Valério afirmou que dinheiro do mensalão pagou despesas de Lula, diz jornal


O jornal O Estado de São Paulo publicou na terça-feira (11) uma reportagem sobre o depoimento que Marcos Valério deu a procuradores no dia 24 de setembro. Valério tinha acabado de ser condenado a mais de 40 anos de prisão como operador do mensalão. Segundo a reportagem, Valério afirmou que dinheiro do mensalão pagou despesas pessoais de Lula, e que o ex-presidente deu ‘ok’ para os empréstimos ilegais ao PT.
O jornal publicou três páginas com informações do depoimento. Segundo o jornal, após ter sido condenado pelo Supremo como o "operador" do mensalão, Valério procurou voluntariamente a Procuradoria-Geral da República. Queria obter proteção e redução da pena em troca de um novo depoimento e de mais informações de que ainda afirma dispor.

A oitiva ocorreu no dia 24 de setembro em Brasília. Começou às 9h30 e terminou três horas e meia depois; 13 páginas foram preenchidas com as declarações de Valério. Os detalhes foram mantidos em segredo até agora.
O jornal O Estado de São Paulo afirma que teve acesso à íntegra do depoimento, assinado pelo advogado de Valério, o criminalista Marcelo Leonardo, pela subprocuradora da República, Cláudia Sampaio, e pela procuradora da República, Raquel Branquinho.
Valério cita Lula
No depoimento, segundo o jornal, Marcos Valério teria dito que esteve com José Dirceu no Palácio do Planalto. Segundo Valério, ao final da reunião, eles subiram uma escada que levava ao gabinete de Lula. Lula teria dado "ok" aos empréstimos dos bancos BMG e Rural para o PT.
O advogado de José Dirceu, José Luis de Oliveira Lima, disse que seu cliente jamais se reuniu com Lula e Marcos Valério no Palácio do Planalto.
Valério revelou no depoimento, ainda segundo O Estado de São Paulo, que teria feito dois repasses para Lula pagar as despesas pessoais. Mas só especificou um deles, de R$ 100 mil, por meio da empresa Caso, do então assessor de Lula, Freud Godoy.
A CPI dos Correios, conhecida como CPI do mensalão, comprovou recebimento de depósito de Marcos Valério para a empresa Caso no valor de R$ 98,5 mil, segundo a reportagem do jornal.
Em entrevista ao repórter Alan Severiano, por telefone, Godoy negou as acusações. “Eu não sei que dinheiro. Não tem nenhum dinheiro, nem na minha conta, nem na conta do presidente. Entendeu? Então colocaram uma coisa que não existe. Não existe esse dinheiro depositado na minha conta, você está entendendo? Não existe isso.”
Portugal Telecom e o PT
A reportagem do jornal afirma ainda que, no depoimento, Marcos Valério teria dito que o presidente Lula e o ex-ministro Antônio Palocci teriam negociado para que a Portugal Telecom repassasse R$ 7 milhões ao PT. Empresas fornecedoras da companhia teriam pago este valor por meio de publicitários que prestavam serviço ao PT.
Segundo a reportagem do jornal, as negociações com a Portugal Telecom se desenrolaram durante a viagem a Portugal feita em 2005 por Valério, o ex-advogado dele, Rogério Tolentino, e o ex-secretário do PTB, Emerson Palmieri.
O advogado de Antônio Palocci, José Roberto Batochio, negou que os fatos tenham ocorrido.
O caso Celso Daniel
Segundo a reportagem, Marcos Valério contou no depoimento que teve uma conversa com o ex-secretário do PT, Silvio Pereira, e que soube, então, que o empresário Ronan Maria Pinto vinha chantageando Lula, Dirceu e Gilberto Carvalho. Outro empresário amigo de Lula, José Carlos Bumlai, teria pago R$ 6 milhões para comprar 50% do diário do Grande ABC, que vinha publicando reportagens sobre o assassinato do prefeito de Santo André, o petista Celso Daniel.
Em nota, o empresário Ronan Maria Pinto disse que jamais se encontrou com Marcos Valério e que não conhece José Bumlai.

Valério se diz ameaçado
Segundo o jornal, Marcos Valério disse aos procuradores que o PT bancou as despesas de R$ 4 milhões com a defesa dele. O presidente do PT, Rui Falcão, negou que o partido tenha pago a defesa de Marcos Valério.
O advogado Marcelo Leonardo não quis confirmar se seus honorários foram pagos pelo PT: "Eu não tenho nenhuma declaração a fazer sobre esse assunto."
Mas Marcos Valério disse também à Procuradoria-Geral da República ter sido ameaçado de morte por Paulo Okamotto, atual diretor do Instituto Lula e amigo do ex-presidente. Em um encontro em um hotel em Brasília, Okamotto teria dito: "tem gente no PT que acha que a gente devia matar você". E teria completado a ameaça: “Ou você se comporta, ou morre.”
Em Paris, Paulo Okamotto disse que nem ele nem Lula ameaçaram Marcos Valério, e desqualificou o depoimento: "Se você estivesse condenado a 40 anos de cadeia, você também falaria qualquer coisa para evitar uma pena tão longa".
Em Paris, onde participa de um fórum sobre progresso social, o ex-presidente Lula fez uma rápida declaração sobre a o depoimento de Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República.
“Não posso acreditar em mentiras. Eu não posso responder mentiras”, disse Lula.
O advogado de Sílvio Pereira negou que o cliente dele tenha pedido R$ 6 milhões a Valério para o pagamento de chantagem, ou que ele tenha marcado reuniões com o empresário Ronan Maria Pinto. A assessoria do BMG declarou que o banco não vai se pronunciar sobre as denúncias. A assessoria de José Carlos Bumlai disse que ele não foi encontrado para comentar.

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