Executivo da Gol surpreende mercado e será o novo presidente da CVM

Leonardo Pereira fechou há menos de um mês acordo com o órgão para encerrar processo por não publicação de fato relevante  
Adriana Fernandes e Mariana Durão, de O Estado de S. Paulo
RIO e BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, bateu nesta terça-feira o martelo e indicou o vice-presidente financeiro da Gol, Leonardo Gomes Pereira, para assumir o comando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O anúncio surpreendeu o setor financeiro.


Há menos de um mês, Pereira fechou um acordo de R$ 200 mil com a própria CVM. O executivo pagou para encerrar um processo em que era acusado de não ter publicado fato relevante para comunicar o mercado sobre a revisão das projeções financeiras da Gol para o ano de 2011.
O episódio não foi considerado relevante por Mantega a ponto de comprometer a indicação. Para uma fonte ligada à CVM, o problema não passou de um "erro formal" e foi um episódio único em uma carreira de décadas em grandes companhias.
Estado apurou que o nome de Pereira foi levado ao ministro pela então presidente da CVM, Maria Helena Santana, cujo mandato terminou na sexta-feira. Nas últimas semanas, Mantega teve conversas reservadas com alguns indicados para o cargo, mas só decidiu por Pereira no fim de semana.
A demora gerou apreensão no mercado, onde circularam nomes como o do atual diretor da CVM, Otávio Yazbek - também na lista de Maria Helena - e do economista Sergio Weguelin, ex-diretor da CVM e atualmente no BNDES. Ambos estiveram na mesa do ministro, mas acabaram sendo descartados.
Segundo fontes, o contato da executiva com Pereira vinha desde a época em que ela atuava como diretora de Desenvolvimento de Empresas da Bovespa. Assim como ela, que atuou para consolidar o Novo Mercado, Pereira foi um dos pioneiros nos debates para aprimorar a governança corporativa no País. Foi ele o responsável, por exemplo, pela migração da Net para o Nível 2 da bolsa.
Experiência. Aos 54 anos, Pereira tem larga experiência no setor privado. Engenheiro e economista, ele enfrentou nos últimos anos desafios como a reestruturação financeira da Net Serviços, entre 2000 e 2007, e atuou na Companhia Vale do Araguaia, na Globopar e no Citibank. Em seus últimos meses na Gol, vinha concentrando esforços para reverter o prejuízo de R$ 700 milhões registrado em 2011 (ver ao lado).
Entre ex-diretores da CVM, a indicação causou espanto. O principal questionamento foi a falta de familiaridade de Pereira com o órgão e pouco conhecimento de questões regulatórias. Mas, para entidades ligadas a investidores e empresas abertas, a escolha foi acertada por colocar no comando alguém que já esteve "do outro lado do balcão" e conhece as demandas das companhias.
"Uma das críticas à CVM é o excessivo formalismo jurídico nas decisões, sem olhar a essência dos debates. Ele (Pereira) viveu na prática grandes operações e entende a visão do investidor", disse o presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Mauro Cunha. Na avaliação de Alfried Plöger, vice-presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Pereira terá como grande desafio aumentar o número de empresas de capital aberto no País e facilitar o acesso das companhias de pequeno porte à bolsa, simplificando exigências do órgão regulador para o segmento.
Já o ex-presidente da CVM, Luiz Leonardo Cantidiano, destacou a experiência do executivo em operações de como aberturas de capital e reestruturações de dívida. "Conflito de interesse pode sempre haver, a questão é administrar", disse sobre o fato de Pereira - conhecido como Leo no mercado - ter ligação com grandes companhias e ser do Comitê Diretor da Abrasca.
Como presidente da CVM, Pereira terá de fiscalizar a atuação da própria Gol, uma das companhias que se beneficiam de uma liminar para não divulgar a remuneração de seus executivos, exigida por uma regra aprovada em 2009 pela própria Maria Helena. Também trocará bônus e remuneração variável por um salário de cerca de R$ 11 mil.
O presidente indicado só deverá tomar posse em agosto depois da sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. A sua indicação terá ainda de ser aprovada pelo Senado Federal, que entra em recesso nesta quarta-feira e só retorna aos trabalhos no início de agosto. Caso aprovado, ele assumirá o cargo por cinco anos, até 2017. 

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