Análise: Escolas do Rio estão inchadas e caminham para insolvência



LUIZ FERNANDO VIANNA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Se a Vila Isabel confirmar hoje seu justo favoritismo, vencerá a tese de que nem todo patrocínio é ruim.
O dinheiro de uma multinacional do agronegócio deu à carnavalesca Rosa Magalhães condições de realizar mais um belo trabalho, agora apoiada em um ótimo samba e em uma comunidade que vive o dia a dia da escola.


Ainda que o enredo tenha sido sobre agricultura, sem alusões à patrocinadora, fica a pergunta: vale uma escola de samba, com tudo o que ela representa historicamente, aceitar dinheiro de uma empresa que produz transgênicos? Mas parece feio perguntar, logo no Carnaval, se ética é princípio ou é meio.
Caso a Mangueira não consiga um bom resultado, puristas dirão que a ousadia foi punida. Mentira.
Dividir a bateria em duas teve algum impacto no público, mas fez a escola parar várias vezes de evoluir e até de cantar --quando a bateria rosa tocava e se trocava de aparelhagem de som, metade dos componentes deixava de ouvir o samba e "atravessava" o canto, algo que a era sambódromo tinha sepultado.
O desfile está chegando ao seu limite.
Quem arruma dinheiro aproveita o amplo espaço dos barracões da Cidade do Samba para construir alegorias enormes -e inviáveis.
Até a sempre impecável Beija-Flor teve que arrancar um pedaço de um carro para que ele entrasse na avenida. A Unidos da Tijuca, também.
A Mangueira se esqueceu de uma torre que está lá desde a década de 80.
PESOS
Os tripés das comissões de frente viraram novas alegorias. As alas passam com lâmpadas LED, neon, pirotecnias. Tudo para ser visto de cima, de avião.
E isso não vale os sambas, as baterias e as alegrias de Portela e Vila.
Por que sambas-enredos, bateria e evolução não passam a ter peso 2?
O número máximo de alegorias por escola poderia cair de oito para seis. E 3.500 componentes por agremiação é um bom limite.
Enquanto milhões de pessoas se divertem de graça nas ruas do Rio de Janeiro, cheias de leveza e lixando-se para efeitos especiais, as escolas estão caminhando inchadas para a insolvência.
Podem mudar o curso dessa história, mas não vão.
Em 2014 estará tudo igual. Ou pior.
LUIZ FERNANDO VIANNA é coordenador de internet do Instituto Moreira Salles e tem quatro livros publicados sobre samba

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