Em Búzios, corpo de escultor é encontrado em decomposição

Por Bruno Almeida  

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O corpo de Carlos Augusto Mascarenhas Carneiro, carioca, de 32 anos, foi encontrado por policiais militares no dia 15 de dezembro, no terreno que pertence ao Estacionamento Eco Parking, na Avenida José Bento Ribeiro Dantas, bem em frente a nova agência do Banco do Brasil. Vizinhos contam que Carlos era visto vendendo tickets para o estacionamento, que ele vivia ali em meio ao mato há mais de um ano e que o lugar era bastante movimentado por usuários de drogas. A Polícia Civil aguarda o laudo do Instituto Médico Legal, em Cabo Frio, para saber a causa da morte.

- Pelo estado degenerativo, não podemos arriscar a quantidade de tempo em que o corpo estava ali; os exames podem demorar. Aparentemente pode ter havido uma carbonização, mas as folhas das árvores que estavam em volta do corpo não estavam queimadas. Constatamos, sim, sinais de fogueira, próximo ao local onde ele foi encontrado – contou o titular da 127ª DP em Búzios, delegado Mario Lamblet, na manhã de quarta-feira (9). 
A Polícia Civil não descarta nenhuma possibilidade, nem mesmo a de Carlos ter sofrido uma morte natural. Mas uma das linhas de investigação aponta para o tráfico de drogas que se opera na cidade. 
- Sabemos que em um dos grupos que Carlos frequentava, sumiu um quilo de maconha de um traficante. O irmão desse traficante estava acusando Carlos pelo ‘derrame’, como eles chamam na gíria do tráfico, então estamos trabalhando também com a hipótese de ter havido um assassinato por dívida de drogas – revela Lamblet.

Formação nos EUA, e Crer-Vip

A princípio tentou-se fazer a identificação do corpo pela arcada dentária, mas foi em vão. Um currículo que Carlos havia deixado com um amigo teria sido decisivo para que a Polícia chegasse a sua família, no Rio de Janeiro. Carlos era descrito como uma pessoa com dificuldades no convívio social. Morou com a mãe nos Estados Unidos, fez o ensino médio na instituição Pace High, na Flórida, e foi deportado ao Brasil justamente por problemas com drogas, em 2004, indo morar na casa dos tios, no Rio. Vindo pra Região dos Lagos, namorou uma moça em Cabo Frio, e em Búzios chegou a morar numa quitinete em Tucuns, quando foi preso por tráfico na Praça Santos Dumont e levado a cumprir pena em Araruama. A temporada na cadeia e posteriormente na rua, fez com que emagrecesse e envelhecesse muito rápido, como pode ser comparado entre fotos. 
Em sua página no Facebook, que 
não acessava havia seis meses, Carlos tinha 185 amigos. Um deles é o pastor Sérgio Naves, diretor do Centro de Recuperação e Reeducação das Vítimas do Álcool e das Drogas – Crer-Vip, onde Carlos ficou internado durante nove meses em 2010, cumprindo todo o tratamento.
- Ele saiu pela porta da frente. Enquanto estava conosco, nos ajudava na informática, na eletricidade, fez um curso de guia turístico no Colégio Estadual João de Oliveira Botas, e quando saiu foi trabalhar em uma pousada. Ele tinha um perfil bastante introspectivo e de revolta com a sociedade, não conseguia se adaptar a disciplina, a horários, às vezes falava sozinho, e eu vejo que ele precisava de um tratamento psicológico mais contínuo. Ele era filho de pais separados, a avó é quem dava tudo. A avó estava sempre pronta para recebê-lo, mas ele se fechava, ele já havia criado uma barreira social, queria se virar por conta própria. 
Um dos processos mais difíceis da recuperação é a reintegração. Nesse ponto, não basta a pessoa querer, ela tem que contar com a sociedade e a comunidade. Então, a sociedade cria essa pessoa, e depois a condena. No Crer-Vip ele tinha nosso abraço, mas na Praça Santos Dumont, quem iria abraça-lo? Ele tinha muito conhecimento apenas da ‘letra’ do Evangelho. Eu acredito que se ele tivesse encontrado Jesus, ele teria conseguido força - relata o pastor Sérgio. 

Esculturas na Areia

Uma senhora, dona de um restaurante que fornecia quentinhas para Carlos no período em que ele vivia no terreno, contou à reportagem do PH que ele sempre comprava fiado e voltava para pagar, e que embora ele fosse ‘caladão’, parecia ser boa pessoa. Uma funcionária da clínica do doutor André Granado contou que, por vezes, ele armava uma barraca de camping no espaço em frente a clínica, para passar a noite. Mas era na Praia do Canto que Carlos parecia se divertir. Foi ali que ele descobriu-se escultor de areia, e foi construir castelos na Praia da Armação para descolar uns trocados. Em fevereiro do ano passado, postou em seu ‘face’ as fotos de um carro feito por ele, e na publicação escreveu em inglês uma frase, que agora traduzida ficou mais ou menos assim: ‘Eu tenho feito tudo o que posso para sobreviver recentemente, e fazendo isso eu descobri que eu tenho a habilidade para esculpir ... Agora eu só preciso encontrar um lugar para esculpir ... e uma nova casa ...’. 

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