Frase do dia

“O amor é tudo”
(Jesus Cristo)







segunda-feira, 1 de julho de 2013

Roupa suja se lava em casa

Por Rui Martins, de Genebra

Tem muita gente querendo pegar carona nas manifestações brasileiras.
Tem muita gente querendo pegar carona nas manifestações brasileiras.
O Brasil é uma ditadura? Não existe o direito de protestar e de se manifestar nas ruas no Brasil? Os eleitores brasileiros não podem eleger seus representantes no Parlamento? Há presos políticos no Brasil? Não há eleições livres e secretas no Brasil?
Se suas respostas a essas perguntas forem Não, por que alguns pretensos líderes da comunidade brasileira na Suíça marcaram manifestação diante do Palácio das Nações, em Genebra? Ignorância?
Só pode ser, pois o local escolhido, onde existe uma cadeira gigante com um dos pés destruído por uma mina antipessoal, é o lugar onde comunidades estrangeiras perseguidas por militares e ditadores, expulsas de seus territórios ou vítimas de genocídio se reúnem para protestar e para chamar a atenção da ONU e de todos os países do mundo.


Assim foi logo depois da explosão da central nuclear de Tchernobyl e dos segredos que envolviam a nuvem radioativa, contra os genocídios cometidos durante a guerra-civil na ex-Iugoslávia, em favor do curdos perseguidos ora pelos turcos ora pelos iraquianos, em favor dos palestinos e contra os planos de colonização dos territórios ocupados, contra os militares da Birmânia, contra os ditadores argentinos, contra as minas antipessoal que deixaram aleijadas tantas pessoas na África e Ásia, isso só para citar algumas das manifestações realizadas naquele local.
E, como podem constatar, eram protestos contra perigos, violências, desrespeitos aos direitos humanos que iam além de uma questão local, regional ou nacional para se tornarem internacionais.
É hoje o caso do Brasil? Os erros cometidos no Brasil em termos de educação, saúde, transportes e a corrupção envolvendo a classe política, que não são de hoje mas que vêem de longe, são questões para serem levadas diante da ONU?
Em vez de escolher um lugar tão simbólico e que nada tem a ver com a situação brasileira, onde está se discutindo democraticamente a insatisfação de setores da população, os tais líderes – que apelam para os manifestantes irem de verde-amarelo – poderiam ter escolhido um lugar diante da FIFA, que realmente forçou a mão e obrigou o Brasil a se dobrar diante de suas exigências para ter a Copa do Mundo. Protestar contra a FIFA e seu estatuto de organização acima das soberanias nacionais e das leis internacionais, isso sim seria compreensível e mesmo louvável.
Mas protestar contra o governo brasileiro, contra questões envolvendo a população brasileira, contra os partidos e os parlamentares eleitos lá do Brasil, me parece um desserviço ao nosso País. É como se colocássemos o Brasil nu no pelourinho, para os suíços e os europeus virem.
“Vejam, nós temos políticos corruptos, nosso sistema de saúde é uma merda, assim como a educação e os transportes!”. Mas vamos falar francamente, o que os suíços e os europeus têm a ver com isso? A Suíça e seus bancos estão numa merda muito maior – induziram os milionários americanos a colocarem suas fortunas nos bancos suíços e agora os EUA querem não só os nomes dos fraudadores do fisco, mas os nomes dos funcionários suíços dos bancos que não poderão ir visitar Disneyworld sob pena de serem presos.
A União Européia, governada por tecnocratas e pelo português conservador Barroso, reduziu à recessão a Grécia, a Espanha, Portugal, quase destruiu Chipre, enquanto a Itália e a França lutam contra o desemprego. Claro que havia corrupção também, na Grécia ninguém pagava corretamente os impostos e o fisco e a Alemanha emprestava facilmente para os gregos comprarem submarinos dos quais não tinham necessidade.
Será que os suíços e os europeus vão ter tempo para saber o que o grupinho de verdes-amarelos estão protestando ? É verdade, nos primeiros dias, até o jornal Liberation, de Paris, publicou na primeira página, em vermelho, a manchete “Revolução no Brasil”, comparando os 20 centavos com a falta de pão e a sugestão de que os franceses comessem bolo de Maria Antonieta, na eclosão da Revolução Francesa.
Vamos devagar com o andor. É verdade que tem muita gente querendo tomar uma carona nas manifestações brasileiras, para dar entrevistas à televisão e aos jornais suíços e europeus. Como é fácil dar palpite de longe e malhar um governo, quando muitos sequer votaram nas eleições.
Se não me falha a memória, nas últimas eleições presidenciais, só houve 300 mil votos de brasileiros vivendo no Exterior. E aqui na Suíça, entre Zurique e Genebra, houve menos de 4 mil votos.
Se os brasileiros no exterior querem se manifestar e protestar, seria bom se interessarem, em primeiro lugar, pelas questões ligadas à emigração que lhes afetam diretamente. Há alguma referência a isso nos slogans programados para Genebra ou nas manifestações já realizadas ? Não.
Se os emigrantes querem ter parte ativa na política brasileira, não é só colocar uma camiseta verde-amarela e sair na rua dizendo que o Brasil é uma merda. Não é assim, não !
É preciso pedir ao governo para criar o voto por correspondência, é tirando seu título de eleitor e fazendo pressão para os emigrantes elegerem seus representantes em Brasília, onde irão buscar solução para os problemas dos emigrantes brasileiros. E também é necessário protestar contra a tutela política do Itamaraty sobre os emigrantes, denunciando as farsas das Conferências Brasileiros no Mundo e do CRBE e das subvenções que vão para o Itamaraty em lugar de favorecer a emancipação política dos emigrantes. Enfim, é preciso pedir para os emigrantes um órgão institucional independente.
Quanto às questões internas brasileiras, elas devem ser solucionadas e debatidas dentro do Brasil. O Brasil não é mais a ditadura dos anos 64 a 85, respeita os direitos humanos, permite manifestações nas ruas, tem eleições livres e secretas, tem tido sucesso na política contra a miséria e tem aberto as universidades para os negros e índios antes marginalizados. Por que querer desmoralizar o Brasil aqui fora ?
Um conselho de gente old fashion – roupa suja se lava em casa. Deixe o pessoal se manifestar e protestar lá no Brasil, dentro de casa. Se sentir muita vontade de participar, pegue uma avião e vá lá também. Mas, por favor, protestar aqui na Europa, nos EUA ou no Japão, não tem sentido.
(Publicado originalmente no site Direto da Redação)

Rui Martins, jornalista, escritor, líder emigrante, correspondente em Genebra, Suíça.
Postar um comentário