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domingo, 21 de julho de 2013

Qual a função do jornalismo em momentos de crise?



Por Carlos Castilho
A resposta parece óbvia, mas não é. Os manuais de redação ensinam que a função do jornalista é manter o público informado para que ele possa tomar decisões. Num momento de crise, esta recomendação seria ainda mais importante porque a instabilidade da conjuntura torna difícil distinguir a informação dos boatos, o que aumenta a dificuldade das pessoas em formar opiniões.
Mas não é bem isto o que acontece. Em situação de crise, ou ameaça de crise, as redações acabam sendo levadas a assumir as mesmas posições das empresas para as quais trabalham e que, geralmente, colocam como prioridade principal os seus interesses corporativos, familiares, políticos ou ideológicos, às vezes tudo isto junto.


Os leitores e telespectadores estão acostumados a este tipo de situação porque já identificam em cada empresa jornalística um núcleo de interesses que nem sempre coincide com os seus. Os jornalistas sofremo impacto de uma situação que, do ponto de vista profissional, é extremamente atrativa porque uma crise envolve momentos de tensão, mas, por outro lado, obriga o profissional a por em segundo plano o seu verdadeiro papel, na hora em que ele é mais relevante.
Estamos vivendo momentos que antecedem uma crise política e econômica cujos contornos reais ainda são impossíveis definir, mas que certamente estão relacionados ao processo eleitoral do ano que vem. Nesta conjuntura a imprensa joga um papel fundamental porque é ela que está determinando sobre o que as pessoas discutem. A imprensa não está impondo opiniões e nem posicionamentos políticos, mas está, claramente, “arrumando o campo” para a campanha eleitoral.
Meu colega Luciano Martins já identificou claramente como o processo está se desenvolvendo, qual a estratégia dos políticos, e mostrou o malabarismo informativo das empresas jornalísticas. Mas jornalismo e empresas jornalísticas não são a mesma coisa, o que levanta a questão do papel dos profissionais do jornalismo nesta conjuntura. 
Nada contra que as empresas tenham os seus interesses e os seus candidatos, mas informação é outra coisa e tem a ver com o direito das pessoas saberem o que está acontecendo da forma mais isenta e verídica possível. Uma empresa está movida por uma lógica de negócios, portanto é compreensível que ela deixe de divulgar determinados fatos que a prejudicam desde que não impeça as concorrentes de fazê-lo.
Os empresários e negociantes entendem esta lógica. Quando você vai vender um carro usado não vai logo contando todos os defeitos e problemas. Mas, para o comprador, o essencial é justamente aquilo que não foi revelado. O mesmo acontece com os leitores, ouvintes e telespectadores, quando procuram saber o que está por trás da notícia e quais são os interesses embutidos nela.  
Como os executivos de empresas jornalísticas misturaram deliberadamente interesses corporativos e o exercício do jornalismo, o público agora confunde uma coisa com outra, criticando as empresas por aquilo que seus jornalistas escrevem ou dizem. Para bem de um e de outro, é necessário separar as coisas e deixá-las bem claro, a começar pelo papel do jornalismo em tempos de crise.
Se as empresas pretendem resguardar sua credibilidade perante leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, elas precisam deixar de agir como vendedoras de carros usados, ao ocultar do leitor os reais motivos de estratégias editoriais vinculadas a objetivos político-eleitoreiros. 
E os profissionais das redações devem conquistar a autonomia necessária para destrinchar o complicado quebra-cabeça pré-eleitoral para que o público possa entender minimamente o tiroteio noticioso a que está sujeito em questões como inflação, plebiscito, médicos, violência urbana, só para citar os mais frequentes e atuais.
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