FORMAÇÃO DE PROFESSORES: O salário e o sal da educação


Por Gabriel Perissé 

Para ler as notícias em torno da educação brasileira, não podemos esquecer a tensão entre a educação de qualidade, que desejamos, e a situação real, que se revela problemática, muitas vezes inaceitável.
Vejamos o tópico da formação docente. A maior parte dos professores que concluíram algum curso superior e atuam no ensino básico estudaram em faculdades particulares. E são as particulares que têm desempenho inferior em comparação com as instituições públicas. A USP sequer dá bola para o Enade, considerando-se por conta própria hours concurs.


Um tanto escandalizada, a mídia divulgou recentemente o que, sob a ótica do MEC, é realidade conhecida e em processo de melhoria (o ritmo lento, como em outros casos: Ideb, alfabetização, etc.). Muitos cursos não poderão receber novas matrículas. Seus vestibulares estão cancelados, até que apresentem melhores resultados. A pressão do Ministério, que vem aumentando na última década, é forte “incentivo” para as instituições tomarem medidas de aperfeiçoamento.
As fragilidades dos cursos de pedagogia e de licenciatura são evidentes. E há uma relação direta com a questão salarial. São cursos com pouco prestígio que acolhem mais do que atraem. Acolhem quem ambiciona as remunerações afetivas do magistério, ou quem, de modesta procedência social, encontrará no magistério a ascensão social que outras pessoas consideram modesta demais...
São exatamente estes cursos, porém, que deveriam ser os mais exigentes e eficientes, na hipótese de que o recém-formado estivesse para receber salário compatível com sua relevância social.
O desejado e o resultado
Queremos que a educação receba o tempero da criatividade, que nossos professores estudem e pesquisem para melhorar sua prática didática, mas salários baixos não justificam o empenho em quebrar rotinas e experimentar métodos inovadores.
Queremos professores capazes de incentivar os alunos a ler, pensar, calcular, escrever, decidir; e esperamos que, dentre estes, o Brasil possa contar com futuros professores cheios de entusiasmo. Porém, salários baixos desmotivam os que estão lecionando e não atraem novos ingressantes.
Queremos que as escolas superem o conteudismo cansativo, o medo da cibercultura, a avaliação mesquinha, tantos e diferentes ranços. No entanto, salários baixos são um dos sinais de que tudo (ou quase tudo) nas nossas salas de aula tende a ser de curto prazo, insuficiente profundidade e pequeno alcance.
O piso mínimo...
Todo piso é mínimo. Abaixo disso seria o porão. Se continuarmos a olhar o piso, dificilmente iremos um dia discutir o teto.
E chega a ser, no mínimo... curioso o detalhismo com que o G1 Educaçãonoticiou que:
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou nesta quinta-feira (10) reajuste de 7,97268% do piso salarial de professores do ensino básico da rede pública brasileira, que abrange educação infantil e nível médio. 
O reajuste quase chegou aos 8%. Foi por pouco! Esse 0,02732% que faltou para chegar a um reajuste tão inferior ao que a categoria docente merece faz pensar como são contados os grãos de sal deste salário.
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[Gabriel Perissé é professor e escritor; www.perisse.com.br]

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