ECOS DOS PROTESTOS: Black Blocs, modismo ou ameaça?


É bom frisar que a velha mídia foi a principal entusiasta dos 'Black Bloc' no auge das manifestações de junho. Quando era contra Dilma, os barões da imprensa deram todo apoio; quando o feitiço virou contra o feiticeiro, ou seja, contra a mídia, eles agora demonizam o movimento.

Por José Alves Pinheiro Junior
Os Black Blocs são apresentados na mídia mundial como uma organização que poderia ser rotulada como neoanarquista. Neo talvez, mas ainda afeita aos tradicionais coquetéis molotov. E, como manda o figurino histórico, manifestando-se com estardalhaço e renovada simbologia anticapitalista. Daí a preferência por ataques a autosserviços bancários e a vitrines e fachadas de fast food e marcas e grifes transnacionais de luxo. Curiosamente, na semana final de setembro último, a fotografia de um homem segurando um Big Mac e uma Coca-Cola sob o vão do Masp, na Avenida Paulista, foi publicada pela Folha de S.Paulo com intrigante legenda que o identificava como “coordenador de manifestantes mascarados”. Também multinacionais pelo menos na nomenclatura, os Black Blocs são uma novidade no Brasil. Mas são estudados há três décadas por atuação semelhante na Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Turquia, Egito, Grécia, Chile e México. Não nessa ordem, porém sempre se apresentando como “estudantes, trabalhadores, desempregados e revoltados” segundo o Manifeste du Carré Noir, divulgado no Québec, Canadá, em 2012. Um manifesto tipicamente “classe média burguesa”. E que parece definir a “ideologia” Black Blocs.


A ação sem fronteiras dos Black Blocs não passaria de mera imitação de jovens rebeldes em busca de um “modismo extra-rock”. Moda esta desconcertantemente colada a protestos quase sempre autênticos. O que poderia conferir um desesperado idealismo à atuação deles. Ações que, no entanto, perderiam a aura romântica ao serem descobertas como premeditadas. O imbróglio é, assim, sinistro. E tanto mais ao gosto da mídia em busca de “sensações de primeira página”. Mas há quem veja no surgimento dos Black Blocs, país após país, o patrocínio de organismos apátridas, agências de inteligência e insuspeitadas “reinsurgências de direita”. Seriam organismos direcionados para implantar o caos em nações-chave da economia e da política mundiais. Se a suspeita for suscetível de comprovação – embora peremptoriamente negada na internet pelos interessados –, então os Black Blocs poderiam ser vistos (e tratados) como uma ameaça à democracia.
“Militâncias secretas”
Explicar esses grupos – com anárquicos uniformes de peças negras e máscaras ninja – tem mobilizado articulistas de todos os matizes e de todas as mídias. Com uma característica que lhes agrega um indefinido mistério de improvisada guerrilha urbana, os Black Blocs continuam assim a desafiar editorialistas locais e estrangeiros. A tendência então é considerar o vandalismo, irrefreável pelas “forças da ordem”, como um “defeito de governabilidade”. Ou inabilidade inerente à exacerbada democracia. Ou ainda ingênua redundância que atribui exigências de “mais democracia” como “leitmotiv espiritual” das manifestações. Aliás, só possíveis exatamente porque a democracia é plena na garantia de manifestações. Foram importantes jornais americanos e europeus – como New York Times e El País – que primeiro editorializaram os “anseios de mais democracia” no Brasil, dando-lhes similitude com a contracultura em Berlim na década de 1980.
Os editoriais e artigos consultados desde julho último na mídia impressa e em sites do Rio e São Paulo questionam em contrapartida também o alcance e a autenticidade da soberania popular em manifestações que não conseguem se desgarrar da violência. Cientistas políticos que se abstraem do vandalismo considerando o ato criminoso como casos em separado de polícia, veem nas manifestações um sadio exemplo de “liberdade democrática em ação com garantias constitucionais”. Não importa se os manifestantes representam ou não uma vontade majoritária. É a liberdade ampla e irrestrita rolando nas passeatas, mesmo que elas expressem apenas desejos de cabeças comunitárias, pontas de lança classistas e amostragem de grupos menores. Em comum, todos parecem movidos pelo impulso da mídia (TV principalmente) e pela mobilização político-partidária nos dois extremos do “espectro ideológico”. O que parece um contrassenso. Embora energeticamente os extremos se atraiam. E se completem. É exatamente neste exercício tão democrático que as passeatas acabam por oferecer inapeláveis oportunidades para grupos se infiltrarem. E poderem confrontar e destruir. Danificando primeiro as próprias causas e razões de que se valem e movem multidões. Uma delas, possivelmente a causa mais agredida, é a defesa da mobilidade urbana.
Nas ruas “por dever constitucional de garantir e orientar as manifestações”, a polícia acaba incluindo-se no rol dos vândalos. Conquistam mesmo mais antipatias ao se submeterem ao arbítrio do despreparo e da truculência inerente ao mister policial. No caso das PMS há notório resquício da bem recente ditadura militar quando a repressão sem limites era ordem e rotina. O paradoxo democracia/repressão teria como pretexto a proteção de áreas públicas com seus aparatos de serviços e monumentos. Todo esse conjunto de dificuldades e obstáculos ativa ainda mais as minorias violentas. Neste momento estratégico é que o embate manifestação- polícia pode ser visto como uma radical competição esportiva proibida. E por isso mesmo mais atrativa para “entusiastas militâncias secretas”. Afinal não é este o espírito empolgante dos videogames? E não é aí que mora o potencial maior do modismo juvenil?
Experiências do Norte africano
As últimas manifestações relatadas na mídia esclarecem que as depredações e o vandalismo não são mesmo consequência do embate fortuito. Tomadas predominantemente por militantes de outro fenômeno recente – conhecido por Mídia Ninja (Ninja de “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”) – são imagens e testemunhos que só se fazem possíveis porque são colhidos “heroicamente bem de perto” mostrando toda uma evidência de premeditação nos quebra-quebras. Evidência que não mais se discute. O que se questiona é “a impunidade do frenesi predatório” que dá lugar e vez ao medo ante a simples necessidade de trabalhar, voltar para casa, estudar, divertir-se, transitar.
Nessas horas – sempre as mais críticas da mobilidade e em áreas vitais da cidade – o cidadão comum queda-se desamparado. Sua revolta assume então o lugar da incompreensão. E a confusão dá oportunidade a que o intuito declarado ou oculto dos predadores mascarados seja alcançado no despertar de sentimentos de necessária proteção por vezes fascistas. Como diz Francis Depuis-Déri, professor de Ciência Política da Universidade Quebec à Montreal (UQAM) autor do livro (sem tradução para o português) “Les Black Blocs” (UQAM), ouvido em 07/09/2013 por Carolina Mendonça da BBC Brasil, “a internet e a crescente insatisfação com os governos e a economia Impulsionam o movimento”. Francis Depuis conta que pesquisa o grupo há dez anos. E explica que “a internet se tornou seu principal canal de comunicação porque permite que os grupos interajam rapidamente e organizem protestos”. Nada que já não tenha sido mostrado, inclusive pela Mídia Ninja em exclusivos vídeos nervosos no meio da tormenta predatória. O que induz à conclusão que de certa forma também os repórteres do Mídia Ninja participam, com seus rústicos equipamentos de captura de imagem, dos propalados “videogames de rua”. Porque também os Mídia Ninja, no exercício da liberdade de informar, são hostilizados pela polícia. E não poucas vezes pelos vândalos “profissionais ou de ocasião”.
Materializando em livro um pensamento-chave de Jean-Paul Sartre, Nelson Padrella publicou em plena ditadura militar o seu O Fascismo é um Estado de Espírito (Edição do Autor, 1969). Hoje temos o direito sem censura a um bom exercício antifascista: pinçar nos jornais daqui e de fora as análises mais importantes que se publicam a propósito ou paralelamente a esta propalada ânsia brasileira de mais democracia e não de volta à ditadura. Ânsia que foi posta na mesa/ruas principalmente pela imprensa internacional subitamente surpreendida por uma pretensa e tardia primavera brasileira, a exemplo dos climas de flores democráticas que cresceram no Leste Europeu, na Turquia e até com as malfadadas experiências afogadas em sangue no Norte africano. Dedo e metralhadoras de agências de inteligência tipo CIA e Mossad estão, é claro, presentes e mais ativos do que nunca notadamente no Oriente Médio. A missão digital denuncia-se para demonstrar, por exemplo, que tal e qual governo – populista, islâmico, socialista? – são incompatíveis com a democracia. Portanto, concluem análises espiãs: melhor seria derrubá-los...
A doença das democracias jovens
Óbvio que a imprensa estrangeira vê também nas manifestações que varrem as principais cidades brasileiras, São Paulo e Rio à frente, uma tendência resultante da desgraçada e inexpugnável globalização político-econômica. Talvez mesmo um efeito manada sócio-política, já que o fenômeno da carneirada dirigida não se restringe mais às finanças especulativas.
A “ameaça Black Blocs” insere-se na análise do cientista político Dani Rodrik, professor de Ciências Sociais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, Nova Jersey. Em tradução de Rachel Warszawski, foi publicada pelo Valor Econômico na página A13, edição de 14/08/3013. É um texto antológico, não fosse Rodrik autor do badalado The Globalization Paradox: Democracy and the Future of de World Economy (Paperback – 2013), Sobre as armadilhas democráticas que podem levar ao autoritarismo, diz Rodrik: “A democracia repousa num jogo implícito de concessões mútuas entre grupos adversários, segundo o qual cada um concorda em defender os direitos do outro em troca de reconhecimento de seu direito de governar caso vença uma eleição.” E continua:
“As cláusulas constitucionais por si só não podem garantir esse resultado, pois os ocupantes do poder podem facilmente anulá-las. Em vez disso, normas de comportamento político correto precisam ser incorporadas pelas instituições permanentes do Estado – seus partidos políticos, parlamentos e tribunais – a fim de evitar o abuso de poder. O que sustenta essas normas é a consciência de que miná-las terá consequências prejudiciais para todos. Se eu não defender os seus direitos quando estiver no poder hoje, você terá poucos motivos para respeitar os meus quando subir ao poder amanhã. Quando uma força externa, como as Forças Armadas, interrompe esse jogo, diretamente ou porque uma das partes pode contar com sua intervenção, a dinâmica do comportamento político muda de forma irreversível. A quebra de continuidade dos partidos políticos, dos trabalhos parlamentares e dos processos judiciais estimula o surgimento de cálculos de curto prazo e alimenta práticas antiliberais. Essa é exatamente a doença das democracias jovens” (www.joject-syndicate.org).
Doenças que estão sendo expostas nas ruas, para o bem – dado às reivindicações autênticas – ou para mal, com o surgimento local dos grupos de ataque à democracia como os Black Blocs.
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José Alves Pinheiro Junior é jornalista e conselheiro da ABI e autor de A Última Hora (como ela era), entre outros livro
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