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sábado, 6 de julho de 2013

Deitados eternamente em berço esplêndido

Por Enio Squeff - de São Paulo

A ideia supõe que os sonhos seriam, por extensão
A ideia supõe que os sonhos seriam, por extensão
Machado de Assis, em seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, sugere que dormir é uma forma “interina de morrer”. A ideia supõe que os sonhos seriam, por extensão, uma forma interina de rebuscar utopias – mais ou menos como a classe média vem bradando nas ruas, com toda a razão aliás, tais como pela melhoria radical da saúde, da educação e da segurança pública. São bandeiras históricas de um país que só nos últimos anos incluiu alguns milhões de estudantes nas universidades e no mercado de consumo. É, em suma, o sonho do mais e do melhor para os brasileiros.


Nenhum partido político à esquerda e à direita se beneficiou muito dos protestos, como sabemos. Mas, ao contrário do que alvitra o presidente do STF, Joaquim Barbosa, sem partidos não parece haver qualquer possibilidade de democracia. Para tentar uma ilação: se dormir é uma forma interina de morrer, sonhar demais, ou não sonhar, parece uma forma interina de fugir à concretude da política.
A questão parece mais ou menos essa: quando a pauta de reivindicações abarca a totalidade de uma sociedade injusta já há algumas centenas de anos, as soluções ficam sempre à mercê dos tempos e dos costumes. E haja tempos e costumes para que elas realmente aconteçam.
É que nem tudo são formas interinas de advogar utopias. Tomemos o dia-a-dia das capitais brasileiras. As reintegrações de posses que acontecem no Brasil, sob o tacão das polícias militares e dos arrasadores tratores dos proprietários das terras ocupadas por cidadãos sem teto demonstram, ao vivo e em cores, como pesadelos, as injustiças para as quais não parece haver qualquer revolta possível ou desejável. Pelo menos, não nas ruas.
Digamos que sonhar que alguns milhares de pessoas da classe média se mobilizem para impedir ações do tipo – como aconteceu, recentemente, em São Judas, na periferia de São Paulo, logo depois das grandes manifestações de rua – seja apenas e tão somente um sonho, sem qualquer chance de ser contemplada pela realidade. A injusta sociedade brasileira está sempre em qualquer momento da sua história, a descoberto dos atentados que se cometem em nome do sagrado direito da propriedade (leia-se das grandes propriedades): não da maioria, mas de alguns poucos.
E então vemos, indiferentes, centenas de famílias a serem tratadas como se fossem invasores em seu próprio país. Para tentar dizer tudo em tempo de manifestações pela justiça no Brasil: a ” terra brasilis” nunca deixa tão claro que o País é a propriedade de alguns e não de seu povo. E, quem sabe, sonhar com multidões movidas por injustiças seja apenas uma forma interina de ser nefelibata – de viver nas nuvens, de sonhar com carneirinhos.
Machado de Assis quase não se envolveu, diretamente, em algumas questões socialmente clamorosas, de seu tempo, como a escravatura. Mas no mesmo “Memórias Póstumas”, ele conta de um ex-escravo da família do personagem título que se compraz em maltratar um escravo, agora, de sua propriedade, que ele chama de “bêbado”( como se restasse alternativa ao álcool para quem vivia sob vergastas numa sociedade como daquele tempo).
O detalhe clamoroso é que o próprio personagem título confessa ter maltratado o quanto pôde o autor das chibatadas que ele dispensava a seu irmão de cor. Machado se omite de fazer qualquer comentário – a estupidez humana falaria por si.
Passados mais de um século, o Brasil, agora, vai às ruas clamando, com inteira justiça, parece, pelo direito “pétreo “(?) de ir e vir, não como um favor, mas como uma obrigação. E não só do Estado. Alguém aventou que se cobrassem mais impostos dos proprietários dos carros de luxo: eles patrocinariam parte do necessário para o pagamento do transporte coletivo. Seria justo. Mas alguém acredita que tal coisa pudesse mover multidões em manifestações a favor?
Em seu livro, Machado não avança sobre os sonhos. Dormir como forma interina de morrer, ainda que as memórias sejam póstumas, não supõem outra coisa que o nada. Essa talvez a síndrome do Brasil, expressa nos versos do hino e de que tanto se fala e critica : trata-se do tal “deitado eternamente em berço esplêndido”.
Enquanto sono sem sonhos, deitados em berço esplêndido, no Brasil continuamos acedendo que poucos tenham muito e muitos tenham pouco. É uma constatação tão corriqueira que até esquecemos que a corrupção não existe sem corruptores, que pior que os políticos corruptos são os que os corrompem; e que esses quase nunca entram no reino dos infernos. Por aqui, achamos natural que um juiz durma tranqüilo depois de assinar uma reintegração de posse, da qual resultarão ao desabrigo, centenas e, muitas vezes, milhares de mulheres, crianças – trabalhadores quase todos, sem quase nada de seu, depois da demolição de tudo o que amealharam.
A começar, prosaicamente, pelos tijolos e o cimento que fazem os barracos. Em nosso sono sem sonhos, como que verdadeiramente mortos, aceitamos que tudo se resuma à conclusão de que eventuais posseiros “são invasores”, como os definem a Justiça. Deitados eternamente em berçoesplêndido, sabemos todos muito bem que existem latifúndios nas cidades, e que enriquecem a custa da pura especulação. E que, contra o capital especulativo, todos nos acomodamos aos sonos sem sonhos.
Fizeram muito bem os trabalhadores bolivianos que paralisaram parte da avenida Paulista por causa do assassinato brutal de uma criança filho de emigrantes. Se acordamos para as injustiças da precariedade do transporte coletivo, a ineficiência da saúde pública e a pouca qualidade da educação, talvez fosse, agora, de nos manifestarmos bravamente também, lado a lado dos emigrantes, contra tais barbaridades.
A pauta contra as injustiças brasileiras talvez requeressem, de um lado, sonhar nessa espécie de morte interina, que é o sono. No mais, porém, é de se conservar desperto sempre: manifestações contra os preços abusivos dos transportes coletivos não têm nada de injusto – mas parece infinitamente menos justo do que negar aos brasileiros seu direito à moradia. Quanto à violência, pouco a dizer: ela parece se voltar justamente contra os que mais sofrem na nossa sociedade. É um pouco o episódio do escravo que maltrata o seu igual, como aparece, de novo, no livro de Machado de Assis.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.
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