Zeca Pagodinho: Não tem mais Carnaval, acabaram com o que é da cultura, roubaram tudo



Carnaval 2013 - Momento entrevista
Sambista diz que não há mais bailes nem enfeites pelas ruas do rio e arma sua própria festa em xerém
Zeca Pagodinho acaba a entrevista, cantarola Bezerra da Silva ("Favela quando é favela, não deixa morar delator") e conta logo qual é a boa: "Vou no jogo [do bicho] ali um bocadinho. Todo dia vou para o maldito daquele jogo. Ah, mas é ali que eu sei de tudo: que barracão que está pronto, quem vai sair. Sambista, jogo, futebol e bicheiro: está todo mundo junto."

ROBERTO DIASENVIADO ESPECIAL AO RIO

Ex-anotador do jogo do bicho, o mais conhecido sambista do país é avesso a protocolos. Quando agendou a entrevista com a Folha, sua assessora sugeriu que a conversa fosse informal.
"Até hoje, é complicado você falar com um 'negocião' daquele te filmando. Você tem que saber o que falar", explica o cantor sobre entrevistas à televisão. "E eu sempre falo algum palavrão."
Zeca talvez seja o único brasileiro que levou uma caixinha de cerveja ao visitar o presidente da República ("lá poderia não ter"). O anfitrião de então é considerado um herói para ele, mas apenas isso. "Tem gente que pensa que sou amigo do Lula. Eu não tenho essa amizade, essa coisa de estar com ele toda hora."
Segundos depois, já está elogiando o ministro do STF Joaquim Barbosa, relator do mensalão e fã de Zeca. "Esse foi o cara de 2012. Gosto de gente decente. O cara botou para moer mesmo." E brinda: "Saúde, seu Joaquim."
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Folha - Você ficou surpreso com a repercussão do episódio de Xerém, quando resgatou vítimas das enchentes em seu quadriciclo?
Zeca Pagodinho - Fiquei. Na televisão a gente vê, mas ver de perto seus vizinhos indo embora na lama é complicado. Ver as crianças chorando. Gente que é meu vizinho ali, que a gente vê na feira, no botequim, na cachoeira.
A maioria das pessoas te elogiou, mas algumas também te criticaram.
Não tive tempo para olhar isso. O que você talvez não saiba é que, antes de ajudar todo mundo, de madrugada, eles já tinham entrado no meu quintal e salvado meus bois, meus cabritos. Para você ver como é lá em Xerém.
Como vê o samba de hoje?
Falta rádio para tocar. Só isso. Gente boa tem muita. Está sobrando. Mas não tem onde tocar. Falta um programa de samba. Inclusive na TV. Um espaço para o samba.
Dá para explicar samba para gringo?
O gringo gosta de Mangueira: tum-tum-tum tum-tum. Salgueiro. Portela. Carnaval. Copacabana. Bloco. É disso que gringo gosta. O samba só quem sabe é a gente, é a nossa linguagem.
E nem com o pessoal vindo para a Olimpíada esse estereótipo do samba vai mudar?
Isso vai passar. Olimpíada não vai ficar pra sempre não. O samba é eterno. Pode até mudar, mas é o samba. Não tem gringo, não tem ninguém não. Se ele [estrangeiro] vier morar aqui, mesmo assim não dá. Isso é coisa nossa.
As escolas de samba têm sido criticadas pela escolha dos temas dos sambas-enredo. Você vê isso como um problema?
Antigamente eram 12 escolas, cada uma com seus puxadores. Gente que tinha a característica da escola. Como o Neguinho da Beija- Flor é Beija-Flor até hoje. Antigamente tinha Silvinho da Portela. Morreu na Portela. Aroldo da Ilha. Tocava um samba no rádio, conhecia pela voz do cara também.
Por que hoje as pessoas não conhecem os sambas-enredo?
Porque não toca. Antigamente o samba começava a tocar em novembro. Dezembro a gente já sabia tudo. Hoje não se sabe o samba do ano passado. Eu sei os das décadas de 1960, 1970.
Vai desfilar neste ano?
Não [ele deve apenas cantar em camarotes]. Eu vou pra casa de um amigo em Xerém. Levo as crianças todas, amigas da minha filha. Vai minha mãe. A gente vai para um sítio lá dentro, aí eu contrato uma bandinha, enfeito tudo como se fosse o Carnaval antigo, e as crianças se fantasiam. Mesma coisa: "Mamãe Eu Quero", "Índio Quer Apito". E a Mônica [sua mulher] vai fazer pipoca, cachorro-quente, batata frita. Enfim, o Carnaval. Com confete, serpentina e tudo.
Você não gosta do Carnaval de hoje em dia?
Não tem Carnaval! Vou gostar de quê? Não tem nada. Roubaram tudo, sumiram com tudo. Acabaram com tudo o que é da cultura. Tudo. Não sei que doideira deu nesse mundo aí.
Quando o Carnaval acabou?
Já de muito tempo. Vai muito tempo atrás. É a cultura do carioca, principalmente. Antigamente o subúrbio era coisa enfeitada. Tinha coreto, baile infantil nos clubes. Também não tem mais clube.
A violência teve papel nisso?
Também. Não tem baile infantil pra você levar [as crianças]. Não sei o que aconteceu. As ruas não são mais enfeitadas. Também no meu bairro, em Del Castilho, tinha as cornetas. A gente ouvia as músicas de Carnaval. Era um Carnaval. Não tem mais. Acho que Olinda é que ainda tem Carnaval. A Bahia tem, mas é axé, aquelas coisas assim. Estou falando de Carnaval, máscara. Acho que é mais para o lado de Olinda.
A relação do jogo do bicho com as escolas foi maléfica ou benéfica?
Jogo, futebol, samba e feira é tudo a mesma coisa. O cara que está vendendo maçã logo mais é o cara que está tocando ou cantando, e está no talão, e está jogando uma bola no domingo ou no sábado. Ou é profissional. Isso tudo sempre caminhou junto.
Pelo que sei, as escolas cresceram por causa dos bicheiros, não por mais ninguém. O jogo é que sempre bancou as escolas. Hoje tem o governo. Mas as escolas de samba sempre foram coisa dos bicheiros, que levaram esse Carnaval até agora.
Hoje há quase 700 blocos de rua no Rio. Dá para aproveitar esse movimento para promover o samba?
Dá. A prefeitura deveria apoiar, preparando a cidade. Vem gente de fora. Não adianta botar dez banheiros para 200 mil pessoas. Não dá.
A televisão tinha que passar não só o Carnaval da avenida, mas o Carnaval da [avenida] Rio Branco, bloco, as crianças fantasiadas com o pai levando para ver os blocos, gente dançando frevo, aquela coisa, que era o Carnaval, quando a família inteira descia com a gente. Os tios, as tias levavam as crianças para a cidade, para ver o Carnaval. A escola de samba não, que era muito tarde.
O que é um bom samba?
Tem que ter uma melodia boa. Ou ser divertido. Ou dar uma mensagem bacana. Tem que falar do amor. Ter um papo bacana -um papo. Não um "aiaiai oioioi uiuiuiu-aiaiaiai". Aí não vale.
Você se vê cantando até a idade de Elza Soares, hoje com 75 anos, ou Dona Ivone Lara, que tem 91, idade de Riachão?
Queria, né? Espero estar bem bacana pra isso.
Como anda sua relação com a bebida?
Me dou muito bem com ela. Não tenho problema nenhum. Nos encontramos sempre. Batemos um papo...
Ficaram folclóricos os pedidos da sua mulher para você beber um pouco menos. Você tem escutado ela?
Eu é que peço! Para mim mesmo. Mas eu não me escuto... [Chega outro chope, o segundo] Aí. Eu nem pedi, ó. E é pecado enjeitar...
Você bebe alguma coisa além de cerveja? Vinho?
Só se estiver doente. Ou numa gravação, para deixar a garganta aquecida. Porque na gravação geralmente estou nervoso. Vai chegando perto é um problema.
E uísque?
Deus me livre. Já bebi de tudo. Hoje meu fígado só aceita uma cervejinha geladinha.
Cachaça também não?
Nunca fui [de cachaça]. Hoje quando eu estou com meu pai, assim para dar uma agradada nele, eu digo: "Pai, dois toques"! Ele está com 85 anos. É para fazer aquele H. Mas meu negócio sempre foi cerveja. Por isso tenho essa barriguinha bonitinha assim. Graças a Deus.
A fama de bebum incomoda?
Não. Eu tenho um lado muito maior e mais bonito do que esse lado pequeno, pobre. Não posso me preocupar com quem me criticou. Então por que não foi para lá me ajudar [na enchente em Xerém]? Me criticar é mole. Tinha que ir para lá, fazer alguma coisa.
E o lado que ficou mais forte... Você vê o que aconteceu em Xerém, depois de um pedido que eu fiz... [houve mais ajuda]. Eu sou um cara querido. Comigo não tem caô.

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