Lugar de PMs e guardas municipais é na sala de aula


AMANDA PINHEIRO - O Globo
PROJETO CARIOCA COMO EXEMPLO
Do combate ao assédio de traficantes a lições sobre o nocivo mundo das drogas. No início do segundo semestre letivo, em agosto, policiais militares e guardas municipais vão se juntar ao corpo de professores de pelo 17 escolas municipais localizadas em áreas de risco em Niterói. A proposta, elaborada pelo secretário municipal de Segurança e Controle Urbano de Niterói, Ruy França, deve ganhar o título de projeto e a formalização por parte da Polícia Militar e da Fundação Municipal de Educação até o próximo mês, para que seja incorporada ao projeto pedagógico.
— Pais, professores, alunos e diretores receberam muito bem a presença dos agentes do Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis) no entorno dessas unidades. Então, chegou a hora de levar discussões como combate às drogas, cidadania e direitos humanos, na maioria dos casos iniciadas pelos próprios alunos, para as salas de aula — aposta França, que também é coronel da PM.


Assédio do tráfico aos estudantes
A mesma onda de violência que se instalou em Niterói, no início do ano e que só agora, quase quatro meses depois, começa a dar sinais de que está perdendo força, atingiu escolas em bairros que passaram a fazer parte da chamada nova área de risco de Niterói. Com isso, a Polícia Militar e a Guarda Municipal formaram uma força-tarefa para tentar frustrar o assédio de traficantes, que deixou pais e professores aterrorizados, além das recorrentes brigas entre gangues e roubos. Para esse trabalho, foram designados policiais com perfil diferente dos que atuam na linha de frente do combate ao tráfico no estado.
— Esses homens são mais pacientes, mais abertos ao diálogo e, por isso, acredito que podem desempenhar, sim, o papel de educadores — avalia o secretário.
Ruy França participou do projeto de criação da Escola da Polícia Militar, onde atuou como diretor e coordenador de projetos pedagógicos. À frente da Associação de Pais de Alunos do Colégio La Salle Abel, França sabe que sua proposta deve encontrar resistência entre alguns profissionais de educação e mesmo entre pais de alunos, mas garante que, até agora, nas unidades onde os agentes do Proeis atuam, as públicas, a aceitação é positiva:
— Não vamos deixar de patrulhar as portas das escolas, mas precisamos aproveitar esta abertura dada pelos alunos para conscientizá-los diariamente. Tem tudo para dar certo.
Mapeamento das secretarias municipal e estadual de Educação mostra que 17 unidades estão em áreas de risco. Em Niterói, são elas: Ayrton Senna e Antônio Vieira da Rocha (Morro do Estado); Demenciano A. de Moura (Morro Juca Branco); Nilo Neves (Boa Vista); Iguatemi Coquinot de A. Nunes (Marítmos); Margareth Flores (Grota do Surucucu); Infante Dom Henrique (Engenhoca) e Luiz Eduardo Travassos (Morro do Céu). Já as estaduais são: Maria Pereira das Neves (Charitas); Brigadeiro Castrioto (São Lourenço); José Bonifácio e Embaixador Raul Fernandes (Fonseca); Guilherme Briggs (Sta. Rosa); Dona Maria Portugal (Baldeador); Antineia Silveira Miranda (Caramujo); Mullulo da Veiga (Engenhoca) e Dr. Memória (Cubango).
No Rio, a Secretaria municipal de Educação implantou, em 2009, o programa Escolas do Amanhã em 151 unidades situadas em áreas de risco. O projeto carioca, no entanto, vai muito além do que está previsto para Niterói. Essas escolas têm educação em tempo integral, com as aulas adicionais de artes, prática de esportes, reforço escolar, laboratórios de ciência, salas de saúde, leitura e de informática. Em 2010, das 151 unidades, 98 delas registraram 65% de aproveitamento das metas estabelecidas pela secretaria. Na contramão, a taxa de evasão escolar registrou declínio, em 2008 (5,1%), em 2010 (3,26%) e em 2011 (3,18%). O número de professores dessas unidades escolares também aumentou em 54%. Hoje, 105 mil alunos são atendidos pelo projeto Escolas do Amanhã

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