Opinião: Ano de luto para jornalistas no Brasil

Benoît Hervieu

Um total de 11 assassinatos abalou a imprensa brasileira no decorrer de 2012. Embora a relação com a atividade profissional tenha sido excluída em quatro desses casos, em outros dois ainda é incerta e em cinco outros casos já foi confirmada ou é tida como muito provável. Este triste balanço coloca o Brasil entre os países do continente com mais jornalistas mortos, apenas atrás do México (com seis) mas esse ano à frente de Honduras, cujo golpe de Estado de 28 de junho de 2009 suscitara uma autêntica hecatombe, e da Colômbia, onde o conflito armado cinquentenário aguarda uma saída negociada.


Uma vez mais se confirma que, para um jornalista do país-continente, abordar temas sensíveis como o tráfico de drogas e suas ramificações, a corrupção local, os abusos policiais ou os crimes ambientais depressa se torna uma fonte de problemas. Vizinho do Paraguai e sujeito à infiltração dos cartéis, o Mato Grosso do Sul soma dois mortos em 2012: Paulo Rocaro, do diário Jornal da Praça, e Eduardo Carvalho, do site de informação UHNews. Esse ano trágico afetou particularmente a região Centro-Oeste, onde o comentarista esportivo Valério Luiz de Oliveira, da Rádio Jornal, foi vítima de uma execução, a 5 de julho, em Goiânia. Os dois últimos dramas dizem respeito a jornalistas conhecidos por suas atividades de blogueiros: o maranhense Décio Sá e o carioca Mário Randolfo Lopes Marques.
Estará a imprensa de audiência nacional mais protegida? A saída do país de André Caramante, da Folha de S.Paulo, após ameaças atribuídas a um comandante da polícia militar eleito em outubro como vereador da metrópole, não permite afirmar categoricamente. “O balanço é pesado, é verdade. Mas alguns desses jornalistas mortos exerciam simultaneamente atividades políticas que os expunham a ajustes de contas”, confiava um colega a Repórteres sem Fronteiras, durante a missão no Brasil no passado mês de novembro. Por mais exata que seja, essa observação não faz mais que realçar os nexos – tão característicos como perigosos – entre os mundos político e midiático, que ameaçam não só a profissão, como também a liberdade de informar.
Não, o Brasil não se tornou de repente um novo inferno para os jornalistas. A impunidade é menor que em outros países do continente, graças a investigações sérias em um elevado número de casos. Porém, a situação dos jornalistas e da liberdade de informar se assemelha à imagem do próprio país: compósita e desigual. Três desafios a resumem atualmente: a segurança, claro, mas também o desenvolvimento da internet e a promoção de um verdadeiro pluralismo, de acordo com a diversidade que caracteriza a identidade do Brasil. Esses temas estarão no centro do relatório da missão que Repórteres sem Fronteiras publicará no mês de janeiro.

Benoît Hervieu é respresentante do escritório das Américas da organização Repórteres sem Fronteiras

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