Como os festivais alteram a vida cultural e a própria vocação econômica de vários municípios brasileiros


Eventos que transformam

DANÇA À BEIRA-MAR Os bailarinos Giovana Siquieroli e Daniel Robert apresentam o balé Carnaval de Veneza no Festival de Dança de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, em setembro. A cidade da Região dos Lagos tenta atrair turistas com mais do que apenas praias bo (Foto: Reginaldo Azevedo)

Até 2003, a cidade de Paraty era conhecida por seu casario colonial, suas cachaças artesanais e a paisagem tropical do litoral sul do Rio de Janeiro. Era pouco conhecida fora do Brasil. Quase dez anos depois, virou sinônimo de literatura e recebe anualmente algumas das mentes mais criativas do mundo atual. O motivo da mudança foi a Festa Literária Internacional de Paraty, aFlip, um festival literário que leva o nome da cidade ao mundo todo. A Flip virou referência de sucesso dos eventos culturais. Mas não foi pioneira.
Em 1968, a cidade paranaense de Londrina entrou no mapa cultural do país com o festival internacional de teatro Filo. Em 1973, a cidade serrana de Gramado, na Serra Gaúcha, sediou a primeira edição do festival de cinema que, até hoje, é o mais importante do Brasil. A Flip definiu, porém, um novo patamar de evento cultural e tornou-se o mais relevante deles. Ela trouxe três conquistas básicas, que até hoje enchem os olhos de prefeituras e agitadores culturais: elevou a qualidade do turismo, trouxe ganhos materiais e imateriais e colocou a cidade em lugar de destaque no calendário cultural. O resultado? O jeito da Flip de fazer evento cultural se tornou inspiração para novos e antigos festivais de música, cinema, teatro, dança, gastronomia e, principalmente, de literatura (leia o quadro abaixo). Hoje são centenas as cidades brasileiras que buscam a transformação por meio da cultura. Elas disputam quem faz o melhor festival na área que escolheram – e isso se tornou uma característica marcante da cultura do país. O Brasil, sem exagero, se tornou o país dos festivais.
A principal inovação da Flip em relação aos demais foi estreitar a proximidade dos palestrantes com o público. Isolados nas ruas de pedra do Centro Histórico, fãs e celebridades caminham juntos, bebem juntos, vão às mesmas festas. Depois da Flip, todos os festivais tiveram de copiar essas características para tentar os mesmos resultados. O Fórum das Letras, de Ouro Preto, criado em 2005, é praticamente uma cópia da Flip em território mineiro, com palestras e festas pela cidade. No Garanhuns Jazz Festival, em Pernambuco, além de shows de jazz, os artistas têm contato com o público em palestras e oficinas de música. O Festival Internacional de Dança de Cabo Frio junta a cultura erudita do balé num cenário descontraído de praia.
25 polos  de cultura (Foto: Fotos: Odair Leal/A Crítica/Folhapress, Beto Figueiroa/O Santo/Secult PE, Monique  Renne/CB/D.A Press, Edison Vara/Pressphoto e Zanone Fraissat/Folhapress)
Um festival cultural não faria sentido se ele não deixasse um legado para a cidade. A Associação Casa Azul, organizadora da Flip, foi parceira na criação de 30 novas bibliotecas na cidade, implantou programas de incentivo à leitura nas escolas e ajudou a minimizar o impacto dos 30 mil visitantes que a cidade recebe na semana da festa com a reforma da Praça da Matriz, um dos principais espaços de convivência do local. Isso ocorre também em Joinville, em Santa Catarina, sede do maior festival de dança do país há 30 anos. A identificação foi tão grande que o balé Bolshoi abriu uma escola na cidade, a única fora da Rússia. “O que funcionou na Flip foi pensar em integrar arte, educação e valorização dos espaços públicos”, afirma o arquiteto Mauro Munhoz, diretor da associação Casa Azul e um dos idealizadores da festa ao lado da editora inglesa Liz Calder.
Outro efeito imediato são o aumento e a qualificação do turismo. O nome do Festival Literário da Pipa, a Flipipa, revela a inspiração na festa de Paraty. Pipa se localiza em Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte. Lá, uma fundação particular buscou patrocínio federal para realizar a primeira edição de seu festival literário em 2009. Como a praia que dá nome ao festival é uma das mais famosas do Estado, e o número de turistas nunca tinha sido problema, o objetivo dos organizadores era mudar de público. “A Pipa reclamava um turismo de conteúdo”, afirma Dácio Galvão, curador da Flipipa. A primeira edição teve 8 mil pessoas. Na última, em novembro do ano passado, o número de turistas trocando o sol pelas palestras subiu para 20 mil.
LIVROS VIVOS A Praça da Matriz lotada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2012.  A cultura salvou a cidade fluminense  da degradação    (Foto: Márcia Foletto/Ag. O Globo)
A colonial Ouro Preto se acostumou com turistas culturais há pelo menos 100 anos. A cidade recebe 600 mil visitantes por ano e tem um calendário cheio de eventos. Realiza com sucesso, desde 1967, seu Festival de Inverno, hoje conhecido como Fórum das Artes. Sedia ainda um festival de jazz e outro de cinema. A cidade está mudando o jeito de fazer eventos culturais. A programação é fechada com antecedência, a equipe que trabalha no evento recebe treinamento, e o público é convidado a participar mesmo antes de o festival começar, com seminários de preparação. O maior estímulo por renovação se dá pela concorrência com outras cidades coloniais mineiras, como Tiradentes, sede de um dos maiores festivais internacionais de gastronomia. “Toda cidade tem potencial de vida cultural, que muitas vezes fica adormecido”, afirma Ângelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto. “Toda cidade que investir em cultura terá, primeiro, melhora na qualidade de vida do povo e, depois, retorno econômico com turismo. É um ótimo negócio.” Em Ouro Preto, nasceu, em 2005, o Fórum das Letras, quase uma cópia da Flip em território mineiro. A convivência próxima dos artistas e visitantes convidados com o público virou regra também nos demais festivais da cidade.
Quando organiza um festival, uma cidade busca também se tornar uma referência na área. É o que ocorre com São José do Rio Preto, em São Paulo. A cidade abriga teatro de vanguarda, musicais e peças clássicas. Em Campina Grande, na Paraíba, a ênfase é na música clássica. Seu diretor, Vladimir Silva, foi maestro em orquestras fora do país e atrai convidados internacionais consagrados. Ele já trouxe a pianista Eudóxia de Barros e o Quaternaglia Guitar Quartet, além de uma encenação da ópera contemporânea Domitila, de João Guilherme Ripper. Conhecida por ter a maior festa de São João do país, Campina Grande começa a se tornar referência em música erudita também. “Toda cidade deveria investir em cultura”, afirma Marcelo Lopes, diretor do maior festival de música erudita do Brasil, em Campos do Jordão, São Paulo. “O turista se identifica com a cidade, e o habitante se orgulha dela.”

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