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(Jesus Cristo)







segunda-feira, 29 de julho de 2013

Papa Francisco vai embora, mas fica um desafio aos brasileiros

Por Gilberto de Souza - do Rio de Janeiro

Milhões de pessoas se dirigiram a Copacabana, fugindo do lamaçal que restou em Guaratiba
Milhões de pessoas se dirigiram a Copacabana, fugindo do lamaçal que restou em Guaratiba
Encerrada a participação do papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), percebe-se um pouco mais da alma brasileira, impressa na lama de Guaratiba e no asfalto de Copacabana. Por mais que se faça, ou que se fale, grite, apregoe em cartazes carregados por multidões pelas praças e avenidas das cidades por aí afora, o país segue mergulhado no obscurantismo religioso, sob a mordaça da mídia que sonega impostos enquanto exagera em pieguices. Trata-se de um fenômeno social a dicotomia entre os agentes que levaram o Brasil a mergulhar fundo na ditadura torturadora e a guerrilha que a combateu até transformá-la nesse regime democrático em que ora vivemos. Partes indivisíveis de uma mesma nação, ainda seguem em uma luta surda o desejo de um futuro pleno em justiça e igualdade e a vontade de manter o mesmo sistema que, ao longo da história, extermina nações inteiras dos primeiros brasileiros, estupra e reduz o papel da mulher a um plano tão inferior que sequer dispõe do próprio corpo segundo a sua vontade, acumula riqueza enquanto a miséria corrói milhões de famílias, reza o terço manchado com o sangue dos pretos, pobres, prostitutas e gays, aniquilados pela hipocrisia de uma minoria branca, cheirosa e educada segundo os mais rigorosos padrões europeus.


Enquanto o representante do Deus católico, na Terra, falava ao mar de gente que invadiu os quatro quilômetros de areia de uma das praias mais famosas do mundo, fugindo do lodaçal de incompetência e desperdício de dinheiro público que restou na Zona Oeste da cidade, a memória de Pagu, Leila Diniz e tantas outras que lutaram para que a Marcha das Vadias acontecesse, em meio àquele tsunami de carolas, aplaudia os seios nús, os corpos escritos com palavras de ordem, a vontade demonstrada de se construir uma sociedade laica e democrática. Excessos à parte, de um lado quebrando a imagem de Nossa Senhora e chutando crucifixos; e de outro, integralistas, a Opus Dei e outros radicais religiosos cuspindo nas manifestantes, trata-se aqui de duas forças que se enfrentam em cada esquina desse país e, principalmente, nas urnas, que é lugar de mostrar quem tem maioria, em uma sociedade que se diz democrata. Esse embate se reproduz mundo afora, em primaveras e levantes, ora para derrubar a União Soviética, com o apoio luxuoso da Santa Sé, ora para expulsar, a chutes e pontapés, os títeres patrocinados por Washington, como bem fizeram Fidel, Cienfuegos e Che, em Cuba, ou Chávez, na Venezuela. Aqui, no entanto, apesar da vitória das esquerdas, nas urnas, a balança sempre pende para a direita, sob o peso da mídia conservadora e sua mão invisível que, sem nenhum pudor, criminaliza os movimentos sociais e aplaude as iniciativas mais obscuras e golpistas.
O duelo entre o porvir de um Estado socialmente justo e o passado de crimes e usura, que teima em sobreviver disfarçado de “coxinhas” nas passeatas ou encrustado nos discursos da dextra raivosa, reproduz-se nas três esferas de poder do modelo em vigor. No Executivo, que há uma década tem na cabeça o Partido dos Trabalhadores – e o nome deveria dispensar mais detalhes quanto ao seu lugar no matiz político nacional –, fulgura a presença das mesmas forças reacionárias que prenderam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma solitária e torturaram a atual mandatária, Dilma Rousseff. Em nome do que traduzem os próceres petistas como “governabilidade”, perpetuam intacto o ambiente em que prosperam a intolerância e toda sorte de golpismos midiáticos, com o patrocínio direto – alimentado por bilhões de reais em recursos públicos – de empresas que, há muito, deveriam ter suas atividades encerradas pela Receita Federal ou a Justiça comum, por se tratarem de cúmplices da ditadura militar. O medo de um confronto direto, capaz de definir quem, de fato, venceu as eleições de 2010, paralisa até hoje a máquina pública federal a ponto de levar milhares às ruas. Inicialmente, por R$ 0,20, mas, na realidade, pelas mesmas razões que fizeram milhões de brasileiros votar contra a proposta dos partidos conservadores e eleger, primeiro, um operário, depois, uma ex-guerrilheira para governar o Brasil.
Novamente, é aquela mão disfarçada que age nas sombras, em novelas cândidas, noticiário pueril e programas piegas para enganar trouxas. Derrotadas nos últimos pleitos, as organizações midiáticas rapidamente se refazem com o apoio de uma base parlamentar subserviente, formada por uma oposição pífia, mas venenosa, e uma “base de apoio” formada por legendas alugadas a ruralistas de extrema-direita, religiosos das diversas igrejas, seitas e cultos à ignorância, empresários riquíssimos, banqueiros e multinacionais. Assim, o Parlamento sequestra a vontade popular expressa no voto, de forma a manter ganhos vultuosos aos patrocinadores dos mandatos e o espectro de seu poder presente nos gabinetes vizinhos às decisões dos governos federal, estaduais e até mesmo dos municípios mais recônditos. A contrapartida chega aos parlamentares de aluguel em elogios e afagos nas edições dos jornais, a exemplo do ex-senador Demóstenes Torres. Ou na cobertura favorável aos interesses deles, em suas bases eleitoreiras, de forma a garantir que perseverem tabus como a sagração da propriedade privada, a valorização dos ricos, a criminalização da pobreza e a opressão dos trabalhadores pelas tropas de choque. Pinheirinho está aí para não deixar ninguém se esquecer. Assim, a intenção progressista ganha, mas não leva. Os reformistas são eleitos, mas não governam.
A mesma situação se repete no Judiciário, como foi escancarado na Ação Penal 470, do Supremo Tribunal Federal. O julgamento do chamado ‘mensalão’ que, dia após dia, mostra-se mais e mais defeituoso e impreciso, serve plenamente de exemplo para o embate entre as placas tectônicas que se movem sob os nossos pés. Enquanto as prisões estão abarrotadas por uma massa marrom e ignara, não se vê um pio nos tribunais sobre os grandes sonegadores de impostos. Não há, atrás das grades, um só empresário de vulto no Brasil, ainda que envolvido com a máfia do Cachoeirinha, com os cartéis das licitações públicas do Metrô de São Paulo, dos estádios no Rio de Janeiro ou, ainda, com a grilagem de terras nos rincões dessa pátria e a tremenda evasão de divisas promovida pela privatização indiscriminada de empresas públicas, durante a gestão dos tucanos Serra, Aécio e FHC. São intocáveis, diante tantos e caríssimos habeas corpus e liminares. De mais a mais, não rendem uma linha sequer no telejornal da noite. Para isso também servem os tentáculos imperceptíveis das organizações de rádios, jornais e emissoras de TV patrocinadas com recursos estatais para a defesa dos interesses privados. Mantêm o que não interessa (aos donos do poder) de fora das manchetes, como a compra de apartamentos em Miami através de empresa-laranja ou coisas do tipo, enquanto manchetam o mondo cane, com os seus crimes comezinhos e atraentes ao imaginário popular, recheados de ladrões de galinha, bebês perdidos ou recuperados, muito futebol e mulher bonita, os mesmos ingredientes que permeiam as programações televisivas nos canais abertos. É pura manipulação.
Agora que o papa Francisco foi embora e a multidão se dissipa, de volta às suas casas, fica lançado o desafio de avaliar qual dos titãs deverá prevalecer, absoluto, sobre os destinos do país. Se o gigante gentil, fraterno e justo, firme na decisão de promover as reformas de que a nação tanto carece: agrária, política, tributária, urbana; disposto a romper com os grilhões que, há séculos, atrasam o desenvolvimento da nação e pronto a estabelecer os marcos regulatórios da mídia no Brasil… Ou o outro, descerebrado, aferroado aos conceitos mais obscuros das religiões sectárias, disposto a proteger o ouro dos milionários e manter as classes trabalhadoras sob o domínio das elites abastadas, nem que seja à base de muita bomba de efeito moral, choques elétricos e balas de borracha. De um lado, o pontífice Francisco propõe o beijo do diálogo como solução pacífica aos confrontos impostos pela modernidade, mas na outra face, segue estampada, em relevo, a marca dos dedos que não se cansam de bater em quem ousa se levantar contra o sistema em vigor.
Até lá, fico com o professor Darcy Ribeiro e sua frase lapidar:
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.
Gilberto de Souza é editor-chefe do Correio do Brasil.
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