Pátina volta repaginada e colorida


Técnica, no entanto, mantém o princípio de dar aparência desgastada a móveis


Placas de madeira (Ekko, R$ 130,91, cada, de 32,5cm x 32,5 cm) Foto: Divulgação
Placas de madeira (Ekko, R$ 130,91, cada, de 32,5cm x 32,5 cm)DIVULGAÇÃO
RIO _ Tem gente que torce o nariz quando o vendedor da loja oferece como opção o acabamento em pátina para o móvel ou o revestimento escolhido. A pintura que tem como característica o uso de duas cores — uma de base e outra por cima — acabou mesmo taxada de cafona depois de viver seus anos áureos na década de 1990, quando uma mistura de bege com branco provençal deu o tom a muitas casas cariocas. Pois saiba que, de lá para cá, muita coisa mudou, e hoje a pátina volta repaginada. É que a técnica virou um ótimo recurso para conseguir imprimir aquele ar desgastado e envelhecido a uma peça, mais na moda do que nunca.
Na Mostra Artefacto, inaugurada há duas semanas no CasaShopping, uma mesa de centro de 2,20 metros de extensão chama atenção no espaço que representa o varandão de uma sala, assinado pelo decorador Edgard Octávio. De madeira, o móvel lembra um velho caixote branco, todo descascado, deixando a madeira à mostra em várias partes. Para Edgard, é o tipo de item bem vindo ao lar.


— Aquela casa com móveis todos novinhos, sem história, é muito impessoal. O legal desse é que é novo, mas com cara de usado — diz o decorador. — Dentro do estilo provençal, até hoje a pátina clássica tem seu espaço e pode deixar o ambiente muito elegante. E foi bem-sucedido no passado, muito copiado, ?
Foi uma época em que muita gente, de executivas a estudantes, matriculou-se em cursos para aprender a técnica. Na maioria das vezes, usava-se o branco como base e, por cima, uma camada de bege. Depois, era preciso “raspar” a superfície usando lixa, esponja, lã de aço ou simplesmente um paninho para borrar o bege e deixar o branco surgir.
A paisagista Sônia Infante faz parte da turma que se interessou pelo estilo, isso há mais de 20 anos. Primeiro, ela foi estudar a técnica da policromia, um processo de pintura mais complexo e demorado que utiliza diversas camadas de tinta e é muito usado em móveis coloniais, daqueles que costumam decorar casas de fazendas. A partir daí, ela passou para a pátina e, hoje, investe na versão mais moderna para colorir os móveis de sua loja, a Arteiro, em Itaipava. Nos fundos do estabelecimento, ela mantém um ateliê onde bota a mão na massa.
Uma das aquisições mais recentes da Arteiro é um arcaz de madeira de demolição que Sônia Infante cobriu com pátina, escolhendo como base o vermelho e, por cima, um azul arroxeado.
— Usei caco de vidro para ajudar a descascar a pintura — conta a paisagista.
A publicitária Lilli Kessler recorre muito ao canivete para chegar ao efeito. Na Le Modiste, sua loja-ateliê em Ipanema, o acabamento é o que mais tem “saído”, depois da laca. Lilli usa a pistola para aplicar tinta automotiva e abusa de combinações como azul com verde e preto com branco na hora de restaurar e colorir peças antigas. Pode encarecer o serviço entre 10% e 20%, e demorar até três semanas para ficar pronto.
Na versão moderna da técnica, abre-se uma paleta grande de tons. A tradicional cadeira Paris, com assento de palhinha e encosto em “X”, rejuvenesceu com um banho de pátina que mescla pigmentos fortes — novidade recém-chegada ao Studio Grabowsky, na galeria Cidade do Leblon. Assinado pelo designer holandês Joop Mooren, o banquinho da LZ Studio, em Ipanema, parece ter saído de uma obra, com pinceladas acidentais na madeira de demolição.
Deixar a madeira mais aparente, aliás, faz parte desse novo estilo. O revestimento chamado Paranaíta, da marca paulista Inti, é assim: uma espécie de mosaico de madeira, com nuances de verdes e marrons, vendido em filetes de 32,5cm x 32,5cm (representado aqui pela Ekko Revestimentos, no CasaShopping, e Chão de Barro, no Itanhangá). O bufê Kabini, do designer Pedro Mendes, é outro que privilegia a madeira. O desgaste é ditado pelas tintas que foram raspadas da parte da frente, com duas portas e duas gavetas. É da Way Design, no Rio Design Leblon.
Quem busca novidades lá fora para trazer para cá também tem se deparado com o patinado desgastado. À frente da Rug Hold, loja em São Cristóvão especializada em peças chinesas, Cláudia Carvalho percebe que na Ásia a pátina virou uma forma de transformar móveis produzidos em série em itens únicos, exclusivos e ao mesmo tempo descolados. Teresa Pellitteri, do Galpão, no CasaShopping, conta que, em Bali, a técnica foi uma solução encontrada por artesãos para disfarçar pedaços imperfeitos de madeira.
— Como o governo em Bali está regulando o corte de árvores por três anos, há uma certa dificuldade em encontrar toras grandes e homogêneas. Pintar os móveis da maneira mais tradicional deixa a parte feia em destaque. A pátina ajuda a disfarçar — conta.

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