Apesar dos protestos, demolição do Museu do Índio é ‘questão de tempo’ segundo empresário


A demolição do Museu do Índio seria apenas uma questão de tempo, segundo empresários que participam do projeto de recuperação do Estádio Mário Filho, o Maracanã, apesar dos protestos que têm ocorrido com intensidades cada vez maiores pelas ruas do Rio de Janeiro, ao longo dos últimos dias. No início deste mês, cerca de 500 pessoas participaram de um ato contra o projeto do governo do Estado, que prevê a concessão do Maracanã à iniciativa privada, em uma operação praticamente definida em favor da proposta apresentada por representantes do grupo empresarial fluminense de Eike Batista.


Representantes da sociedade civil se mobilizam na tentativa de impor sanções judiciais contra a medida mas, segundo apurou o Correio do Brasil neste domingo, junto a fonte ligada ao grupo empresarial de Batista e ao governo do jornalista Sérgio Cabral Filho, uma vez definido o concessionário, “o Museu vai abaixo”, afirmou um dos negociadores ligados ao grupo EBX, que prefere manter o anonimato.
O edital de licitação para a escolha do administrador que permanecerá por 35 anos à frente do estádio mais famoso do país ficou para o ano que vem, mas as bases apresentadas por setores do governo estadual já afastaram os clubes da disputa e caberá ao novo concessionário apresentar solidez financeira para cobrir a quantia de R$ 7 milhões anuais, durante o período em que estiver à frente da administração da arena esportiva.
– As obrigações financeiras do contrato impõem o uso de toda a área reservada no edital e o estacionamento é uma fonte importante para a cobertura das despesas – disse o representante dos novos operadores que, nas medidas determinadas pela proposta, estão entre os poucos grupos empresariais brasileiros com capacidade econômica para a participação no certame e, até agora, o único a se mostrar interessado no projeto que, além da reforma do Maracanãzinho, inclui a construção do Museu do Futebol, de dois estacionamentos e de áreas de lazer com bares e restaurantes. As obras estão avaliadas em cerca de R$ 450 milhões.
Força popular
Ao adiar a apresentação do edital para o ano que vem, segundo a fonte, o governo estadual ganha mais tempo para detalhar o projeto e medir a força popular que tem o movimento pela preservação do Museu do Índio.
Manifestantes foram às ruas protestar contra a demolição do Museu do Índio
Manifestantes foram às ruas protestar contra a demolição do Museu do Índio
– Se o barulho (dos manifestantes) fosse demasiado alto, seria necessário promover alterações no projeto e verificar novamente a exequibilidade financeira da empresa como um todo. Dificilmente se conseguirá um novo ponto de equilíbrio, mas tudo depende do momento em que o edital for apresentado e em que condições. O fato é que estaremos dentro dos prazos máximos para as decisões com vistas à Copa do Mundo e este é um ponto determinante para quaisquer decisões – afirmou.
Mas ainda haveria espaço para a resistência. Na página do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) um artigo relativo aos estudos produzidos no Projeto Os Povos Originários de Nuestra América – A recuperação culturas das civilizações antigas e a luta do presente, coordenado pela professora e jornalista Elaine Tavares, propõe uma reflexão:
“Que fazer diante disso? Da impotência frente à fria lógica do capital? Talvez seja hora de evocar Aimbiré, a alma sagrada da Confederação tamoia, o desejo secular de liberdade das gentes indígenas para viver sua cultura, seus deuses, seu modo de vida. E, com essa força, iniciar uma rebelião que acerte o ponto mais sensível dessa gente que quer derrubar a aldeia Maracanã: o bolso”.
“As formas? Haveremos de encontrar”, garante o artigo.
Na esfera judicial, porém, os habitantes da Aldeia Maracanã, que tentam subsistir no local ameaçado por um projeto milionário, piorou substancialmente nos últimos dias. Na semana passada, foram derrubadas duas liminares que os favoreciam. Uma delas exigia a permanência dos povos indígenas dentro do prédio do antigo Museu do Índio, e a outra impedia a demolição do edifício. Ambas as liminares foram concedidas a pedido da Defensoria Pública da União, e sua derrubada deixa o caminho livre para que os índios sejam desalojados e o prédio demolido.
– O governador diz que não tem nada contra os índios, mas não nos deu nenhuma solução ou orientação. Nós precisamos do espaço, que é um referencial para os povos indígenas, não só os que estão aqui, mas em nível nacional. Esse espaço para nós é tão importante quanto os royaltiesdo petróleo são importantes para ele – afirma o cacique Tukano, da tribo Maracanã.
O cacique acredita que “em vez de se falar em demolir, deveriam valorizar o Museu do Índio para a Copa”.
– Não é apenas um prédio, o fato é que ele carrega a memória dos povos indígenas. Lá foi criada em 1910 pelo Marechal Rondon a primeira instituição do governo federal para tratar dos interesses dos povos indígenas. Foi lá também que em 1953 o Darcy Ribeiro fundou o primeiro museu da América do Sul sobre os povos indígenas. É um local histórico – disse, a jornalistas.
O governador do Estado, em exercício até as eleições de 2014, no entanto, discorda:
– O prédio fica em uma área de mobilidade do projeto de preparação do Maracanã para a Copa e será demolido. A Fifa exige um alto grau de mobilidade para a circulação de pessoas no entorno do estádio, além do que este prédio não tem valor histórico – sentencia Cabral, que prepara o desalojamento de 23 índios das etnias Pataxó, Apurinã, Tukano, Guarani e Guajajara.
O terreno mede 1,6 mil metros quadrados e o estado de conservação do imóvel é péssimo, sem telhado em boa parte dele, o que obrigou os moradores a construírem pequenas casas com forro de estuque (mistura de água, gesso e cola). No quintal, os índios plantam legumes e verduras para consumo próprio, mas ainda convivem com problemas estruturais, como a falta d’água e de energia elétrica.
Para tentar sobreviver dentro das condições mínimas de habitabilidade, os indígenas da Aldeia Maracanã mantêm um centro cultural, que realiza aos primeiros sábados de cada mês um festival de gastronomia, música, rituais e artes indígenas. 

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