A Cidade e a Névoa: romance de Carlos Sepúlveda - 17º capítulo


            
17   o rosto que LÍVIA percebeu no meio da multidão não lhe pareceu desconhecido. A névoa intensa não lhe permitia saber se era Rodrigo, por isso teve de tocá-lo cuidadosamente para delinear seus traços, traços que bem conhecia. Era sim Rodrigo que lhe tomou as mãos como se faz com os náufragos. Lívia aproximou-se mais dele, abraçou-o com suavidade e disse que estava com medo. Rodrigo perguntou-lhe como conseguira sair de casa e Lívia contou-lhe a história das últimas lembranças, de como saíra de casa tateando pelas ruas, de como os automóveis passavam perigosamente por ela, e de como encontrara um cão que chamara Argos e mais os dois homens que com ela estavam: o pescador e o velho português. Rodrigo, por sua vez, contou-lhe dificuldades semelhantes, mas que resolvera vir até a Praça da Matriz porque ali havia alguém de saber o que fazer. Desejava encontrá-la para dividirem juntos o pão da intimidade e seus temores. Na prefeitura, souberam, por ouvir dizer, que ninguém tinha a menor ideia de como agir. O fato de a cidade estar fechada para o mundo e o tempo ter parado era, para ele, motivo de quase pavor. Nos poucos contatos que tivera com pessoas que se aventuravam a sair de casa, sentiu que o pânico já era evidente. Muitas casas comerciais foram invadidas, subtraiam-se mercadorias porta a fora, embora o esforço necessário para carregar as coisas roubadas exigisse do invasor alguma força física e não pouca agilidade. Além do peso dos objetos, a respiração tornara-se precária e o larápio quase desmaiava, por falta de ar. Talvez por esta circunstância, o vandalismo não fosse tão intenso, porém era metódico. Embora sempre se pudesse supor a inutilidade do roubo, se não se vislumbrava futuro para a cidade, eles aconteciam. Afinal, quem resiste ao apelo da propriedade, mesmo ilegal e indébita?
            Lívia apertou seu corpo contra o de Rodrigo e lhe disse que estava com medo. O cão Argos aproximou-se em alerta, como se lhes garantisse a proteção de seu território. Os outros dois homens, percebendo a intimidade da conversa, afastaram-se um pouco, mas foi José Inácio quem rompeu o silêncio momentâneo. E agora, o que a gente faz? Devemos esperar, Rodrigo disse enquanto acariciava o rosto tenso de Lívia, devemos esperar até ver se o nevoeiro passa e as coisas voltam a seu lugar. Não parecia assim a seu Antonio e seu espírito prático. Opinou que deviam tentar encontrar alguma explicação para esta situação inexplicável. Não podia uma cidade desaparecer sob um nevoeiro, nem o tempo parar, enquanto o resto do mundo segue sua vida normal. As notícias diziam que o sol brilhava logo nos limites da cidade e que não se podia passar das nuvens ao sol, porque o nevoeiro não permitia. Quem tentasse, como já antes outros tentaram, ficava paralisado e sem respiração. Era como se tivessem virado peixes que só conseguem viver sob o ruço, respirando aquela nuvem ácida e espessa como em um aquário de neblina.
            Não se pode viver assim... Isto não é coisa que se possa aceitar. A verve combativa de seu Antonio não se conformava com a situação. Mas foi Rodrigo quem sugeriu que procurassem outras pessoas, algumas ali da praça mesmo, para saber como agir. Ou devíamos esperar que alguém da prefeitura dissesse alguma coisa, pois estavam em contato com a base militar e eles lá devem saber o que está acontecendo. José Inácio concordou e resolveram aproximar-se das outras figuras pálidas que permaneciam na praça, envoltas no ruço.
            São próprias do desespero a resignação e a fé. Muitos daqueles homens e mulheres que se dissolviam na cerração implacável sentiam a mesma dor. Sabia-se que era dia apenas porque um tímido disco solar esforçava-se por iluminar a vida na cidade, por esta razão sabia-se que não era noite e sim dia, mas não se sabia que momento do dia era aquele. O temor aproximava-os de modo que se tocavam, como a supor uma fraternidade nova, imprevista. Sabiam que o destino lhes havia pregado uma peça e, como nessas horas, havia de se buscar culpados; o problema, no entanto, é que, para tamanho absurdo, nem os culpados são possíveis. Pelo menos um consenso começava a surgir daquela assembleia fantasmagórica: era preciso encontrar a origem do nevoeiro, pois só podia vir de algum lugar na cidade; se procurassem com calma e insistência, é possível que se pudesse saber onde começava tudo isto.
            A filosofia dos que assim argumentavam supunha a hipótese de que todo o começo já é um fim, e que em toda origem já lá está sua escatologia. Um princípio que aos poucos ia tomando conta das mentes, mitigando-lhes o pavor e o pânico, embora eles nada soubessem dessas coisas complicadas.
            Em meio a estas dúvidas, perceberam que o cão farejava o ar, andava até a esquina da Praça e olhava para o grupo, como se convidasse a segui-lo. Fez isto várias vezes, até que Lívia percebeu e disse olha o cão,ele está pedindo para a gente ir com ele.
            São os cães fiéis intérpretes do que incomoda seus donos, ou quem eles escolhem para estar ao pé. Já outro cão – Constante – em outra história muito mais profunda e bela do que esta, conseguiu guiar seus donos. A alma do animal é feita desta necessidade, de ser solidários, dando ao homem lições surpreendentes, embora óbvias. Mas o que interessa, neste momento, é que Argos liderava uma longa fila de corpos em procissão, seguindo um animal irracional, já que a racionalidade humana nada podia oferecer para a resolução daquele mistério.
            Quem diria que a irracionalidade de um animal pudesse valer mais do que nossa vã racionalidade?
 Um romance de Carlos Sepúlveda. 
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