Da dor ao amor: uma nova mentalidade para construir um novo mundo


Ajuda humanitária do Brasil na escola Imaculada Conceição no Haiti em 6 de fevereiro de 2013 (Thony Belizaire/AFP/Getty Images)
Ajuda humanitária do Brasil na escola Imaculada Conceição no Haiti em 6 de fevereiro de 2013 (Thony Belizaire/AFP/Getty Images)
O relatório do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, divulgado em novembro  passado, diz que 1 bilhão de pessoas ainda estarão vivendo em estado de pobreza no mundo em 2015. Ou seja, cerca de um sétimo da população mundial ou uma em cada sete pessoas ainda viverá em condições de pobreza.


Quando pensamos em pobreza extrema, imaginamos as pessoas em países no continente africano, no Haiti, na Índia e em outros, e isso, de certa forma, nos mantêm afastados do problema. Mas, segundo o IBGE, somente no Brasil, mais de 16 milhões de pessoas vivem na pobreza extrema.
Deve ser muito difícil e angustiante passar fome e privações graves todos os dias e não ter recursos ou chances reais para sair dessa situação de desespero. E é quase impossível que essas pessoas saiam dessas condições. Mas, não é somente a pobreza que afeta a vida das pessoas.
Também existem e estão em plena atividade os conflitos étnicos, os genocídios e as guerras em várias partes do mundo: a guerra civil na Síria (que já matou mais de 60 mil pessoas e resultou em mais de 850 mil refugiados); a guerra do Afeganistão (que dura mais de 10 anos e já ocasionou mais de 13 mil mortos); o genocídio dos tibetanos, uigures e praticantes de Falun Gong, executado pelo governo chinês (que, continua acontecendo hoje, e já matou centenas de milhares de tibetanos, uigures e praticantes de Falun Gong);  os conflitos étnicos e religiosos que ocorrem continuamente no continente africano (que deixaram milhões de refugiados e centenas de milhares de mortos e que continuam a incendiar-se pelo continente como fogo de palha); o conflito entre judeus e palestinos (que dura décadas e já fez milhares de mortos) e outros. Quantas vidas tiradas, quantas famílias destruídas, quantos países a serem reconstruídos e culturas a serem refeitas…
Segundo relatório da ONU, devido às guerras e às calamidades naturais – como secas, terremotos, enchentes – existiam até 2008, cerca de 11,5 milhões de pessoas vivendo como refugiadas em várias partes do mundo. Para essas pessoas sem lar e muitas vezes, sem pátria, as incertezas e as ameaças quanto ao futuro de suas vidas é angustiante e perene.
As violações dos direitos humanos
Além das perversões da economia e da política mundial que geram a miséria, e da violência direta das guerras e seus frutos, existem muitos outros tipos de violência que se manifestam diretamente na violação dos direitos humanos.
Opressões, torturas, repressões, abusos são executados por inúmeros governos e grupos armados contra cidadãos em várias partes do mundo (na República do Congo, na Nigéria, no Senegal, na China, na Coréia do Norte e em outros países).
Milhões de pessoas sofrem, continuamente, sérias repressões e abusos, especialmente sob o jugo de governos autoritários, tendo suas liberdades e direitos violados de forma severa, perdendo, inclusive, suas vidas em torturas e assassinatos.
Uma das formas peculiares de abuso ainda existentes é a escravidão. Muitos pensam que falar em escravidão é remeter-se à história durante os períodos de colonização das Américas ou do Continente Africano; mas a escravidão existe ainda hoje em vários países, inclusive no Brasil.
Estima-se entre 12 a 27 milhões de pessoas escravizadas no mundo, trabalhando em vários setores e executando diversos trabalhos: na indústria, na agricultura, na mineração, nos serviços gerais; na produção de carvão, de diamantes, de produtos vestuários e esportivos, de alimentos, de produtos farmacêuticos etc. É absurdo, mas real, e inclusive alguns governos como o sudanês e o chinês estimulam, apoiam ou utilizam diretamente a mão de obra escrava para a geração de riquezas para os próprios governantes e para grupos favorecidos.
Ações autodestrutivas em massa
Não só as guerras, os genocídios e as violações dos direitos humanos provocam dores e mortes.
Segundo o Relatório Mundial Sobre as Drogas de 2012, das Nações Unidas, no mundo cerca de 27 milhões de pessoas são viciadas em drogas ilícitas e mais de 230 milhões fazem uso das mesmas todos os anos.
A produção de drogas ilícitas como a maconha, a cocaína, o êxtase, a heroína, o crack e outras é imensa, contando-se em dezenas de milhões de toneladas anuais.
Cerca de 250 mil pessoas morrem por ano, devido ao consumo de drogas ilícitas.
Mas, as drogas lícitas, como o cigarro e o álcool, devastam igualmente ou pior: cerca de 2,2 milhões de pessoas morrem ao ano devido ao consumo de álcool e 5,1 milhões devido ao consumo de tabaco. No mundo existem bilhões de usuários crônicos de álcool e tabaco.
O estímulo ao consumo de substâncias nocivas tem devastado a humanidade nas últimas décadas. O mundo todo tem sido afetado pela praga das drogas, lícitas ou ilícitas, que têm corroído a mente e a saúde dos indivíduos, destruído futuros e tirado a vida de milhões de pessoas.
Temos bilhões de dependentes químicos no mundo, sem contar os dependentes das drogas receitadas pelos médicos (tranquilizantes, antidepressivos). Criamos uma sociedade mundial baseada no consumo de drogas, o que certamente reflete os nossos desequilíbrios internos e mostra a nossa incapacidade de manter uma vida limpa, honesta e lúcida.
Violações particulares no seio da sociedade
Junto com o vício das drogas, lícitas e ilícitas, um outro fator devasta a vida de milhões de pessoas todos os anos no Brasil e no mundo: o abuso sexual.
A cada 8 minutos uma criança é abusada sexualmente no Brasil. No mundo os dados são ainda mais tristes: uma criança é abusada a cada 15 segundos, o que, segundo cálculos mínimos, leva a um número chocante de 1,3 a 2,1 milhões de crianças abusadas sexualmente por ano no mundo.
As estatísticas dizem que das cerca de 60 mil crianças abusadas por ano no Brasil, 82% estão entre 2 e 10 anos, sendo preferencialmente abusadas a partir dos 7 ou 8 anos. O violador é, normalmente, um membro da família: em 90% dos casos o pai biológico, o padrasto, os tios, avós ou irmãos são os autores dos abusos.
Além disso, existe o comércio baseado na exploração da sexualidade infantil, seja diretamente na prostituição, como na incógnita pedofilia.
Praticamente toda criança abusada apresenta dificuldades de relacionamento, e quando chega na fase adulta enfrenta conflitos na área dos relacionamentos afetivos e especialmente na sexualidade. Muitas distorções no comportamento sexual (sexo e masturbação compulsivos, escolha de múltiplos parceiros, sexo violento, entre outros) resultam de abusos sexuais sofridos durante a infância – estejam esses conscientes ou não na mente do abusado.
Dependendo da idade e do tipo de abuso sofrido, uma criança pode transformar-se num adolescente ou num adulto incapaz de compreender as verdadeiras relações afetivas amorosas e o carinho e de demonstrar cuidado e afeto para com os parceiros. Muitas vezes ela chega ao nível de desconhecer completamente o sentido do afeto e do carinho, por ter conhecido apenas a violência, o abuso, a falta de carinho e a dor, guardando em si uma grande confusão, um grande ressentimento e um forte ódio pelos seus abusadores – e por extensão por todas as pessoas -, sendo incapaz de estabelecer vínculos sócio-afetivos sadios, podendo se tornar um psicopata (ou sociopata).
Da dor ao amor
Claro que existem muitos outros tristes desequilíbrios e situações chocantes no mundo, como a produção e o comércio de armas e a fabricação das guerras, o tráfico mundial de órgãos humanos, a devastação do meio ambiente, o desequilíbrio ecológico e a extinção de espécies etc. Mas, o nosso objetivo inicial não foi o de tornar as coisas pesadas, angustiantes e tristes, mas sim, o de tornar a nossa realidade mais clara, sem os retoques e floreios encantadores e alienantes que vêm mediante a televisão e das propagandas promovidas pelos governos e pelas corporações particulares.
Seja no nível macro das relações político-econômicas de exploração de pessoas e grupos, dos interesses despóticos que suprimem, oprimem e devastam grupos humanos, ou das situações particulares de abuso do outro ou de si mesmo, precisamos aceitar que, em termos gerais, temos vivido de forma bastante destrutiva, estúpida e egoísta.
Existe uma ansiedade coletiva, que nos move cega e inconscientemente devido à opressão tirana (mas disfarçada) e aos estímulos de consumo promovidos pelos governantes e grupos particulares que dirigem o mundo.
Somos “educados” e dirigidos pelas mídias – especialmente pela televisão – a seguir padrões de pensamentos e de conduta baseados no medo e na promessa – sempre futura – de segurança, conforto e bem-estar.  Aprendemos que existem os malvados inimigos contra os quais temos que lutar, cada qual escolhido pelo governo ou grupo que nos dirige: os capitalistas escolhem os comunistas e estes os capitalistas; os norte-americanos demonizam os talibãs e estes os norte-americanos; e o jogo de interesse dos grandes e astutos promove a desgraça das pessoas no mundo.
Vivemos de forma inconsciente, reproduzindo todas as nossas falhas e mazelas interiores em nossas buscas no mundo: uns querem poder, outros prazeres e riquezas; alguns seduzem e outros tiranizam para conseguir dominar os demais. Porém, o que raramente nos damos conta é que criamos um mundo de enorme sofrimento: crianças são exploradas de forma chocante e bárbara todos os anos, milhões de pessoas continuam sob tortura em vários países, genocídios afetam populações inteiras, a fome e a miséria devastam milhões de pessoas, as drogas consomem jovens e adultos e levam milhões de vidas todos os anos… E com quais finalidades?
Mas, nós podemos mudar tudo isso. A questão é se queremos nos conhecer, se desejamos arriscar o nosso conforto e começarmos sendo verdadeiros. A responsabilidade é pessoal, a consciência se esclarece devido à atenção e ao esforço pessoal para entender, e a disposição para mudar vem do conhecimento do sofrimento e do desejo do compromisso humano em mudar e ajudar.
Muitas pessoas tiveram seus corações tocados pelo sofrimento e pela injustiça; muitos grupos, com altos ideais e excelentes iniciativas práticas, se formaram, estão mudando realidades importantes, salvando vidas e dando novos direcionamentos para histórias humanas: Anistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras, Avaaz, Greenpeace, Wikileaks, Repórteres Sem Fronteiras, Amigos do Bem, Projeto Mandala e muitos outros.
Porém, existem muitas pessoas anônimas e grupos de pessoas humildes que ajudam muito sem que sejam conhecidos amplamente. Não importa como, todos podem ajudar. Basta que os olhos se abram para a realidade do mundo, para os outros, para o mundo vivo e real, onde seres humanos sofrem e pessoas precisam de ajuda verdadeira. Ultrapassando o medo, o egoísmo e a busca de conforto e prazeres fúteis; encarando-se como ser humano, tendo um coração verdadeiro e sensível  poder-se-á transformar a própria vida e a vida dos demais em algo vivo, humano e cheio de significado amoroso.
As reações violentas, as rebeldias e os projetos de revolução autoritária e idealista resultaram em regimes despóticos e desumanos (mesmo com ideais tão supostamente humanos e igualitários), que desgraçaram a vida de milhões de pessoas. Então, esse não é o caminho.
Para se ter um mundo humano é preciso começar e terminar sendo humano, com consciência humana e atitudes humanas.
É uma decisão individual. Mas, o resultado será o mundo em que nós mesmos estaremos vivendo. Bom ou ruim a escolha é nossa: queremos ver a continuidade do sofrimento, ou escolhemos ser humanos despertos, verdadeiros e que se relacionam de verdade e positivamente com o mundo?
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