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domingo, 31 de maio de 2015

Dependência química é a principal causa da deserção de bombeiros no Rio


Rafael Soares

Luiz Carlos da Silva, de 55 anos, é bombeiro militar no Rio há 25 e, até dezembro, quando sofreu um AVC, dirigia ambulâncias do Samu. Já trabalhou em quartéis da corporação em Jacarepaguá e no Centro e, ultimamente, socorria pessoas doentes ou acidentadas na Ilha do Governador. No último dia 18, na sala de audiências da Auditoria de Justiça Militar, Luiz Carlos afirmou para uma plateia incrédula - formada por um promotor, uma juíza e uma defensora pública: usuário de crack, cocaína e álcool, ele sempre dirigiu ambulâncias “alcoolizado ou depois de ter usado drogas”.


Luiz Carlos é um dos 24 bombeiros da ativa - ele está apenas afastado devido ao problema vascular - que respondem, atualmente, a processos por deserção em decorrência do consumo de drogas ou álcool. Levantamento feito pelo EXTRA a partir de dados da Auditoria Militar revela que a dependência química é o principal motivo que leva os bombeiros a abandonarem o serviço: do total de 47 processos por deserção na corporação em trâmite hoje, 37 são de militares que vivem um drama para se livrar de drogas.
Os bombeiros que respondem a esses processos continuam na corporação, servindo à população. Cinco deles já desertaram mais de uma vez.
- Já é a quarta vez que deserto. Preciso de ajuda, mas lá no quartel, sempre que tenho problemas com drogas, sou preso e, depois, obrigado a voltar ao serviço. Nunca nenhum comandante me deu apoio para conseguir tratamento - afirmou Luiz Carlos.
As histórias por trás dos processos revelam uma rotina nos quartéis bem diferente da imaginada pela população: cinco bombeiros que desertaram nos últimos dois anos contaram ao EXTRA que o uso de drogas é comum dentro das instalações da corporação.
- Já recebi cocaína na cela do quartel de Botafogo depois de ser punido justamente por usar droga - contou um militar de 45 anos, que trabalha como guarda-vidas.
Luis Carlos da Silva, bombeiro que desertou por uso de drogas, presta depoimento na Auditoria Militar
Luis Carlos da Silva, bombeiro que desertou por uso de drogas, presta depoimento na Auditoria Militar Foto: Rafael Soares / Extra
Há menos de um mês, ele foi absolvido. Na sentença, a juíza Ana Paula Monte Barros determina que, por um ano, o bombeiro deve ser submetido a “tratamento psiquiátrico e psicoterápico”. Ele frequenta três vezes por semana uma clínica estadual.
Críticas de autoridades
Promotores e defensores públicos que atuam na Auditoria de Justiça Militar criticam a forma como o Corpo de Bombeiros trata militares dependentes químicos. Para o promotor Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, a corporação erra, em primeiro lugar, ao permitir que bombeiros com problemas com drogas permaneçam em serviço.
- É muito grave quando os responsáveis por comandar a corporação permitem que um bombeiro atenda ao público sob o efeito de drogas.
Já a defensora Claudia Taranto acredita que falta sensibilidade na corporação para combater o problema.
- Esses casos só chegam à Justiça porque não são tratados internamente. Quando um militar tem problema com drogas, é sempre punido. O tratamento fica em segundo lugar. Fica clara a falta de percepção e interesse do Corpo de Bombeiros em cuidar de seus homens. O comandante tem que saber o que está acontecendo dentro dos quartéis. Em muitos casos, eles fecham os olhos para o que acontece e tratam pessoas doentes como criminosos. Para a tropa, a mensagem que passam é essa: “Não importa como vocês estejam, mas venham para o quartel” - afirma a defensora.
O Corpo de Bombeiros alegou que “o uso de drogas pelos militares é coibido pela corporação, pois compromete o socorro às emergências atendidas e afeta negativamente a disciplina e a ética do bombeiro militar. Quando é verificada alguma ocorrência desse tipo na unidade, são tomadas providências administrativas”. Segundo a corporação, “quando é verificado que o militar está em situação de dependência química, o mesmo é submetido a tratamento médico e social”.
Segundo o Corpo de Bombeiros, no total, há 15.661 militares na ativa. A corporação alega que, quando o militar deseja superar a dependência, deve procurar suporte no Centro de Psiquiatria do hospital da corporação e na Diretoria de Assistência Social.
Durante as últimas duas semanas, o EXTRA entrevistou cinco bombeiros da ativa que respondem por deserção e continuam trabalhando: um socorrista, dois motoristas (um de ambulância e outro de rabecão), um guarda-vidas e um combatente de fogo.


Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/dependencia-quimica-a-principal-causa-da-desercao-de-bombeiros-no-rio-16313256.html#ixzz3blMrpfyi
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