Ovacionado aos 60, Zico afirma: 'Nunca achei que ia durar para sempre'

Galinho recebeu equipe do L!Net e abordou diversos assuntos, dentre eles, a idolatria da torcida, jogo mais marcante e sua passagem pelo futebol japonês

Alexandre Araújo e Thiago Bokel
A cidade colorida de vermelho e preto, torcedores sorridentes, uma alegria contagiante. Animação que se deve a algo maior que uma simples partida decisiva ou uma conquista. Neste domingo, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, comemora 60 anos. E mesmo tendo pendurado as chuteiras há algum tempo, a idolatria da torcida do Flamengo parece aumentar a cada geração. Não à toa, é encarado como maior ídolo do clube.
Apesar de tudo isso, Zico se mostra sincero e garante que nunca se deslumbrou com a fama, nem mesmo quando estava no auge da carreira. O Galinho de Quintino, como ficou conhecido, recebeu o LANCE! no clube dele, o CFZ, e fez um balanço do caminho que construiu.
A entrevista foi interrompida apenas para um aviso: “Zico, lá fora está cheio de torcedores.”


Thigo Bokel: Qual o balanço destes 60 anos?
Balanço do dever cumprido. Principalmente como atleta, que é o mais importante. Eu entrei no futebol para ser atleta e se fui outras coisas depois, foi graças ao que eu adquiri como atleta. Então, o balanço foi positivo. Acho que acima de tudo, chego nestes 60 anos sendo procurado por todo mundo pelo que fiz como atleta. É gratificante, coloco a cabeça no travesseiro, durmo bem porque aquilo que eu escolhi fazer, fiz bem. Eu me orgulho de ter representado bem a minha profissão. Então, ter o respeito dos meus colegas de profissão, sejam atletas, companheiros, adversários, técnicos, preparadores físicos e até imprensa, é gratificante. Este carinho, a credibilidade são o maior título.
Alexandre Araújo: Teve algum momento que foi um marco para você, que sentiu a força que você tinha junto à torcida do Flamengo?
Aquele jogo de 1976, contra o Fluminense. Eu fiz quatro gols. Acho que aquilo ali, talvez, tenha dado um destaque muito maior. Coisa rara alguém fazer quatro gols em um Fla-Flu, e um jogo que teve muita repercussão, principalmente por causa do troca-troca, Rivelino no Fluminense, futebol carioca dando uma reformulada, aquilo foi um marco. Foi, digamos assim, uma confirmação de um jogador que veio para ficar. Lógico que comecei a sentir mais confiança da torcida naquilo que eu estava fazendo. Senti, a partir daquilo, uma cobrança até maior. Mas isso não me atrapalhava, porque a cobrança maior era minha em cima de mim mesmo, de eu reconhecer, saber da minha importância, saber o que era capaz.
T.B: Não precisou de ajuda psicológica para suportar essa pressão?
Não. Até porque eu tenho uma psicóloga em casa (Sandra, esposa de Zico, é psicóloga). Acho que a psicologia que eu utilizava era a da minha família, dos meus pais, dos meus irmãos. O fato de ter dois irmãos ex-jogadores me ajudou muito. O que ia passar comigo, passou com eles: a fase áurea, todo mundo bajulando. Só que a minha carreira teve uma repercussão maior por ser o Flamengo. Nunca me empolguei com nada, com sucesso ou achei que isso ia durar para sempre. Sei que a mesma mão que abraça pode bater. Isso eu vi dentro de casa, as dificuldades, os problemas. Quando veio o corte da Seleção Olímpica, eu falei: “Vou parar de jogar porque eu não quero passar o que meus irmãos passaram.” E eles foram a mim e disseram: “Você tem de jogar. No futebol acontece isso, essas coisas vão ser superadas.”
A.A: Lembra de ter sido vaiado pela torcida do Flamengo?
Lembro. Mas é aquele negócio, não a vaia, digamos, direcionada. É aquela que, às vezes, você erra algum passe, a coisa não funciona e o cara fica insatisfeito. A identificação que eu sempre tive com a torcida do Flamengo foi decorrente do conselho que eu recebi de um pessoa que foi muito importante na minha vida, que foi o Zizinho. Eu ia muito nos treinamentos do América quando ele era o técnico (Edu, irmão de Zico, jogava no clube), mas eu já estava nas divisões de base do Flamengo. E ele falou comigo: "Olha, o Flamengo é diferente. Flamengo tem uma torcida que cobra, que quer raça. O cara pode, às vezes, não jogar nada, mas se tiver raça a torcida vai com ele". Eu aprendi. Às vezes, a bola não está boa, bate na canela. Se você achar que ficar naquele marasmo, que uma hora vai melhorar, não vai. Tem de correr, brigar, dar carrinho, fazer qualquer negócio. Eu fazia isso.Tinha dias que eu ia dominar a bola e ela passava. Eu pensava: “Hoje é dia do Zizinho.” Aí começava a correr de um lado para o outro, brigar. E a torcida sempre entendeu isso. Os caras vão naquela vaia do lance, não por omissão, desinteresse ou apatia.
T.B: Se você jogasse em qualquer outro clube, a idolatria seria tão grande quanto é hoje?
Muito difícil saber, porque quando você conquista as coisas é lógico que vem muita gente com você. Tem muitos que declaram: “Não sei se sou Flamengo ou se sou Zico. Se torço mais por você ou torço mais para o Flamengo.” A quantidade de gente que coloca o nome de Arthur para homenagear, não sei se isso poderia existir em outro lugar. Não sei o grau de paixão que as pessoas têm por um clube, como tem pelo Flamengo ou por qualquer outro. Não posso estimar isso. Se o torcedor do Fluminense, Vasco, Botafogo tivesse um cara como eu, não sei se idolatraria maior. Acho que o ponto é a identificação minha com a torcida. A empatia veio rápido, sempre comemorei com a minha torcida. Outra coisa, sempre soube exaltar a importância dela. O Flamengo é o que ele é hoje por causa do torcida que tem. O clube em si ainda deixa muito a desejar, mas a torcida é o maior patrimônio, não tem igual. O Flamengo é o que é nas mídias, no espaço que tem, por causa da torcida. Aquelas pessoas que passaram lá, e que passam, ainda não entenderam que o clube pode ser tão grande quanto à torcida. E já deveria ser pelo que já conquistou.
T.B: Por que hoje é tão difícil surgir jogador com a técnica do Zico?
Se eu chegasse hoje como cheguei ao Flamengo, não me deixariam treinar. Acho que nem com o pistolão do Celso Garcia (radialista que o levou para fazer um teste no clube) eu ia treinar. Magrelo, com uniforme maior que o corpo. As pessoas hoje pensam logo no cara parrudo, alto, para jogar bola. Essa seria a primeira coisa. Depois, não se privilegia a técnica, a qualidade. Vai em um teste, o molequinho dribla e tal, o cara: “é bom, mas não vai seguir”. Então é o físico! Como se Messi, Maradona e Romário fossem gigantes. Essas coisas são bitoladas na base. Na minha época a base era comandada por pessoas com um pouco mais de experiência, e não por jovens dispostos a subir de categoria. Hoje o cara não está preocupado em formar jogador, quer ganhar título para subir.
T.B: E por que não surgem com a personalidade do Zico?
Como houve uma mudança grande, o jogador não responde mais por ele. Quem responde são os agentes. Eu sempre tive procurador, advogado, mas nunca eles iriam dizer o que eu acho. Quem acha sou eu. Não tem de responder por mim. Isso aí é cultura, conhecimento, uma série de coisas. Hoje pensam que isso é desgaste. Isso é personalidade, é você não ter receio. Os caras estão muito preocupados com imagem. Isso é uma das coisas boas que o Romário disse uma vez: “Quem precisa ter boa imagem é televisão.”
A.A: Como enxerga as comparações com você?
É uma preocupação, porque muitos jogadores sofreram com o problema de chegar à Seleção e ter o Pelé. No Botafogo, de usar a sete por causa do Garrincha. Não tive essa referência no Flamengo. Foram bons jogadores, mas não com o destaque que eu cheguei. E eu sempre procurei não deixar que isso acontecesse com ninguém. Você pode falar o nome de alguém que está crescendo, mas não é novo Zico, Pelé, ou Garrincha. Não existe isso. E isso só acontece se você tiver também um grande tempo em um clube.
A.A: Um jogo inesquecível pelo pontos positivos...
O do Cobreloa (do Chile, na final da Libertadores de 1981). Não tem como não falar porque foi uma vitória da arte contra a violência. O título mais importante do Flamengo até aquele momento. Foi o jogo que mais me motivou, mais me emocionou. Mais que o Mundial. Ali estávamos no clima, o outro é um jogo só, sem torcida. Não é a mesma coisa. Fazer o gol de falta, da vitória, foi um dos gols que eu mais comemorei. O de maior alegria foi aquele. Ali estava selada a conquista.
A.A: E pelos pontos negativos?
Tem vários. O jogo com o Bangu, por exemplo, que arrebentou meu joelho (1985). Ainda bem que foi em fim de carreira. Teve um em que perdi pênalti na final de Taça Guanabara, em 1976, começando a carreira. Mas serviu de aprendizado para nunca achar que as coisas estão decididas e comemorar antes.
O filho no Japão
“Considero o Kashima (Antlers) o meu filho porque criei, ajudei a construir. Como diretor e treinador também. Lá fui massagista, roupeiro, diretor de futebol, diretor de marketing, treinador de goleiro, tudo. Muitas vezes você tem finanças, mas não sabe qual caminho seguir. Procurei primeiro estruturar. Kashima era uma cidade muito pequena, de 80 mil habitantes, que só tinha uma fábrica que empregava sete mil pessoas. Não tinha nada. Não adianta você levar o Zico para desenvolver o futebol se os melhores jogadores japoneses vão estar em Tóquio, Osaka, cidades mais importantes. Para fazer o japonês bom ir para lá, tinha de oferecer o que tinha de melhor, eles só precisavam pensar em jogar. Então o Kashima cresceu. Em um ano fez uma tremenda concentração, um CT, um estádio. Começou a ficar na mídia. Ficando nela, atraiu patrocinadores. O Kashima começou a ser uma certa referência. Todo mundo queria ir para lá. Além disso, era o único que tinha o Zico. Os jovens japoneses queriam ir para lá e oferecíamos tudo. Fizemos um grande time de japoneses. Os melhores passaram a querer jogar no Kashima. E o clube passou a crescer. Hoje é o que tem mais títulos, mais vitórias, mais jogadores na seleção, que tem mais tempo de permanência, clube que ainda não caiu para a Segunda Divisão desde que mudou de nome. Você construir tudo isso é um negócio que não tem preço. Além de tudo, ver o que o futebol japonês é hoje na Ásia. Através deste trabalho foi que me tornei técnico”


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