"Estadão" desmente que Joaquim Barbosa tenha pedido demissão de repórter

No último domingo (10/3), o portal Brasil 247 afirmou que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, "pediu a cabeça" de Felipe Recondo, repórter de O Estado de S. Paulo, a quem, dias antes, havia sugerido "chafurdar no lixo". Procurado por IMPRENSA, o diretor de redação da sucursal do jornal em Brasília, João Bosco, desmentiu a nota.
Crédito:Agência Brasil
Ministro pediu desculpas ao "Estadão" e não solicitou saída do jornalista

"A nota do Brasil 247 não tem o menor fundamento. Não consigo entender o objetivo dessa matéria. Eu inclusive me recuso a acreditar que isso tenha passado pela cabeça do Barbosa", disse Bosco. A assessoria de imprensa do STF afirmou que não vai comentar o assunto.

Jéssica Oliveira*

Episódio isolado
Na terça (5/3), Barbosa se irritou ao ser abordado por repórteres enquanto saía do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Quando Recondo tentou fazer uma pergunta, foi interrompido pelo ministro que "sugeriu" a ele ir "chafurdar no lixo". Com a insistência do repórter, Barbosa afirmou que não tinha nada a declarar e o chamou de "palhaço" antes de entrar em um elevador.

Em nota, a assessoria de imprensa do STF pediu desculpas e alegou que o ministro estava "tomado pelo cansaço" e por "fortes dores" na ocasião. "Trata-se de episódio isolado que não condiz com o histórico de relacionamento do ministro com a imprensa", ressaltou.
De acordo com Bosco, a assessoria ainda entrou em contato para reiterar o conteúdo da nota e o convidar para uma conversa com o ministro. Na última segunda (11/3), durante o encontro o próprio Barbosa pediu desculpas e disse não ter nada contra o jornal.

"Não temos uma relação ruim com o STF, mas se fosse pacífica o tempo todo, algo estaria errado", comenta Bosco. Para ele, o episódio, institucionalmente, está bem resolvido. "A atitude de Barbosa contribuiu para que tudo volte aos eixos", afirma.

Segundo Bosco, na cobertura dessa área a relação fonte-jornalista é muito intensa. "Tem muito off, muito bastidor, então precisa ser profissional. Não há problema em ser gentil, amistoso, mas a fonte deve entender que jamais estamos a serviço dela, nosso trabalho é informar a sociedade", diz. "Não pode se deixar envolver", completa. Para ele, quando uma fonte, "ainda que não tenha sido ofendida, reage daquela forma [à exemplo do comentário do ministro], "estamos no caminho certo".

Dois editoriais
O jornalista ainda comentou que o Brasil 247, ao fazer essa nota, aparentemente ignorou o editorial publicado no dia seguinte ao comentário de Barbosa, mas antes se baseou apenas no texto de domingo.

No primeiro, o Estadão foi extremamente contrário a atitude do presidente do STF, condenando de forma contundente a reação do ministro. No segundo, o jornal critica o corporativismo em esferas públicas, "causa" pela qual, explica Bosco, a publicação e o ministro têm o mesmo posicionamento.  

Nota do Brasil 247
Segundo o portal, assessores do ministro "fizeram chegar à direção do diário a informação de que a publicação não tem mais interlocutores no STF", gesto que teria sido interpretado como um pedido para a substituição de Recondo por outro profissional.

O texto afirma ainda que antes do suposto conflito de Barbosa com Recondo, o ministro isolou Mariângela Galucci, também do Estadão. Em 2010, alega o portal, a jornalista revelou que o ministro "ia a bares, em Brasília, enquanto estava de licença para tratamento de dores nas costas, que durou quase um ano inteiro e paralisou diversos processos".

Apesar das desculpas do ministro e das alegações de estar com "fortes dores" e "tomado pelo cansaço", o portal afirma que a atitude de Barbosa se deu por conta das investigações de Recondo, que estaria produzindo uma reportagem sobre gastos do STF com reformas de apartamentos e de gabinetes, além das despesas com viagens dos ministros ao exterior.

Bosco comentou ter sido procurado pelo Brasil 247 apenas à época do comentário do ministro. No domingo, quando foi publicada a nota em questão, e nos dias seguintes, não houve contato.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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