A inimaginável rotina de famílias brasileiras

Sem contar com escolas públicas de qualidade, comprometem boa parte da renda com ensino e ainda enfrentam o impasse do reduzido turno escolar
ISABEL CLEMENTE
“É inimaginável. Como vocês fazem?“
O espanto veio da inglesa Marta, ao ser informada que escola, no Brasil, só precisa funcionar quatro horas por dia. O espanto foi aumentando à medida que ela ia sendo informada sobre a inviabilidade do ensino público e o quanto as famílias (que podem, naturalmente) comprometem de sua renda para garantir boa educação aos filhos.


"Oh my God", murmurou Marta, casada, mãe de três meninas, enquanto ouvia a narração da minha rotina e do meu marido, da saga de pagar atividades extras para estender o horário das meninas na escola, da dificuldade em se contar com ajuda extra e por aí vai.
“Mas não estamos sós! Todos vivemos assim“, disse, já propondo um brinde na mesa do bar.
Rimos para descontrair. Só que o assunto é sério, quase triste. Não se trata apenas da incompatibilidade dos horários entre pais e filhos, algo que às vezes me faz questionar se habitamos de fato o mesmo planeta ou se respondemos à mesma Constituição.
Nós nos acostumamos ao inimaginável. O brasileiro tem esse condão de habituar-se à mais absurda das situações, ao pagamento estratosférico de impostos que não retornam bons serviços, ao trânsito caótico, à violência. A gente se habitua a tudo. Mas não devia.
Passou a ser um fato da vida não contar com um ensino de qualidade gratuito, um serviço praticamente de luxo, sujeito a sorteios ou provas concorridíssimas em alguns estabelecimentos federais, estaduais ou municipais.
Não nos revoltamos mais com um sistema que desvaloriza o professor e favorece uma indústria que cresce e lucra nas falhas do Estado. Sem concorrência de peso, as escolas particulares não se sentem obrigadas a oferecer um bom serviço. Poucas se destacam. Em inúmeros estabelecimentos espalhados pelo país a realidade são salários miseráveis pagos aos professores contratados e famílias iludidas. Acreditam que, por estarem pagando, serão mais bem atendidas. À reboque da má fama das escolas públicas, escolas assim florescem e poderiam ser caso para o Procon: propaganda enganosa.
Em 2008, fiz uma reportagem em Brasília, para a ÉPOCA, mostrando que havia 308 escolas públicas com resultados melhores do que a amostra das particulares na prova do Índice de Educação Básica (Ideb). É um universo limitado, longe de constituir a maioria. A exceção que só confirma a regra.
Grosso modo, os males que atingem a rede pública hoje são quase os mesmos da rede privada, em menor proporção, naturalmente. Pergunte na escola bilingue do seu filho quanto ganha um professor e você entenderá o que estou dizendo. Enquanto isso, seguimos pagando caro pelo ensino bom que o governo não oferece.
Sem uma escola pública boa e integral, as famílias que precisam são obrigadas a contratar atividades extras, transporte escolar, ou se virar de outra forma se não tiverem renda suficiente para tudo isso. Virou uma gincana. É cada um por si. O tal malabarismo diário, geralmente atribuído às mulheres que trabalham e são mães, atingem homens também, famílias inteiras que se acostumaram a essa rotina maluca para dar conta de trabalho e escola, educação e sustento, com um engarrafamento no meio.
O grande impasse da classe média ganhou evidência com o encarecimento do serviço doméstico. Já sabemos que essa profissional, ou sumiu ou ficou cara demais. Isso gerou fila nas escolas com turno integral.
Chega a ser uma ironia saber que, mesmo os que podem pagar, também ficam na mão. Uma simpática vizinha paulista contou frustrada que não conseguiu matricular os dois filhos num estabelecimento com esse perfil. Na escola das nossas filhas, tivemos que fazer reserva para 2014 devido à alta procura. Creches em período integral estão aceitando matrícula e reserva de vaga para bebês que sequer nasceram, tanto na zona sul como na zona norte do Rio.
Na rede pública, a situação é ainda mais grave porque não se trata de comprar um produto muito desejado, mas de encontrá-lo nas prateleiras. Não tem. Dados do Ministério da Educação indicam que apenas 7% das escolas públicas do país funcionam em horário integral, um cenário desolador. Nesse caso, os atingidos são a parcela mais vulnerável da sociedade brasileira, que nunca teve como opção pagar por um ensino melhor E ao deixar o filho na escola, tendo que retornar quatro horas depois para buscar, não tem como trabalhar.
“Não há país desenvolvido que tenha se contentado com quatro horas de aula por dia“, afirma Isabel Santana, da Fundação Itaú Social.
Países que priorizaram a educação exigem entre seis e oito horas por dia de aulas das escolas, segundo Carlos Henrique Araújo, consultor pedagógico, ex-presidente do Inep. "Quatro horas de aula é muito pouco porque se você analisar a rotina, entenderá que a produtividade dessas quatro horas, dependendo do lugar, cai para umas duas horas e meia, se você descontar recreio, bagunça, distração. É um padrão dos mais pobres países da África", diz.
O Brasil continua dando vexame em qualquer avaliação internacional comparativa sobre o desempenho dos alunos. É um problema tanto de forma (turno muito curto) como de conteúdo (o que é trabalhado e por quem) ainda que esses dois fatores estejam intimamente ligados.
A maior parte do sistema de ensino nacional está a léguas da escola que queremos e precisamos. O turno é apenas um dos aspectos dessa extensa agenda que deveria ser prioridade nacional mas não é. Uma das metas do Plano Nacional de Educação, que aguarda votação no Congresso desde 2011, é o aumento do percentual de escolas da rede pública com horário integral.
Muitas mudanças só acontecem quando a sociedade pressiona. Quem está pressionando pela aprovação do Plano Nacional de Educação?
A mais recente promessa que a Educação tem recebido são os investimentos que poderão ser feitoscom recursos da exploração de petróleo no pré-sal. Atenção: acredita-se que o primeiro óleo comece a jorrar lá por 2020. É sério isso? Vamos esperar pelo dinheiro do pré-sal? Até lá, gerações inteiras nem estarão mais na escola.
Diante de um tema tão relevante, e reconhecendo que é impossível esgotá-lo numa coluna, vou terminar falando de perfumaria: o descompasso das horas entre escola e trabalho requer um acordo, um debate aberto que diz respeito à qualidade de vida de todos.
Considero um problema social crônico essa incompatibilidade entre as escolas como elas são hoje e a vida dos adultos que trabalham fora. É como se por trás de toda criança não houvesse família com adultos encarregados de garantir o sustento dela e de todos. Faça as contas: são 20 horas de aula x 44 horas de labuta semanal.
O problema dessa luta por um expediente escolar mais compatível com a vida de quem trabalha fora (ou vice-versa com horários de trabalho mais flexíveis) é que ela é transitória. Mobiliza milhões de pessoas durante o curto período da infância. Tão logo as crianças cresçam e estejam aptas a voltarem sozinhas para casa, os responsáveis seguem adiante com os demais desafios ao longo dessa jornada. E aí o problema passa a ser da vizinha, da amiga ou da desconhecida que acabou de engravidar.
Estamos vivendo uma revolução de costumes. As famílias, obrigadas a se virar em casa sem contar com empregada todo dia ou o dia todo, reformularam suas rotinas. Considero isso uma tomada de consciência com frutos ainda imperceptíveis porque tem a ver com o cuidar do lar, do outro e de si mesmo. Muitos precisaram se planejar com a ajuda de calculadora porque se acostumaram a direcionar boa parte da renda familiar para a educação, e porque, em muitos casos, só (algumas) escolas têm a solução que eles precisam, como um cursinho extra depois do horário.
Outras mudanças surgiram da flexibilização do horário de trabalho. Soube de gente que deu um jeito e conseguiu dispensar o transporte escolar. Mas a gente sabe que essa negociação, infelizmente, não está ao alcance de todos, pelos mais variados motivos.

Estamos prontos para transformar o inimaginável em factível. Sabemos a lição de cor. Só falta mesmo combinar com o resto: as escolas, o trabalho, o trânsito...  
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