançava a alguns metros na frente de casal e de vez em quando tornava o focinho como a assegurar o acerto da escolha. Sim, era como diziam seus olhos argutos, podem seguir-me que eu já sei para onde vamos, confiem. O cão trotava seguro, quase ao lado de Padre Luis, um e outro pareciam saber o que faziam.
            Pois este caminhar não incerto apontava para a construção branca, sólida, plantada no alto do rochedo. O Forte, já de quatro séculos, garantiu a integridade da cidade, no tempo em que os piratas franceses e holandeses por aqui passaram, em busca do pau-brasil. Era uma construção imponente que ainda guardava os sinais de sua petulância orgulhosa. Dali é que vinham os tiros de canhão, impedindo que a cidade fosse vilipendiada pelas mãos impuras dos corsários e que suas mulheres conhecessem a ignomínia de um estupro. A seus pés, pousaram índios e brancos, comerciando o permitido e o proibido; sob a proteção de sua sombra e era sob o signo de sua imponência que se podia dormir em paz. Enquanto dele se precisou, enquanto ao Forte pertenceu a tarefa de proteger as pessoas e as casas, as ruas e os palácios, foi ele moendo o tempo, deixando passar os séculos por suas paredes brancas e aos poucos foi perdendo importância, porque já não se invadiam mais as cidades pelo mar, nem por piratas, mas por outras formas menos rudes de invadir, nas quais não se viam armas, mas a riqueza e irreverência petulante dos turistas para os quais não se necessita de um Forte.
            Por isso, hoje, não passa de uma memória longínqua de uma história de que ninguém se lembra mais. A edificação, sob os cuidados da prefeitura, é apenas um lugar exótico que anônimos visitantes ocupam sem se importarem do que fazem ou desfazem. Onde à noite, por exemplo, fogosos casais exercitaram uns nos outros a mais antiga das coreografias, a do prazer. As paredes, outrora alvas, estão hoje desenhadas por vocábulos incompreensíveis, nomes e lugares distantes, de fulano que ama fulana ou de fulano que esteve aqui em certa data. Não se pensa que ali passeiam fantasmas de outras vidas, contando a longa história de uma conquista, e que deviam merecer mais respeito.
            Quem se importa com as vidas que circulam por suas paredes grossas e dos velhos soldados, que passeiam por seu pátio, vigiando, fantasmas que são, impenitentes, o desprezo do tempo?
            Lívia e Rodrigo, também José Inácio e seu Antonio, tomaram o mesmo caminho em direção ao penhasco em que descansava, já por quatro séculos, o Forte. Ah, sim, lá também estava Borges, ao lado de Argos, o cão, que agora  nos guiava pelas entranhas do caminho. Ele, com sua bengala de cego, tenteava o passo em direção ao edifício, tendo surgido do fundo de alguma memória funesta há muito dispersa nas lembranças difusas daqueles insólitos peregrinos. Argos, o cão, era o guia.
            Posso dizer que entramos todos nós na sala-d’armas , que é onde se supunha estar a solução do mistério.
Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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