Ameaçado de morte por cumprir seu dever de jornalista

JORNALISMO DE RISCO
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O ex-coronel Adriano Telhada, eleito vereador de São Paulo com o slogan 'bandido bom é bandido morto' (Reprodução/Internet
Ameaçado de morte por cumprir bem seu dever de jornalista
Após revelar que o ex-coronel Adriano Lopes Lucinda Telhada usava sua conta de Facebook para fazer apologia à violência, o repórter André Caramante e sua família passaram a viver em situação de exceção
Uma denúncia publicada na edição de 14 de julho do jornal Folha de São Paulo contra um ex-coronel da polícia militar obrigou o jornalista responsável pelo artigo a fugir do país devido a ameaças de morte recebidas contra ele e sua família.


André Caramante, um do repórteres mais respeitados do país na área de segurança pública, denunciou em seu artigo as declarações brutais e de apologia da violência publicadas na conta de Facebook do ex-comandante da polícia militar de São Paulo (a chamada Rota), Adriano Lopes Lucinda Telhada, consagrado vereador do estado pelo PSDB nas eleições do último domingo. No artigo, Caramante afirma que Telhada veiculava em sua página no Facebook “relatos de supostos confrontos com civis”, que descrevia como “vagabundos”.
Desde a publicação da matéria, Caramante passou a ser também alvo das ameaças do antigo policial e de seus seguidores e capangas. Telhada recorreu novamente à sua página no Facebook, desta vez para pedir a seus seguidores que enviassem mensagens de ódio ao jornal e ao repórter, a quem se referia como “notório defensor de bandidos”. A partir de então, o site da Folha passou a receber uma enxurrada de comentários raivosos contra o jornalista, alguns dos quais defendia abertamente a sua execução. No início de setembro, as ameaças de morte começaram a ser direcionadas contra a família do repórter, colocando em risco a integridade física de sua mulher e filhos.
Desde 12 de setembro, Caramante se esconde em outro país com sua família para não morrer. Enquanto isso, o Coronel Telhada, que comandou a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) até novembro de 2011, festeja a sua vitória nas eleições, ao tornar-se o quinto vereador mais votado de São Paulo, com 89.053 votos.
Não é a primeira vez
Caramante, que há 13 anos denuncia abusos cometidos por grupos de extermínio dentro da polícia de São Paulo, e que ja teve seu trabalho de apuração rigorosa reconhecido duas vezes pelo Prêmio Folha de Jornalismo, hoje vive situação semelhante à vivida pelo jornalista Caco Barcellos após a publicação de seu livro Rota 66 – a história da polícia que mata (Record).
O livro de Barcellos revelou como a Rota atuava como um aparelho estatal de extermínio, responsável pela execução de milhares de pessoas. A reação às denúncias obrigou o repórter a passar um período fora do Brasil, devido a ameaças de morte. A notícia de que Caramante vive situação semelhante, escondido com sua familia em país mantido em sigilo, vazou na semana passada em matéria da Revista Imprensa.

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