Cresce o número de empresas que abandonam a Argentina

Praticamente todas as marcas de luxo abandonaram o país nos últimos tempos, mas a tendência não se restringe ao mundo da modaMarina Guimarães, correspondenteBUENOS AIRES - A grife Kenzo somou-se à lista de empresas de luxo que estão fechando suas portas na Argentina. Em nota, a Kenzo argumentou que sua decisão foi motivada "estritamente pela desaceleração econômica do país". Praticamente todas as marcas de luxo abandonaram a Argentina nos últimos tempos, mas a tendência não se restringe ao mundo fashion. Os setores de alimentos, papel, químicos e biodiesel sofrem baixas. E, os motivos tampouco se limitam ao menor crescimento do país. Pesam na decisão as medidas governamentais de maior controle sobre a economia.


Nesta semana, os donos da produtora de biodiesel Tres Arroyos anunciaram o fechamento da unidade, em consequência do aumento das alíquotas de exportação do produto, que passam a ser móveis, e da redução da margem de lucro no mercado doméstico, limitada em 4%. Há duas semanas, o vice-ministro de Economia, Axel Kicillof, havia dito que a alíquota de exportação de biodiesel será de 19%. O valor será revisado periodicamente.
"É a primeira vez que somos obrigados a tomar uma decisão amarga como essa, mas não podemos enfrentar os custos da produção", disse o presidente da Tres Arroyos, Ronny Kuhlmann, ao anunciar o fechamento. Fontes do setor alertaram que as pequenas empresas não poderão sobreviver com as novas condições. O economista-chefe da consultoria Management & Fit, Matias Carugati, afirmou que o segmento de biodiesel é o mais recente, mas os problemas de competitividade são comuns à economia nacional, assim como as dificuldades para importar insumos usados em praticamente toda a indústria.
A indústria de papel Witcel, controlada pelo grupo holandês Arjowiggins e produtora de papel especial de alta qualidade, anunciou que deixa o país por uma questão de ajuste interno, para concentrar sua produção no Brasil. Localizado em Zárate, na província de Buenos Aires, a maior e mais importante do país, a unidade possui cerca de 120 empregados diretos e indiretos. No mesmo município, em abril, a produtora de carboximetilcelulose sódica Latinoquímica Amtex encerrou suas atividades. Antes, em novembro de 2011, foi a vez da fabricante de adoçantes Merisant.
Simulação
"Por enquanto, há uma simulação de êxodo. Mas, se continuar assim, essa tendência pode ser generalizada", alertou o economista José Luis Espert, da consultoria homônima. Ele disse à Agência Estado que em suas viagens ao interior, onde é solicitado a fazer palestras sobre a situação macroeconômica, observa uma crise severa das indústrias de citros, especialmente nas províncias de Entre Rios e Corrientes.
Segundo ele, também há dificuldades no segmento de conservas de azeitonas, azeite de oliva e vinhos na região de Cuyo, que compreende as províncias de Mendoza, La Rioja, San Juan e San Luis. Espert observou que no setor de vinhos a produção também começa a mudar de cor e de país. "Os vinhos mais caros e sofisticados estão dando lugar à produção do vinho mais barato, vendido a granel. E cada vez mais, as empresas se mudam para o Chile", afirmou.
Espert disse que há uma conjunção de fatores que prejudicam as empresas. "No âmbito externo, há a menor demanda do Brasil, da China, da Índia e da Rússia e a recessão na Europa. Na esfera interna, estão o alto custo do dólar, a alta dos salários e do preço de energia e o impostaço", disse ele em referência à elevada carga tributária. Os analistas e empresários coincidem em apontar que as dificuldades domésticas são as que mais espantam os capitais na Argentina.
"Impossibilidade de distribuir dividendos; mudanças constantes e incertezas nas regulamentações; restrições a importações; impostos para exportação; limites aos lucros; flutuações do mercado interno e risco de estatizações e até de confiscos, como ocorreu com a YPF... Tudo isso é um coquetel que engaveta qualquer intenção de investimento", desabafou um executivo do setor de logística.
O analista Carugati acrescentou: "Há um certo pessimismo sobre como será a evolução da economia nos próximos meses. O mundo anda mal, o Brasil desacelerou, a seca provocou perdas na soja. Mas as restrições ao dólar e às importações acentuaram os problemas que vieram de fora."
Preços
O chefe de pesquisas da consultoria Ferreres e Associados, Fausto Spotorno, concorda com o colega Espert de que ainda não há um êxodo de empresas. Porém, ele diz que "a situação é complicada para as empresas, porque a atividade econômica está com o pé no freio e a inflação é alta demais". As complicações são maiores para quem depende de importações, mas "todos os setores estão sendo afetados e investimento está baixando". Segundo ele, o investimento caiu 4,9% em agosto, para US$ 8,8 bilhões.
"Não há entrada de novas empresas e começa a haver interesse em sair", afirmou Spotorno. Para ele, o problema é que não há compradores e há uma queda nos valores de mercado das empresas. "O momento é ruim para vender. Ninguém quer liquidar sua empresa por um preço ridículo e os que podem, esperam uma melhora do clima de negócios", acrescentou.
Quem não pode esperar faz como a Louis Vuitton, que há quase duas semanas comunicou sua saída de Buenos Aires e nova instalação em Punta del Este, no Uruguai. A medida foi consequência da falta de mercadorias provocada pelas barreiras que impedem as importações. Cartier, Pólo Ralph Lauren, Yves Saint Laurent, Escada e Empório Armani são algumas das grifes de luxo que abandonaram a "Paris latino-americana", como é chamada a capital argentina.
Outras, como Calvin Klein, Chanel e Ermenegildo Zegna, chegaram a suspender suas operações temporariamente e reduziram substancialmente seus negócios. Marcas locais também são afetadas pelas políticas oficiais, como a Tissage, de roupas femininas, que usava tecidos importados e fechou suas portas.

Comentários