Roupas da Le Lis Blanc são fabricadas com escravidão

Fiscalização resgata 28 pessoas, incluindo uma adolescente de 16 anos. Costureiros vítimas de tráfico de pessoas viviam em condições degradantes e cumpriam jornadas exaustivas
A parede é de tijolos aparentes, com reboco improvisado e tábuas tapando as janelas. O piso é de cimento, coberto de retalhos, linhas e sujeira. Há fios de eletricidades puxados de maneira improvisada por todos os lados, alguns perigosamente próximos de pilhas de tecido, e, em um canto da improvisada oficina de costura, uma caixa d´água. Para ficarem mais próximos das máquinas, os lustres pendem do teto amarrados por cordões em que é possível ler “Le Lis Blanc”, nome de uma das grifes mais caras do país. Espalhadas nas mesas estão etiquetas da marca, peças finalizadas e guias com orientações sobre tamanho e corte. Em cômodos próximos, ficam os trabalhadores bolivianos, vivendo em beliches em quartos apertados, alguns com divisórias improvisadas, recebendo por produção e cumprindo jornadas exaustivas.
Oficina em que eram costuradas peças da Le Lis Blanc. Fotos: Anali Dupré
Oficina em que eram costuradas peças da Le Lis Blanc. Fotos: Anali Dupré

Lustres amarrados com cordões da Le Lis Blanc.
Lustres amarrados com cordões da Le Lis Blanc

A descrição é de uma das três oficinas em que costureiros que produziam peças da marca Le Lis Blanc foram resgatados durante fiscalização realizada em junho, acompanhada pela Repórter Brasil, em São Paulo. Com algumas variações, o cenário de degradação humana foi o mesmo encontrado em outras duas unidades de produção de peças da marca. Todas as três oficinas com problemas eram “quarteirizadas”. Duas empresas intermediárias encomendavam as peças e as repassavam para a grife de luxo. Mesmo assim, de acordo com o auditor fiscal Luís Alexandre Faria, que participou da ação, não há dúvidas sobre a culpa da Restoque S.A, empresa dona da marca Le Lis Blanc, em relação às condições em que os trabalhadores foram resgatados. Ele ressalta que não só foi caracterizada terceirização da atividade fim, o que por si só já configuraria a responsabilidade do grupo, como também nesse caso ficou evidente a ligação direta da empresa com a organização da linha de produção.
Segundo ele, toda cadeia produtiva estava baseada em encomendas da Le Lis Blanc. Ele estima que 90% das encomendas das intermediárias eram da grife e que 100% da produção das oficinas era de peças da marca. Quando a fiscalização foi feita, as oficinas estavam paradas, devido a um cancelamento repentino de encomendas. “Isso só agravou a situação, pois tirou a única possibilidade de subsistência dos trabalhadores que costuravam para a empresa”, explica o auditor. “O principal problema que encontramos foi o fato de trabalhadores morarem e viverem no mesmo local”, completa. Ao todo, 28 pessoas foram libertadas, incluindo uma adolescente de 16 anos.  Também foi caracterizado tráfico de pessoas para fins de exploração de trabalho em condição análoga à de escravo, conforme previsto no Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, e na Instrução Normativa n. 91 da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego.
Além de submetidos a condições degradantes e jornada exaustiva, muitos dos resgatados estavam presos a dívidas, o que também configura escravidão contemporânea. Todos resgatados são bolivianos.
Registro de dívida por passagem em caderno encontrado na oficina.
Registro de dívida por passagem em caderno encontrado na oficina
A ação foi coordenada pelo auditor fiscal Renato Bignami, e, além de Luís Alexandre Faria, contou também com a participação de Letícia Emanuelle Bill, os três vinculados à Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP). Também participaram Christiane Vieira Nogueira e Tiago Muniz Cavalcanti, procuradores do Ministério Público do Trabalho; Jairo Diniz Dantas, auditor da Receita Federal; Fabiana Galera Severo, da Defensoria Pública da União; Adriana Aparecida Mazagão, do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do governo de São Paulo; e os policiais Eduardo Xavier dos Santos, Gilberto Paula de Moura e Samuel de Freitas, da 1ª. Delegacia de Polícia de Proteção à Pessoa da Polícia Civil de São Paulo. O trabalho foi acompanhado pela juíza Patrícia Terezinha de Toledo, da Vara Itinerante de Combate ao Trabalho Escravo.
Segundo a SRTE/SP, a diretoria da Le Lis Blanc assumiu a responsabilidade pelo caso, fazendo o registro e regularizando o pagamento de encargos de todos os trabalhadores, incluindo direitos  retroativos referentes ao período em que ficou comprovado que os costureiros trabalharam para o grupo. As indenizações pagas diretamente aos resgatados chegaram a cerca de R$ 600 mil, ainda segundo as autoridades. Procurada, a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou o seguinte: ”Recebemos em 22 de julho de 2013 autuação do Ministério do Trabalho e Emprego envolvendo empresas que não conhecemos e com as quais não temos relacionamento. Tal autuação envolve valores estimados entre R$ 50 mil e R$ 150 mil. Cumprimos integralmente a legislação trabalhista nas relações com nossos colaboradores e tomamos os mesmos cuidados com nossos fornecedores. Analisaremos as bases de tais autuações e apresentaremos defesa oportunamente”.
Contrastes
Os costureiros ganhavam por produção e cumpriam jornadas de pelo menos dez horas diárias. Os entrevistados afirmaram trabalhar das 7h ou 8h às 17h, 18h ou 19h de segunda-feira à sexta-feira, e das 7h ao meio-dia de sábado. Alguns dizem ter cumprido regularmente jornadas de até 12 horas e trabalhado sem descanso semanal, preocupados em juntar dinheiro ou em conseguir pagar dívidas contraídas com os empregadores. Segundo os depoimentos, em média o valor pago por peça variava de R$ 2,50 a R$ 7.

Algumas das peças à venda no site da empresa. Reprodução: Le Lis Blanc
Algumas das peças à venda no site da empresa. Reprodução: Le Lis Blanc
Nos shoppings, as roupas com a marca Le Lis Blanc são vendidas por até 100 vezes mais. Conforme informações disponíveis no site da empresa, uma calça da grife pode chegar a custar R$ 1.999,50, uma saia R$ 1.350,00, um vestido R$ 999,50, blusas e camisas R$ 599,50, e uma regata R$ 359,50. Em casos excepcionais, para peças delicadas e de difícil corte, costureiros experientes afirmam ganhar até R$ 30. A peça mais cara no catálogo virtual da grife é a jaqueta Aspen, vendida por R$ 2.290,00.
Na nota fiscal, valor que os costureiros receberam por unidade. Na imagem em destaque, valor que a calça "Ana Luiza" é vendida no site da Le Lis Blanc. Foto: Anali Dupré e Reprodução/Le Lis Blanc
Na nota fiscal de intermediária, R$ 2,50, o valor que os costureiros receberam por unidade. Na imagem em destaque, R$ 379,50, valor que a calça “Ana Luiza” é vendida no site da Le Lis Blanc. Foto: Anali Dupré e Reprodução/Le Lis Blanc
“É um absurdo essa diferença entre o que a gente ganha e o preço que eles cobram pela peça, a gente sabe, mas a gente não pode fazer nada. Se eu costurar a mesma peça e tirar a etiqueta, ninguém paga esse valor”, afirma um dos costureiros resgatados. “Para o dono de uma fábrica, é fácil falar: ‘essa peça é fácil de costurar’. Mas não é um trabalho qualquer. Eu tenho orgulho do que eu faço, cada pessoa nasce com um talento e deveria ser valorizada por isso”.
No caso da Le Lis Blanc, o contraste entre as condições em que as peças são produzidas e os locais em que elas são vendidas também chama atenção. Em shoppings, as lojas da grife são luxuosas, com vendedoras produzidas conduzindo clientes entre tapetes delicados, poltronas e ricos objetos de decoração. Todas as unidades da rede têm o mesmo perfume e é possível comprar a essência. Um potinho de 100 ml custa R$ 79,50.
É o mesmo valor que alguns dos costureiros resgatados afirmaram receber para fazer costurar cerca de 11 peças da grife.
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Veja mais imagens da fiscalização envolvendo a Le Lis Blanc:
Clique para ampliar / fotos: Anali Dupré

10 comentários

  1. Maria de Fàtima Caneiro da Silva Pereira disse:
    Vergonha!
    Os responsáveis, além de pagarem o que é devido, acrescido de valores por danos morais, têm que cumprir pena (reclusão).Acredito que só assim, essa escravidão pode acabar.
  2. [...] de pessoas viviam em condições degradantes e cumpriam jornadas exaustivas. Daniel Santini, da Repórter Brasil, acompanhou a operação de [...]
  3. Na Itália dos grandes nomes de costureiros, existe ou existiu, uma grande máfia da mão de obra de costureiros maravilhosos,que ninguem nunca escutou o nome, que trabalham em regime de escravidão, onde inclusive, confeccionaram um terno branco que so foi usado pela mulher de um sheik e Angelina Joli. Esta ultima usou para receber o Oscar, vendido por mais de 800 mil dólares!
  4. Júlio Mareco disse:
    eu boicoto essa marca desde 2011, qdo reafirmaram q, apesar dos protestos, iriam continuar usando peles d animais: http://www.anda.jor.br/04/05/2011/le-lis-blanc-reafirma-que-vai-continuar-usando-pele-de-animais
  5. Luciana Candido de Lima disse:
    A Europa se utiliza da mão de obra barata dos Hindus e de Bangladesh :(
  6. [...] um caso vergonhoso na moda foi descoberto recentemente. Foi noticiado essa semana no Repórter Brasil que uma fiscalização realizada em junho em São Paulo, encontrou 28 bolivianos (incluindo uma [...]
  7. Be Duartre disse:
    Que vergonha, que nojo, que absurdo! O Ministro das Relações Exteriores deve manter bem alerta o povo boliviano à respeito do que algumas pessoas de má fé, que não representam de forma alguma o povo brasileiro, fazem com esse povo! Nós, o povo brasileiro, somos pessoas decentes, que, acima de tudo, buscam pelos direitos! Dever para o empregador? O que é isso? Eles eram obrigados, então, a comprar do patrão?Se siom, isso é gravíssimo! Escravidão? Como assim????!!!! Prisão para todos os responsáveis, agora!
  8. Luciano disse:
    Lamentável, mais a verdade é assim que muitas “Marcas” ganham dinheiro em muitos lugares do mundo.
  9. Renoux disse:
    Não viram nada…a Marca John John (q vestem artistas da GLOBO)q tbm pertecnce a esta mesma Empresa, corre atras de quem consiga preço de custo melhor no interior de SP.
    Tais como costura, lavanderia, personalização, ou seja mão de obra barata.
    A Empresa não dá a minima se os terceirizados trabalhem com menores, sem registros, bolivianos clandestinos, oq importa é a peça pronta ao consumo, ou seja o importante é o faturamento (milhões)..o resto conseguem arrumar um jeito para apagar o fogo. Aqui em TIETE, CERQUILHO, CAPELA DO ALTO, ou os coitado (peões) trabalham sem registro, sem receber hr extra, sem ferias, ou vão pra roça. Do tipo qd tem mt serviço, contratam, qd acabam o serviço, dispensam. Ae galera da Fiscalização e Ministerio do Trabalho, mais atenção ae no interior de SAMPA, façam uma auditoria, mt empresa subcontratada trabalhando fora das normas de trabalho e faturando mt.
  10. ROBERTA disse:
    Essas marcas me dão nojo, espelho do materialismo e da futilidfade do nosso mundinho atrasado.
    LE LIS BLANC , POR FORA BELA VIOLA POR DENTRO PÃO BOLORENTO …
    e quem precisa ostentar essas m…das pra sair de kza são as criaturas mais vazias da existência.
    Se começarem fiscalizar os RESTAURANTES DO BRASIL afora vão encontrar muitos esquemas assim… com a diferença de que o povo morando em trabalhando em condições absurdas exatamente como estas mostradas acima é o próprio povo Brasileiro, um choque de realidade desse mundo pra quiser se infiltrar e conhecer
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