Em Búzios, mãe de paciente tem que recorrer à Justiça para conseguir tratamento psiquiátrico


"UM CAOS": É COMO A DEFENSORIA PÚBLICA CLASSIFICA A SAÚDE MENTAL EM BÚZIOS

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As recentes denúncias publicadas pelo Primeira Hora, de que o município já pagou mais de R$8 mil reais em aluguéis para instalar o serviço do Caps – Centro de Atenção Psicossocial, e no entanto esse serviço ainda não existe (os únicos beneficiados foram os administradores dos imóveis, pessoas ligadas ao sistema de saúde municipal e particular, e a denúncia se agrava pois, para justificar os altos custos o governo pode não estar requerendo a Imunidade Tributária que a Constituição Federal determina), fizeram com que mais problemas em torno da Secretaria de Saúde viessem à tona. Agora, a mãe de uma paciente, a artista plástica Estela Díaz Vélez, revela como tem sido a atenção dada à sua filha pela doutora Júnia Prosdocimi (e sua equipe), coordenadora do programa de Saúde Mental do município, e também pela Afagus – Associação de Familiares, Amigos e Usuários e Amigos da Saúde Mental.
Em uma entrevista gravada com Estela na última quarta-feira (5), ela fala sobre mentiras, dissimulações, falta de visitas, e até violência física. Se diz perseguida desde quando relatou a real situação da Saúde Mental em Búzios em um congresso em Cabo Frio, até chegar ao ponto de ter que recorrer ao Ministério Público para que sua filha pudesse ser atendida, e em resposta a isso viu aquela instituição jurisdicional conseguir reverter o processo, lhe dirigindo à investigação policial sob a acusação de abandono de incapaz. Documentos comprovam que foi preciso o Tribunal de Justiça em Búzios encaminhar a paciente ao Instituto Philip Pinel, renomado hospital carioca, onde ela vem podendo controlar seu caso de esquizofrenia. A pedido daquele hospital, a Secretaria de Saúde em Búzios está encarregada de providenciar um automóvel para a locomoção da paciente, uma vez por semana, coisa que não vem fazendo com frequência. 


PH: Você vive em Búzios há 11 anos, e desde 2004 se diz vítima, junto com sua filha, de maus tratos por parte da Secretaria de Saúde. Acha que essa discriminação se deve ao fato de vocês serem argentinas?
Sim, sofremos esse tipo de discriminação por sermos estrangeiras, isso não só na Saúde, mas em vários setores públicos, apesar de eu ser avó de um menino brasileiro. Houve um momento, em 2004 que minha filha teve que ser internada, e eu perguntei para a doutora Ana Paula, psicóloga, para onde minha filha deveria ir, e ela disse que era para a clínica Ego, em Tanguá, mas no meio do caminho o carro mudou o rumo e fomos parar em uma clínica em Rio Bonito. Lá, dois psiquiatras e uma psicóloga me disseram que eu não a deixasse lá, pois ela não tinha perfil para ficar naquele lugar; que se eu a deixasse lá eu não a recuperaria nunca mais. Nesse momento liguei para a doutora Ana Paula (pois ela disse que nos acompanharia na internação, mas não foi), e ela me disse: ‘ou você deixa sua filha aí ou nós nunca mais vamos atender a ela em Búzios’. 

PH: Em nenhum momento lhe informaram porque houve a mudança de planos? Porque não levaram sua filha para a clínica Ego, como haviam dito?
Disseram que não havia vaga na Ego, o que era mentira, pois os próprios médicos de Rio Bonito telefonaram para lá e conseguiram a internação. Havia muitas vagas, vários leitos vazios. Acontece que existe uma lei que responsabiliza aos municípios a darem assistência, terem controle sobre os pacientes trasladados a outros municípios. Pois lá na Ego nunca foram visitar a minha filha, nos aproximadamente sete meses que ela ficou. Nem telefonavam pra para saber do estado dela. Mas quando entrou o governo Toninho, o Serviço Social me fornecia um carro para visitá-la e também para trazê-la de volta nas vezes em que ela tinha licença.

PH: E ela conseguiu se recuperar?
Quando ela estava se recuperando, ela sofreu uma violência física, lá na clínica. Foi onde me dirigi ao Ministério Público no Rio de Janeiro para denunciar. Isso era final de 2004, transição de governo, e o então secretário Guilherme Azevedo encabeçou uma reunião na qual estavam a doutora Júnia Prosdocimi (terapeuta ocupacional), a doutora Renata (fonoaudióloga), a Cristina Costa (presidente da Afagus), a doutora Ana Paula (psicóloga), o doutor Francisco Carlos (psiquiatra), e eu. Nesse dia eu disse que iria denunciar todo mundo por terem abandonado minha filha. A doutora Júnia, por exemplo, nunca fez nenhum tipo de terapia ocupacional com ela. Nessa reunião eles tentaram me convencer a não ir mais ao MP. O Guilherme me disse que eles iriam me ajudar e me indicar o que eu deveria fazer.

PH: Como que eles queriam te ajudar? 
Eu disse que continuaria com minhas denúncias, e já não precisava da ajuda de ninguém, pois o pior já havia acontecido. Saí, fechei a porta e a senhora Cristina Costa veio atrás de mim, dizendo que o melhor que eu podia fazer era fechar a minha boca, porque ‘eles’ me dariam por louca, e que ninguém acreditaria na minha filha porque era louca, e disse ainda que me denunciaria ao Conselho Tutelar. Isso porque, naquela correria, eu levava meu neto comigo pra cima e pra baixo. Ele tinha só cinco anos e eu não deixava ele ir pra escola, pois como ele iria sozinho? Pois eles conseguiram que o MP arquivasse minhas denúncias e abrisse procedimento investigatório contra mim, sob acusação de abandono de incapaz.

PH: Foi nesse momento que você conseguiu que sua filha fosse internada no Pinel?
Não. Ela ficou ainda mais um tempo internada na Ego, até eu conseguir voltar para a Argentina a procura de um tratamento melhor. Pra isso eu recebi a ajuda do Serviço Social, que me deu a passagem. A secretária Lígia Macena e sua equipe me ajudaram muito. Búzios nunca conheceu melhor serviço de assistência nem antes nem depois daquele. Eram de extrema educação e ocupação com todo mundo, não faziam acepção de pessoas. 

PH: Como foi o tratamento na Argentina?   
Minha filha ficou internada por quatro meses, num clínica em Córdoba, e ficou super-boa. Ainda permanecemos por um ano e meio lá, e ela produzia muitas pinturas, pois também é artista plástica, fez exposições, fez teatro, voltou outra. Ao ponto de quando chegamos aqui, a Júnia decidiu tirar ela dos cuidados do doutor Francisco, dizendo que aqui havia o Caps. Minha filha se entusiasmou, pois era uma oportunidade dela ensinar o que sabia. Então, Júnia a entregou à psiquiatra Gisele Coutinho, que disse que ela não poderia ensinar, tampouco eu poderia ensinar, e esse era meu sonho: ajudar a outras pessoas. Claro que não poderíamos ensinar, pois o serviço do Caps não existia. Isso já era 2009, governo de Mirinho, e o secretário voltou a ser o Guilherme.

PH: E o serviço ainda não existe. O Caps é um programa do governo federal destinado aos municípios com mais de vinte mil habitantes, que é a principal estratégia do processo da reforma psiquiátrica. Pelo jeito faz muita falta aqui na cidade.
Um Caps, com pessoas capacitadas é essencial para os portadores de transtornos. Esses centros substituem as internações, são referencias às pessoas que precisam ser inseridas na sociedade, possibilitando-as ao acesso ao trabalho, ao convívio familiar, a um tratamento mais humano; estimulando a capacidade intelectual delas, ajudando-as a tocar seus projetos de vida, permitindo-lhes não conhecerem a discriminação, e sim dando-lhes a dignidade e o respeito a que todas as pessoas têm direito. Mas acho que se houver esse serviço aqui em Búzios, com esses administradores que aí estão, isso não vai acontecer. Pra ter ideia, quando minha filha pediu para expor o trabalho dela na praça Santos Dumont, a doutora Gisele disse que ‘era muito feio valer-se de uma doença para trabalhar’. Ela também não emitia os laudos que fariam minha filha receber a pensão a que tem direito. Até hoje ela não recebe. Aliás, a doutora dizia que minha filha não tinha direito algum, pois não era brasileira, e nem importava ter um filho brasileiro. Lhe negou a possibilidade de ela escolher com qual psicóloga queria se tratar, infringindo assim a lei federal 10.216, de abril de 2001. Esta lei também diz que todo usuário da saúde mental tem direito a gratuidade no transporte público com acompanhante. Mas isso também lhe foi negado pela doutora Gisele. Todas essas negações fizeram minha filha entrar em crise. De tanto eu e outras pessoas reclamarem da doutora Gisele, ela foi transferida para Rio das Ostras. Me disseram que houve casos mais graves em que ela prescreveu medicação errada e um paciente veio a óbito.

PH: Mas a doutora Júnia é requisitada até por outros municípios para palestrar sobre a reforma psiquiátrica e o movimento antimanicomial. A senhora sabe qual é o posicionamento dela nessas ocasiões?
A Júnia queria levar minha filha em um congresso em Cabo Frio, ainda em 2009. Eu disse que sem mim ela não iria a lugar nenhum. Então fui ao evento, mesmo sentindo que a Júnia era contrária à minha presença. Na verdade, havia um esforço da Secretaria de Saúde para fazer parecer que minha filha estava bem graças a eles. Inclusive, sem saber o que se passava, o jornal Primeira Hora publicou uma redação de minha filha como ‘opinião’, a pedido da secretaria de comunicação do governo, que ali exaltava o nome de Júnia Prosdocimi. Eles queriam dizer: ‘vejam, curamos uma pessoa’. O que não era verdade. Minha filha ficou boa na Argentina. Naquele congresso, fui convidada por um dirigente a contar minha experiência. Relatei somente algumas dessas coisas, e levantou-se Cristina Costa dizendo que eu guardava mágoas e ressentimentos, não deixando que eu me expressasse em tudo que eu queria dizer. Dizia ela que o melhor era esquecer. Por esse motivo, ela procurou a doutora Júnia contando o que eu havia dito, e conclusão: a doutora Júnia, que iria palestrar, sumiu do congresso, só vindo a aparecer na festinha de encerramento. Ali mesmo fomos convidados a participar de vários eventos, em várias cidades, mas a partir dali a Júnia impediu que participássemos de qualquer coisa, sempre alegando que o município não poderia nos levar.

PH: E parece que o quadro de sua filha piorou depois disso
Sim. Ela entrou em crise e abandonou a medicação, eu procurei a Júnia em três ocasiões, chorando nos corredores da Policlínica. Eu não pedia, eu suplicava. Ela queria que eu levasse minha filha até ela, como se ela não soubesse o estado que fica uma pessoa em crise. Recorri ao Conselho Tutelar e à Promotoria Pública, pedindo ajuda para internação. Procurei também o doutor Francisco, que me disse que não podia fazer nada, pois minha filha estava no ‘Caps da Júnia’. Mas, ante minha súplica, ele me disse que eu procurasse a psicóloga Renata Antun, pois hás seis meses ela visitava as residências, coisa que a Júnia nunca havia me informado.

PH: E a doutora Renata visitou sua filha?
Ela chegou a ir, mas nessa época minha filha ficava perambulando, era difícil encontrá-la em casa. Foi a única vez que a Cristina Costa a ajudou, pois a encontrou na rua e levou-a ao hospital. Tivemos que interná-la novamente, na Ego.  Nessa ocasião eu ia visitá-la e constatava que não estavam medicando-a. Tive que exigir que a Júnia e a Gisele fossem vê-la, e elas diziam ‘claro que sua filha está sendo medicada’. E eu dizia: eu conheço minha filha. A Renata só foi vê-la uma vez, e por quinze minutos. Há muito tempo minha filha se queixava de dor de dente, até que um dia a Júnia disse que eu a trouxesse para Búzios, para levá-la ao dentista. Só que, ao chegar na Policlínica, ela não foi atendida, nem medicada, e a Renata me mandou ir pra casa com ela, dizendo que ela não retornaria a Ego, e me prometendo assistência. 

PH: O que aconteceu depois disso? 
A assistência nunca veio. Me vi obrigada a procurar o juiz João Carlos e o promotor Stephan Stamm, pedindo que me dessem uma procuração para internação, e eles prontamente me atenderam. Obrigaram ainda o município a me dar uma ambulância. Através do Conselho Tutelar achei o Instituto Philip Pinel, em Botafogo, na zona sul carioca, e assim foi feito. Quando o Guilherme e a Júnia souberam, ficaram loucos. A Renata ligou pra mim, pedindo que eu mentisse, que eu dissesse ao doutor João Carlos que minha filha estava em internação domiciliar, e disse que a ambulância só seria me dada se fosse para internar minha filha na Ego. Eu disse que só obedecia ao juiz. Um amigo meu ligou para o Guilherme pedindo que ele me cedesse uma ambulância, e ele disse que não, que eu era louca. Isso eu mesmo ouvi. Eu disse ok, vou de qualquer jeito. Foi aí que me arrumaram uma ambulância, contra a vontade, em cima da hora, se demorasse mais um pouco eu perderia a vaga.   

PH: Como tem sido o atendimento no Pinel?
Chegando lá me colocaram o terror, perguntaram-me se eu estava segura do que estava fazendo, diziam que eu não sabia o que era aquele lugar. Quando compreenderam o motivo de eu ter um ofício judicial, me trataram muito bem, me apresentaram o lugar e disseram que eu ficasse tranquila pois cuidariam muito bem da minha filha. Acontece que a Júnia telefona para lá direto, pedindo que eles não cumpram a sentença judicial, e mentindo, dizendo que em Búzios existe o Caps. A Júnia tem uma amiga lá, psicóloga, a quem influencia, já que a mesma é coordenadora do grupo de minha filha. Essa doutora assinou um histórico clínico citando várias observações feitas pela Júnia, inclusive contra mim, dizendo que eu também precisava de internação, que eu atrapalhava a recuperação de minha filha, etc... Ora, se fosse pra continuar ouvindo a Júnia não precisávamos ir para lá. Só sei que com isso quase deram alta para minha filha em um momento em que ela não estava bem. Em uma das vezes, a Júnia ligou direto para o médico e pediu que ele nos falasse que não poderia nos atender mais. Ele disse que isso era antiético da parte dela e que ele não poderia fazer isso. 

PH: E o carro que eles deveriam disponibilizar para o tratamento, isso tem sido feito?
Há uns dois, três meses, eles criam empecilhos. Sabem que minha filha toma medicação, e marcam para três, quatro horas da madrugada, é impossível acordar. Antes eram as seis, sete horas da manhã, e dava tempo de mandar meu neto, hoje com 12 anos, pra escola. Com isso ele, que é o primeiro colocado entre os leitores da Biblioteca Municipal (segundo o próprio Boletim Oficial), possui 66 faltas na escola. Tenho motivos para crer que essa mudança de horário é para favorecer a amigos e aliados políticos do atual governo. A coisa piorou depois que eles souberam que eu trabalho na campanha do Dr. André Granado para prefeito de Búzios. Aliás, na época eles me viram torcendo por Toninho, e pode ser também que isso os tenha influenciado.

Colaborador: Bruno Almeida

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