Protestos ganham a capa do ‘New York Times’

Para jornal, manifestações são comparáveis às da Primavera Árabe e da Turquia

A capa desta quarta-feira do “New York Times”, com foto da agência Associated Press (AP), em destaque
Foto: Reprodução de internet

RIO - As manifestações que começaram pelo aumento das tarifas de ônibus nas capitais e despertaram uma insatisfação que se multiplica pelo Brasil ganharam destaque na capa do jornal americano “New York Times” nesta quarta-feira. Sob o título “Protestos crescem enquanto brasileiros culpam seus líderes”, a reportagem que começa na primeira página do jornal exibe foto chocante de um flagrante de abuso policial ocorrido no Rio, na segunda, em que policiais militares lançam, de uma distância mínima, um forte jato de spray de pimenta no rosto de uma manifestante. E ressalta que os líderes políticos do país foram sacudidas pelo maior desafio a sua autoridade em anos.

O texto do jornal americano destaca que, apesar do tom mais conciliatório que começou a ser adotado pelo governo a partir de terça-feira, o movimento não arrefeceu e segue ganhando as ruas das principais capitais do país. Entre as reivindicações, foram listadas a corrupção policial, o alto custo de vida e o “imenso gasto público com a Copa do Mundo e as Olimpíadas”. Também ganhou destaque uma das principais bandeiras dos manifestantes: a denúncia de que os líderes estão mais preocupados com a imagem do país, construindo grandes estádios para eventos internacionais, quando serviços básicos como saúde e educação permanecem precários para a maior parte da população.
As manifestações foram comparadas às da Primavera Árabe e às mais recentes ocorridas na Turquia — que rapidamente tomaram grandes proporções e se voltaram para uma condenação ampla das ações do governo. O crescimento da dimensão dos protestos, que surpreendeu grande parte dos brasileiros, também foi destacada pelo jornal, bem como o slogan “O povo acordou”, estampado em diversos cartazes de manifestantes. Os protestos em São Paulo, Rio e Juazeiro do Norte estão sendo vistos, também pela imprensa internacional, como a maior manifestação social desde a década de 80, quando teve fim a ditadura militar e o protesto pelas “Diretas Já” no país.
O tom conciliador do discurso de Dilma de ontem, que usou frases como o “Brasil hoje acordou mais forte” foi confrontado com a abordagem adotada pela Turquia, de qualificar os manifestantes como terroristas e vândalos. Para o jornal, “Dilma Rousseff pareceu bastante a par a extensão da frustração no Brasil sobre a distância entre as aspirações globais da nação e a realidade para milhões de brasileiros”:
“Os protestos no Brasil estão se desdobrando ao mesmo tempo em que seu anunciado boom econômico pode estar perto do fim. O ritmo da economia desacelerou para uma pálida sombra do que foi o crescimento nos últimos anos, a inflação é alta, a moeda está declinando acentuadamente em relação ao dólar — mas as expectativas dos brasileiros talvez nunca tenham sido tão altas, alimentando ampla intolerância com a corrupção, escolas ruins e outras falhas do governo”, defendeu o autor da reportagem.


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