Aniversário do Rio: jornalistas relatam coberturas marcantes na Cidade Maravilhosa


Renata Cardarelli
Cenário de filmes, novelas, livros e temas de músicas, o Rio de Janeiro completou 448 anos na sexta-feira, 1º. Cada vez mais em evidência, a Cidade Maravilhosa atrai atenções nacional e internacional, em decorrência de eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O Comunique-se conversou com jornalistas que atuam na cidade para saber quais são os desafios e os pontos positivos de se trabalhar na capital fluminense. Os profissionais também relembram reportagens marcantes para o município e para suas carreiras.
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Cidade comemora aniversário nesta sexta, 1° (Imagem: Reprodução)

A saga do 'repórter maneiro'
O expediente começa cedo para Leonardo Monteiro. O repórter do amerelinho da Rádio Globo chega às 4h30 na emissora e uma hora e meia depois, sai à caminho da Central do Brasil, “ponto de grande movimentação de trabalhadores, por concentrar estação de trem, metrô e terminal de ônibus. É onde passa o coração trabalhador da cidade”, explica. Conhecido como “Léo Monteiro, o repórter maneiro”, ele faz quatro entradas ao longo do programa ‘Show do Antônio Carlos’, para o quadro 'A voz do povo é a voz de Deus'. Diariamente, a atração propõe um tema de debate para os ouvintes e o jornalista deve entrar ao vivo com duas pessoas em cada link.

Para abordar os entrevistados, Monteiro conta que tem algumas técnicas. “O problema não é só a vergonha [das pessoas], é a pressa. Procuro abordar as pessoas na fila do banheiro, tomando café, no botequim, no ponto de ônibus e ambulantes. Também procuro deixar o carro da rádio em um lugar em que as pessoas acreditem que eu sou da emissora e explico que é só a voz, não tem imagem”.
Com a rotina, o jornalista estabelece amizade com pessoas que vê diariamente. Em outubro do ano passado, por exemplo, conhecidos da Central do Brasil organizaram uma comemoração para os seus 25 anos. “No dia do meu aniversário, compraram bolo e salgadinho. Registrei no ar que fizeram a festa, pois o ouvinte gosta muito dessa proximidade”.
A saga de quem "comeu poeira"
Nem só de alegria, contudo, é feita a cobertura no Rio de Janeiro. O jornalista Wilson Aquino, da IstoÉ, lembra de uma reportagem que produziu em meados da década de 1990 para o Jornal do Brasil. Tratava-se do elevado número de mortes nas mãos da Polícia Militar. Ele conta que havia ido fazer uma nota sobre a entrega de viaturas para a Polícia Rodoviária Federal. “O comandante do batalhão começou a reclamar não estava podendo atuar na rua, porque a perícia estava retendo todas as armas do batalhão. Eles matavam tanto, que estavam ficando sem arma e isso despertou minha atenção”.

A equipe do JB começou, portanto, o trabalho de apuração. “Na época, não tinha nada em computador, comemos poeira mesmo, passamos dez ou 11 dias nos arquivos da Polícia Civil, qualquer registro que envolvia a polícia militar era registrado”. A matéria ganhou repercussão e foi premiada com o FIP (Federación Internacional de Periodistas) de direitos humanos. 
Aquino considera que o Rio de Janeiro está em pauta atualmente, mas ressalta que a cidade tem aspectos a aprimorar. “Tudo é muito bacana, mas nos bastidores há tanta nebulosidade, tanta injustiça, como a desapropriação, de forma desumana, de famílias que moravam em uma região abandona há tantos anos [refere-se ao antigo prédio do Museu do Índio]. Tem a glamourização, mas o Rio ainda está precisando de transporte, saúde. Eu gosto, mas um olho olha uma coisa e outro olho, outra”.
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Léo Monteiro, o repórter maneiro, comemorou seus 25 anos na Central do Brasil 
(Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal)
A saga em busca da "imagem maravilhosa"
Quem trabalha com olhos bem abertos é o jornalista João Pinheiro, gerente de produção da Record Rio. Ele conta que a maior dificuldade de se trabalhar em televisão é conseguir uma boa imagem. “Na TV, sem imagem, não se faz um bom conteúdo”.

Ele destaca, porém, a vantagem da capital fluminense. “O Rio tem todos os pontos positivos, porque é uma cidade maravilhosa. Até quando você vai cobrir uma desgraça, tem uma imagem maravilhosa”.

Atuando na área há 26 anos, Pinheiro cita a queda dos prédios no centro da cidade, em janeiro do ano passado, como uma das coberturas mais marcantes. “O local estava muito bem guardado, não tínhamos praticamente acesso por causa do risco. A maioria das imagens foi feita por pessoas que estavam no local na hora do acidente”.

A saga contra o tempo
Coincidentemente, a editora do Jornal do Brasil, Deborah Lannes, também lembra do desabamento dos edifícios como uma das coberturas de maior impacto. “Tivemos que mudar toda a estrutura do que estava previsto para o fim do dia. Deslocamos repórteres e fotógrafos. É sempre um exercício de agir com rapidez, ainda mais com a internet, que temos que colocar tudo no ar muito rapidamente”. 

Ao contrário da TV, em que a preocupação principal é com a imagem, na internet é necessário agilidade. “Temos que colocar a notícia no ar, mas não temos os seus contornos. Então, colocamos uma informação inicial, sem a noção da proporção, e depois a coisa foi assumindo o seu contorno”.
Deborah avalia que é natural que a cidade esteja cada vez mais em pauta, tendo em vista eventos de mobilização mundial que serão sediados no Rio. “Está meio que no olho do furacão. Tanto para o lado positivo, como para o negativo. O volume de coisas que acontece é cada vez maior, mais intenso”. Nesse ritmo, o Rio de Janeiro continuará sendo pauta para os jornalistas do mundo inteiro. E que venham os 449 anos, com “encantos mil”.

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