Tragédia no Sul: Polícia acusa banda e boate por tragédia e aponta falhas dos bombeiros e da prefeitura

Delegado diz que plano de segurança estava vencido e que músicos usaram fogos mais baratos e inadequados



REYNALDO TUROLLO JR.MARCELO SOARESENVIADOS ESPECIAIS A SANTA MARIAMELINA GUTERRESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM SANTA MARIA
A boate Kiss realizou reformas "por conta e risco", sem passar por vistorias. Tanto prefeitura como Corpo de Bombeiros falharam na fiscalização. A banda Gurizada Fandangueira usou, no show dentro da casa noturna, artefatos pirotécnicos indicados apenas para áreas externas.
Pela primeira vez nas investigações sobre a tragédia em Santa Maria (RS), Polícia Civil e Ministério Público Estadual apontaram indícios de uma falha coletiva.
A entrevista coletiva que anunciou o que está sendo apurado ocorreu ontem, às 17h, um hora depois de o prefeito Cezar Schirmer (PMDB) ter feito um pronunciamento responsabilizando os bombeiros por erros na fiscalização.
O comandante do Corpo de Bombeiros, Guido Pedroso de Melo, negou ter havido falhas, mas se recusou a mostrar o último laudo, afirmando que, por fazer parte do inquérito, se trata de documento sigiloso.
A boate estava irregular e "não deveria estar funcionando", disse o delegado Marcelo Arigony, chefe das investigações. Segundo ele, o plano de segurança contra incêndio, de responsabilidade dos bombeiros, estava vencido desde 10 de agosto, e o sanitário, da prefeitura, desde 31 de março.
A polícia informou que as informações solicitadas ao município e aos bombeiros não haviam sido entregues até a conclusão desta edição.
O Ministério Público instaurou inquérito para apurar possíveis falhas na fiscalização.
De acordo com o delegado, os fogos utilizados pela banda, apontados como a causa do incêndio, eram indicados para áreas externas e foram usados por serem mais baratos.
Essa informação foi prestada à polícia pelos donos da loja onde a banda comprou os artefatos, em Santa Maria.
"O sputnik [espécie de sinalizador] era para ser usado ao ar livre, e os proprietários [da casa noturna] e quem o jogou [integrante da banda], mesmo sabendo disso, o utilizou no ambiente fechado por ser mais barato. Esse era R$ 2,50, e o outro [o adequado], R$ 70."
Os depoimentos, que servem como provas testemunhais, revelam ainda que não havia luzes de emergência e que há "indícios de que os extintores não funcionaram e eram, inclusive, falsificados".
"Por que as pessoas morreram no banheiro? Porque só enxergaram a luz do banheiro e correram para lá pensando que fosse a saída."
Conforme a Folha mostrou ontem, a boate estava superlotada. O plano de segurança aprovado pelos bombeiros (vencido) permitia até 691 pessoas, mas a polícia afirma ter informações de que havia cerca de 1.000 no local.
Testemunhas também disseram que os donos fizeram reformas no prédio "por sua conta e risco", sem passar por vistorias depois. "Vamos evidenciar [se houve] essa questão da falha na fiscalização, nem que tenhamos que cortar na carne do Estado", disse o delegado.
Dois donos da casa noturna e dois integrantes da banda estão presos temporariamente. Ainda anteontem, após a prisão dos quatro, a polícia fez buscas em outra casa noturna e em uma cervejaria de Mauro Hoffmann, sócio da Kiss.
Ontem, três pessoas que haviam ficado de fora da lista oficial foram contabilizados pelo governo, elevando para 234 mortos na tragédia de Santa Maria. À noite, um jovem que estava internado teve morte cerebral.

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