Após Macarrão incriminar Bruno, júri ouve a ex do goleiro

Fernanda Castro, também ré no processo, depõe nesta quinta-feira. Sessão anterior foi marcada por reviravolta: Macarrão disse que Bruno ordenou o crime
Macarrão revelou detalhes do desaparecimento de Eliza Samudio  no julgamento
Macarrão revelou detalhes do desaparecimento de Eliza Samudio  no julgamento - Divulgação/Vagner Antônio/TJMG
O julgamento do goleiro Bruno Fernandes será retomado às 13h30 desta quinta-feira, com o depoimento da ex-namorada do atleta, Fernanda Castro, também ré no processo sobre o desaparecimento e morte de Eliza Samudio. Após as declarações de Fernanda, começam os debates entre acusação de defesa. Na sequência, os jurados se reúnem para deliberar - e decidir o destino dos réus. Se tudo ocorrer sem imprevistos, é possível que o veredicto sobre Luiz Henrique Romão, o Macarrão, e Fernanda seja conhecido ainda nesta quinta. A sessão desta quarta foi marcada por uma reviravolta: amigo inseparável de Bruno, Macarrão acusou o goleiro de ser o mandante da morte de Eliza. O depoimento de Macarrão terminou somente por volta das 4 horas de hoje.

Depois de quase três horas relatando detalhes desde quando o jogador conheceu Eliza, passando pelo encontro com a jovem no Rio de Janeiro e a viagem para Minas Gerais, em junho de 2010, ele admitiu que, no dia do crime, o “patrão” o mandou entregar Eliza a um homem, em um local indicado perto da Toca da Raposa, na Pampulha, em Belo Horizonte. Foi a ordem para ela ser executada: “Eu estava pressentindo que eu ia levar ela para morrer”, disse Macarrão.
Pouco antes de iniciar a parte mais dura do relato, Macarrão pediu perdão a Sônia de Fátima Moura, mãe da vítima. Dizendo não saber se ela estava no plenário, afirmou: “Quero que saiba que, se eu soubesse que Eliza iria morrer, falaria tudo”, disse. A expectativa de que Macarrão confessaria o crime – o “plano B” citado em uma carta revelada por VEJA em julho deste ano – se confirmou. Mas não exatamente como queria o goleiro. Esperava-se, no caso de uma confissão, que Macarrão livrasse o amigo e patrão. Mas o relato do réu tentou deixar Bruno como o dono das decisões sobre o destino de Eliza. E ele, Macarrão, apenas como o motorista que transportou Eliza até seu algoz.
Ao falar a jornalistas na saída do fórum, o promotor do caso, Henry Wagner, afirmou que, embora tenha culpado apenas Bruno por planejar a morte de Eliza - e colocado a si mesmo no papel de um mero motorista - Macarrão foi, na verdade, o co-autor do crime. E é essa a tese que a acusação seguirá defendendo aos jurados. Macarrão começou a revelar os fatos do dia 10 de junho, dia em que Eliza foi morta, contando que percebeu “um clima estranho” quando Bruno atendeu uma pessoa ao telefone. Bruno pedia para ele (Macarrão) levar Eliza para um ponto em frente à Toca da Raposa (Centro de Treinamento do Cruzeiro), na Pampulha. Ele deveria deixá-la com uma pessoa que a estaria esperando. “Eu falei: 'Bruno, estou te falando como irmão, deixa essa ‘mina’ em paz. Cleiton (Gonçalves, morotista) já esteve preso, Jorjão (Jorge Luiz Lisboa Rosa) também”, contou.
Contradições – O promotor foi o primeiro a dirigir perguntas, após as três horas e meia de depoimento do réu. Ao responder sobre quem teria sido prejudicado ou beneficiado com o sigilo que imperou no caso até hoje, Macarrão respondeu que ele próprio e “os meninos” foram prejudicados. E Bruno, o mandante, foi o beneficiado.

Henry Wagner desmentiu alguns pontos do depoimento do réu, buscando mostrar constradições. Macarrão afirmou, por exemplo, que só conheceu Bola dentro do presídio. No processo, no entanto, há o registro de seis telefonemas dele para o ex-policial no dia da morte de Eliza Samudio. Macarrão fez vários desabafos. "Eu não sou homossexual. Eu tinha uma amizade e respeito muito grande por ele. Ele não ia falar, mas ele ia fazer essa tatuagem também. Eu fui muito humilhado dentro do sistema carcerário", disse, aos prantos. Segundo Macarrão, a versão de que haveria um “amor homossexual” entre ele e Bruno foi inventada pelo advogado Rui Pimenta, destituído por Bruno na manhã de terça-feira.
Futuro - Ainda é cedo – e incerto – afirmar que a confissão de Macarrão livra o goleiro da cadeia. Bruno, que será julgado com outros dois acusados em 4 de março, responde por sequestro e cárcere privado (pena de 1 a 3 anos), homicídio qualificado (12 a 30 anos) e ocultação de cadáver (1 a 3 anos). Tem ainda o agravante de ser apontado como mandante dos crimes, o que pode estender a pena a mais de 30 anos.
Mas há muito a ser esclarecido sobre o relato desta madrugada. Macarrão, pelo processo, é o personagem mais presente em todos os momentos do calvário de Eliza Samudio. Foi ele quem teria comandado, segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público, o sequestro de Eliza, em junho de 2010 – mas na versão apresentada ele teria encontrado casualmente com a jovem em um restaurante.

O “irmão”, “melhor amigo”, “amor eterno” de Bruno passou a ser, na madrugada desta quinta-feira, o pior inimigo dos principais réus. O depoimento de Macarrão durou cerca de cinco horas e estendeu o terceiro dia de julgamento até as 4h17 de quinta-feira.
Com reportagen de Leslie Leitão, Marcelo Sperandio e Pâmela Oliveira 

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