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(Jesus Cristo)







terça-feira, 18 de junho de 2013

Os protestos e a nova geração de conectados

Phablo Gouvêa, no blog Maria Frô:

Desde o Churrasco da Gente Diferenciada, ocorrido no dia 14 de maio de 2011, quando um grupo de moradores do bairro de Higienópolis se opôs à construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica, provocando uma reação por parte dos internautas conectados ao facebook, não se via manifestações tão bem exploradas através dos canais de compartilhamento das mídias sociais, como as que ocorrem atualmente, lideradas pelo Movimento Passe Livre, contra o aumento do preço do transporte público em São Paulo.



Segundo informações do Datafolha, a estimativa do público presente no último 5º ato, realizado no Largo da Batata, no dia 17 de junho, é de cerca de 70 mil pessoas. Os manifestantes falam em números maiores, de aproximadamente 100 mil pessoas nas ruas. Nem os eventos organizados durante as eleições municipais de 2012, em São Paulo, como o Amor Sim Russomano Não e Existe Amor em SP, tiveram tamanha capilaridade nas redes sociais.
É verdade que o número de pessoas confirmadas no evento criado no facebook pelos organizadores do Movimento Passe Livre, excede o número de manifestantes presentes no protesto contra o aumento das tarifas. Mas não é essa contradição que nos interessa nesse instante. O que nos chama atenção é a conectividade. Eric Schmidt, CEO do Google, lamenta que aproximadamente 2 bilhões de pessoas no mundo – menos de um terço da população mundial – tenham acesso à internet. O executivo do site considera que a tecnologia não produz milagres, mas a conectividade, mesmo em quantidades modestas, muda vidas.
Desta maneira, de acordo com uma pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2005 e 2011, a população de 10 anos ou mais de idade cresceu 9,7%, enquanto isso o número de pessoas nessa faixa etária que utilizam a internet aumentou 143,8% e o das que tinham telefone móvel celular, para uso pessoal, cresceu 107,2%. A pesquisa também revela que em 2011, cerca de metade dos 93,5 milhões de trabalhadores brasileiros (49,9% ou 46,7 milhões) utilizaram a internet. Em 2005, esse percentual era de 22,8% (19,8 milhões).
Um dado interessante da amostra é que em 2011, o levantamento identificou que nos domicílios brasileiros que possuem um computador pessoal, 78,7% acessavam a rede, enquanto 21,3% não tinham conexão com a internet.
A conectividade entre os estudantes de 10 anos ou mais de idade, que estudavam em escola pública e tinham acesso à internet, passou de 24,1% para 65,8% em sete anos. A pesquisa revela que no Brasil, o percentual de pessoas de 10 anos ou mais de idade que tinham celular para uso pessoal passou de 36,6%, algo em torno de 55,7 milhões em 2005, para 69,1%, equivalente a 115,4 milhões de pessoas em 2011.
Os dados confirmam o crescimento da rede, na medida em que avançam as redes de telefonia móvel, o consumo de computadores pessoais e dispositivos móveis, sobretudo de smartphones. O que não significa que alcançamos um alto padrão na qualidade da conexão em relação aos países desenvolvidos.
Um estudo divulgado pelo IBOPE Media releva que 134 milhões de pessoas, com 10 anos e mais, têm um telefone móvel. Destas, 52 milhões têm acesso à internet pelo celular. A pesquisa revela que no Brasil a quantidade de smartphones conectados à internet é de aproximadamente 20 milhões num universo de 134 milhões de aparelhos celulares adquiridos nos últimos anos.
Estes apontamentos nos permite compreender, grosso modo, o efeito decorrente da aquisição destes aparelhos e da conectividade na vida das pessoas, sobretudo quando relacionamos seu uso no interior das lutas políticas na rede. Diante disso, grandes empresas do ramo como a Microsoft, Apple, Google, Facebook e o Twitter, por exemplo, movimentam investimentos financeiros bilionários, com escritórios montados em diversos lugares do mundo, para oferecer a este mercado em ascensão, tecnologias distribuídas capazes de potencializar os efeitos da comunicação e da informação que não víamos no interior das lutas políticas das décadas anteriores.
Em parceria com a comScore, o Interactive Advertising Bureau (IAB Brasil), divulgou também uma pesquisa com 2.075 pessoas usuárias de internet, entre 15 e 55 anos de idade. O estudo revela que o desktop é a interface mais utilizada de conexão com a internet, responsável por 77% do número de usuários que acessaram a rede, seguido pelo notebook ou laptop (59%), smartphone (40%), tablets (16%), iPad (15%), console de videogame (12%), iPod (10%) e outros dispositivos (2%).
Apesar de sermos um terço de conectados no mundo, somos a primeira geração de brasileiros com acesso a internet, a experimentar em movimento através do uso de dispositivos móveis, uma conexão direta com várias pessoas simultaneamente em estado de movimento, em qualquer ponto da cidade. Estas pessoas, por sua vez, são capazes de se organizarem politicamente e através de suas redes sociais de compartilhamento, conectarem-se a diversas pessoas. Além disso, unirem contatos que nunca se cruzaram anteriormente, ligados a diferentes ideologias partidárias, sob a égide de um interesse comum – a coletividade – ainda que a individualidade seja uma prática decorrente do cotidiano das grandes metrópoles.
Essa contradição aponta para a necessidade de uma reflexão sobre os desafios que teremos diante de uma geração de conectados. Que implicações para a nossa democracia e a participação popular podem ocorrer quando questões urbanas complexas como a que estamos vivenciando em São Paulo, avançam por outras cidades do País, da mesma maneira que as formas tradicionais de sociabilidade e de se fazer política se modificam com esta revolução tecnológica?
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