Vovôs cheios de vitalidade dão receita da ‘fonte da juventude’

Eles cumprem longas jornadas de trabalho, têm disposição para exercícios e seguem uma dieta alimentar saudável


Osvaldo Tatagiba examina seus pés de alface: aos 82 anos, ele mantém uma jornada de trabalho de 12 horas diárias
Foto: Hudson Pontes / Agência O Globo



Osvaldo Tatagiba examina seus pés de alface: aos 82 anos, ele mantém uma jornada de trabalho de 12 horas diáriasHUDSON PONTES / AGÊNCIA O GLOBO
Osvaldo Tatagiba examina seus pés de alface: aos 82 anos, ele mantém uma jornada de trabalho de 12 horas diárias Hudson Pontes / Agência O Globo


Desde tempos atávicos, trovadores mundo afora entoavam as sagas de bravos homens que enfrentavam batalhas ferrenhas em busca das tão sonhadas fontes da juventude. Com promessas de vida eterna, beleza, saúde e outras dádivas, o fim desses heróis de coragem ímpar era sempre o mesmo: a loucura ou maldições terríveis e indescritíveis. No mundo real, um grupo de guerreiros vem conseguindo alcançar, sem suar tanto assim, esse tal elixir da vida. Para eles, longevidade e saúde hercúleas não são mistério: a fórmula mágica é uma combinação de prazer no trabalho, exercícios regulares, alimentação equilibrada e uma dose generosa de bom humor. Nada que um bom médico contraindique!
Todos os dias, Osvaldo Herdw Tatagiba repete o mesmo ritual: acorda às 7h, trabalha uma média de 12 horas por dia e só para quando a novela está para começar. Do alto de seus 82 anos, seu Tatagiba, como é chamado por todos, tem energia para dar e vender. Além de cuidar da horta de onde saem as frutas e legumes hidropônicos servidos no Linguiça do Padre, seu restaurante, ele se empenha na preparação de temperos e na administração do salão, por onde passam cerca de 500 pessoas a cada final de semana.
A receita mágica para tanta disposição — mesmo depois de 65 anos de trabalho — é revelada por Tatagiba.
— A minha natureza é assim. Sempre preferi acreditar nas coisas boas da vida. Sou piadista e nunca parei de trabalhar. Por isso, até hoje não esqueço de nada, sei de cor meus documentos, números de telefone, datas de pagamentos e lembro de detalhes de coisas que aconteceram.
Destemido, seu Tatagiba também nunca teve medo de arriscar. Abriu seu restaurante com 52 anos, quando decidiu voltar para Teresópolis, sua cidade natal, e relembrar as receitas ensinadas por sua mãe. Desde cedo queria ter seu próprio negócio, e foi por isso que, com apenas 20 anos, abriu uma empresa de metalurgia que fabricava janelas de alumínio. Nessa jornada, passou pelo Rio de Janeiro, Pará e até pela Bolívia.
— Dizem que é porque eu sou do signo de câncer. Por isso, a primeira coisa que faço de manhã é pegar o jornal e ler o meu horóscopo — conta ele, com um sorriso que nunca se desfaz.
Exercícios físicos são dispensados por Tatagiba. Apesar disso, seu médico lhe garantiu que ele está em ótima forma física. Contudo, por causa da pressão e do açúcar no sangue, que tem andado acima do normal nos últimos meses, ele até está fazendo uma dieta leve e conseguiu emagrecer seis quilos.
— O segredo é não ficar parado. Ando o dia inteiro de lá para cá, inspecionando meus negócios — diz.
Na corrida, ele é mais forte que Filípides
Não se deixe enganar pelos cabelos brancos nem pelas rugas que aparecem aqui e acolá. Claudionor Xavier de Mattos, o seu Nonô, tem a vitalidade de um rapaz de 20 anos. Dia sim, dia não, lá vai ele pelas ruas de Petrópolis, correndo e acenando para todos que gritam pelo seu nome. Durante o percurso — que começa em sua casa, na Castelânea, e vai até o Centro da cidade —, ele percorre 14 quilômetros em parcos 80 minutos. E isso tudo com quase 77 anos, completados no próximo dia 29.
Essa rotina, de dar inveja a qualquer adolescente sedentário, faz com que seu Nonô não precise tomar um remediozinho sequer. A alimentação também é equilibrada. Na mesa de Claudionor quase não aparece carne vermelha, mas sobram verduras, legumes e frutas. Como não poderia deixar de ser, pinta uma barrinha ou outra de chocolate de vez em quando.
— Comecei a correr por diversão aos 49 anos, e um ano depois, participei da minha primeira maratona. Já completei 21 corridas desse tipo, em diversos lugares do mundo. Criei bem meus filhos e acho que realizei todos os meus sonhos. Eu me considero um vencedor. O segredo é fazer o que se gosta e curtir bastante o que se faz — ensina ele, entre uma gargalhada e outra.
Além de medalhas e troféus das corridas, seu Nonô também coleciona amigos: só no Facebook, ele contabiliza pelo menos 700.
Muita verdura para uma vida bem doce
Realização com o trabalho, alimentação equilibrada e espiritualidade são a chave para a juventude de Marta Silva Rezende, a dona Marta, hoje com 80 anos. Quem a conhece, jura com todas as forças que ela nunca ficou doente. Casada com seu Clóvis, um mineiro que cresceu bebendo leite recém-tirado da vaca e com rapadura, ela garante a permanência das verduras e dos legumes na mesa do almoço e do jantar.
— Eu mesma vou ao mercado e administro a casa. Só tomo um remédio para pressão e outro para a osteoporose, indicado por médicos, mas nunca senti nem dor de cabeça. A minha alimentação é bem balanceada, mas sou uma formiguinha. Eu simplesmente adoro um doce — confessa dona Marta, que mantém há anos os seus 60 quilos.
Seguindo recomendações médicas, dona Marta faz caminhadas de 30 minutos todos os dias. A cabeça, ela diz que sempre exercitou.
— Eu trabalhei durante 17 anos em uma biblioteca e eu amava o que eu fazia. Se eu pudesse, estaria até hoje na ativa, trabalhando. Sempre gostei muito de ler, tudo o que via pela frente, e de fazer caça-palavras. Na biblioteca, eu sentava com as crianças para fazer quebra-cabeça e mímica — explica Marta, que, mesmo com a longa jornada, conseguiu criar seis filhos.
Diretor da premiada Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati), Renato Veras explica que não há fórmula mágica para envelhecer bem.
— Por causa dos avanços na medicina, as pessoas morrem cada vez mais velhas. O que acontece é que a sociedade não está preparada para isso. Nossa maior preocupação, por ora, é promover saúde e fazer com que as pessoas atinjam essa idade limite com qualidade de vida — diz.
Segundo Veras, a ciência prova que 90% dos idosos morrem por causa de doenças crônicas ocasionadas pelo fumo, álcool, estresse, inatividade física e alimentação inadequada. Mesmo assim, o pesquisador garante que não há solução matemática, e fatores culturais e sociais precisam ser respeitados sempre.


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